Rendimento Básico Incondicional na TSF

A rádio  TSF discutiu o Rendimento Básico Incondicional no programa “Olhe que não”, com João Cardoso Rosas e Catarina Neves. O programa pode ser ouvido em https://www.tsf.pt/programa/olhe-que-nao/emissao/concorda-com-o-rendimento-basico-incondicional-para-todos-os-cidadaos-para-quem-trabalha-e-para-quem-nao-quer-trabalhar-10901054.html?autoplay=true

 

 

Concorda com o Rendimento Básico Incondicional para todos?

 

E se, no futuro, todos os cidadãos tivessem direito a um rendimento básico, quer trabalhassem quer não? Uma questão ética e disruptiva no conceito de trabalho tal como o conhecemos em discussão no programa “Olhe que não”.

Rendimento Básico Incondicional: uma prestação social de mesmo valor para todos os cidadãos, quer trabalhem ou não, sejam ricos ou pobres.

João Cardoso Rosas, presidente do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, e Catarina Neves, doutoranda na mesma instituição, trocam ideias sobre o tema no programa da TSF ” Olhe que não “.

João Cardoso Rosas é investigador nas áreas da teoria política, da filosofia política, das ideologias políticas e da filosofia dos Direitos Humanos, com vários livros publicados sobre estes temas. Catarina Neves, depois de uma licenciatura em ciência política e um mestrado em gestão, estuda agora o rendimento básico incondicional e colabora com a associação que defende a sua implementação em Portugal.

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2081

Trata-se da adaptação, em curta-metragem, do conto de original Kurt Vonnegut’s Harrison Bergeron 2081 mostra-nos um futuro no qual constitucionalmente todos os cidadãos são finalmente iguais. Quem tem excecionais capacidades auditivas, visuais, quem for mais bonito ou mais forte e inteligente é obrigado a fragilizar as suas vantagens individuais.

Interessante para abordar o problema político da igualdade e da diferença.

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Publicado em Cinema e Filosofia, Sérgio Lagoa

Filosofia no Feminino – Entrevista com Martha Nussbaum

Com legendas em Português.

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Metodologias didáticas da Filosofia

Quais são as metodologias didáticas utilizadas em Filosofia?

Trata-se de uma questão muito polémica que nos levaria a discutir assuntos tão diversos como:

  • existe um método para ensinar filosofia?
  • existe uma didática específica da filosofia?
  • pretendemos ensinar filosofia ou ensinar a filosofar?
  • a filosofia contém em si a sua própria didática?
  • as metodologias de trabalho filosófico supõem a inscrição em alguma metafilosofia? (por exemplo, filosofia continental ou filosofia analítica)
  • existem pressupostos psicológicos que condicionem ou fundamentem tais metodologias didáticas? (por exemplo, o caso da filosofia com crianças)
  • a implementação de estratégias didáticas implica a clarificação das competências que se pretende desenvolver nos alunos?

Posto isto, interessa perceber quais são as metodologias, técnicas ou estratégias didáticas utilizadas e filosofia. A título de exemplo, cá ficam algumas:

  • trabalho de texto (análise, síntese e interpretação)
  • diálogo socrático
  • exposição magistral
  • debate
  • ensaio filosófico
  • análise e discussão de [trechos de] filmes
  • controvérsia construtiva
  • trabalho de grupo
  • simpósio
  • mesa redonda
  • comentário de texto
  • leitura partilhada e discussão de histórias e contos (Lipman)
  • dissertação filosófica
  • metodologia de trabalho de texto longo
  • utilização de ferramentas digitais para criação de conteúdos, discussão, avaliação, etc. (mapas conceptuais — Mindomo, CMapTools, … — , mapas de argumentos — Rationale, Argunet, Kialo, … –, Kahoot, Padlet, Moodle, …
  • atividades diversas de conceptualização, argumentação, problematização

Sem prejuízo de que a discussão ocorra por aqui, foi criada uma “sondagem” no grupo “Filosofia e Ensino”, onde a discussão é mais ágil e onde todos podem acrescentar opções didáticas.

Siga este link:

https://www.facebook.com/groups/filosofiaeensino/permalink/10157144043536383/

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Quiz Show e o Carácter Moral das Acções

Quiz Show é um filme realizado por Robert Redford em 1994, baseado num caso verídico de fraude televisiva na NBC nos anos 50.

Na altura, um académico chamado Charles Van Doren participou durante várias semanas num programa televisivo chamado Twenty-One, ganhando consecutivamente até que denúncias por parte do campeão anterior, Herb Stempel, chamam a atenção das autoridades que acabam por descobrir toda a trama por detrás do concurso.

Antes e durante a sua participação no concurso, Van Doren enfrenta dúvidas quanto à legitimidade da sua fama (embora a aprecie largamente), dúvidas essas que se intensificam perante a ameaça da investigação, mas para as quais procura apresentar justificações morais, como o bem maior provocado nos mais jovens, ávidos de aprender e de frequentar as suas aulas em busca de mais conhecimento.

Um filme que permite a abordagem de perspectivas morais como as de Kant e Mill, e para a qual sugerimos a utilização do guião por nós elaborado (sob licença Creative Commons).

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A Objetividade dos Valores

«Os valores não existem, pelo menos da mesma forma que as pedras e os rios. Considerado à margem dos sentimentos e dos interesses humanos, o mundo parece não incluir quaisquer valores. […]

Este é o «argumento metafísico»: as opiniões éticas não podem ser objetivamente verdadeiras ou falsas porque não existe uma realidade moral a que possam corresponder ou não corresponder. Esta é a diferença profunda entre a ética e a ciência. A ciência descreve uma realidade que existe independentemente dos observadores. Se os seres sencientes deixassem de existir, o mundo permaneceria inalterado nos restantes aspetos – continuaria a existir e não deixaria de ser precisamente como a ciência o descreve. No entanto, se não existissem quaisquer seres sencientes, não existiria qualquer dimensão moral na realidade. Podemos resumir o argumento desta forma:

1. Existem verdades objetivas na ciência porque existe uma realidade objetiva – o mundo físico – que a ciência descreve.

2. Mas não existe qualquer realidade moral comparável à realidade do mundo físico. Não existe «lá fora» algo que a ética possa descrever.

3. Logo, não existem verdades objetivas na ética.

Uma vez mais, podemos perguntar se isto é correto. É verdade, julgo eu, que não existe qualquer realidade moral comparável à realidade do mundo físico. Contudo, não se segue daqui que não possam existir verdades objetivas na ética. A ética pode ter uma base objetiva de outra forma. Uma investigação pode ser objetiva de duas formas:

• Uma investigação pode ser objetiva porque existe uma realidade independente que esta descreve correta ou incorretamente. A ciência é objetiva neste sentido.

• Uma investigação pode ser objetiva porque existem métodos de raciocínio fiáveis que determinam a verdade e a falsidade no seu domínio. A matemática é objetiva neste sentido. Os resultados matemáticos são objetivos porque são demonstráveis com os tipos relevantes de argumentos.

A ética é objetiva no segundo sentido. Não descobrimos se uma opinião ética é verdadeira comparando-a com uma espécie de «realidade moral». […] Descobrimos antes o que é certo ou o que se deve fazer examinando as razões ou os argumentos que, numa dada questão, podem ser avançados a favor de cada um dos lados – é certo aquilo que está apoiado pelas melhores razões para agir. Basta que possamos identificar e avaliar as razões a favor e contra os juízos éticos e que cheguemos a conclusões racionais.»

James Rachels, Problemas da Filosofia. Lisboa: Gradiva, 2004.

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Diversidade cultural – A história dos Nacirema

«As crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspetos tão invulgares que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano.

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre a sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste.

De acordo com a mitologia dos Nacirema, a sua nação foi criada por um herói cultural, Notgnihsaw, que é conhecido por duas incríveis proezas: ter atirado um colar de conchas para o rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que tem crescido num rico habitat natural. Apesar de o povo dedicar muito tempo às atividades económicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável parte do dia são dedicados aos rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como interesses dominantes no ethos deste povo.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que tende naturalmente para a debilidade e para a doença. Encarcerado num corpo como este, a única esperança do homem é afastar estas características através de rituais e cerimoniais.

Cada habitante tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos da sociedade têm vários santuários em casa e, de facto, a opulência de uma casa, muito frequentemente, é medida em termos do número de centros rituais que a compõem.

O ponto central do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre, guardam-se os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita poder viver. Tais preparados são conseguidos através de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxílio deve ser recompensado com dádivas substanciais.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias, cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina o seu rosto sobre a caixa-de-
-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por «sagrados-
-homens-da-boca». Os Nacirema nutrem um horror quase patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam influenciar todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais, os dentes cairiam, as gengivas começariam a sangrar, os maxilares encolheriam, deixariam de ter amigos e seriam rejeitados pelos companheiros.

Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, há um ritual que envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, chegando mesmo a revoltá-lo. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com alguns pós mágicos e em movimentá-lo por meio de uma série de gestos altamente formalizados.

Esperamos que quando for realizado um estudo completo acerca dos Nacirema seja feito um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas. Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da-boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolva um certo grau de sadismo.

Foi a estas tendências que, em 1936, o Prof. Linton se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporais desempenhados apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície do rosto com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimónia, as mulheres ousam colocar as suas cabeças em pequenos fornos durante cerca de uma hora.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de determinada dimensão. Sabe-se que as crianças, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem às tentativas de as levarem ao templo porque «é lá que se vai para morrer».

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que se baseiam na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e às suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras.

As funções naturais de reprodução são, igualmente, distorcidas. Evita-se a gravidez pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do relacionamento sexual em certas fases da lua. A conceção é, na realidade, pouco frequente. Quando estão grávidas, as mulheres vestem-se de modo a esconder o seu estado. O parto faz-se em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta os filhos.»

Horace Miner, «Body ritual among Nacirema», American Anthropologist, 1956.

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A Subjetividade dos Valores

«As questões sobre «valores» – isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos – estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veementemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram – a de que as questões sobre «valores» estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem «valor», estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. […] Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste sempre em criar nos outros emoções semelhantes às suas – ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua atividade.

Quando um homem diz «Isto é bom em si» parece estar a exprimir uma proposição, como se tivesse dito «Isto é um quadrado» ou «Isto é doce». Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é «Quero que toda a gente deseje isto», ou melhor, «Quem me dera que toda a gente desejasse isto». Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, nada afirma, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na ética. […] Se esta análise está correta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral – e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso. A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da «subjetividade» dos valores. Esta doutrina consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer género de verdade. Quando um homem diz «As ostras são boas» e outro diz «Eu acho que são más», reconhecemos que nada há para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são deste género, embora pensemos naturalmente que não o são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que a das ostras. A razão principal para adotar esta perspetiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. Se estivéssemos de acordo a este respeito, poderíamos defender que conhecemos os valores por intuição. Não podemos provar a um daltónico que a relva é verde e não vermelha, mas há várias maneiras de lhe provar que ele não tem um poder de discriminação que a maior parte dos homens tem. No entanto, no caso dos valores não há qualquer maneira de fazer isso, e aí os desacordos são muito mais frequentes que no caso das cores. Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos de chegar à conclusão de que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objetiva.»

Bertrand Russell (1935), Ciência e Ética, trad. de Paula Mateus.

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Quais são os valores contemporâneos?

«No passado, os Homens tinham certezas religiosas e morais. Toda a vida individual e social estava organizada em redor dessas crenças sagradas. Os seus símbolos de pedra, os monumentos religiosos, sobreviveram aos milénios. Tal como as estátuas dos deuses, os livros de inspiração divina. A grande mudança teve lugar com a Revolução Industrial. Então, a pouco e pouco, a banca, a bolsa, o arranha-céus de escritórios substituíram a catedral. Paralelamente à crise do sacro, difunde-se a recusa do conceito de pecado e, eventualmente, do conceito de culpa. As grandes revoluções contemporâneas, a libertação sexual, o feminismo, fizeram desaparecer muitas crenças e muitas normas consideradas imutáveis.

Já não existem tábuas da lei absolutas e imutáveis e muitos pensam, depois de Nietzsche, que os conceitos de bem e de mal se estão a desvanecer, tal como a ideia de demónio e da tentação.

Muitos pensadores laicos constatam que o pensamento progressista triunfa hoje, mas como que despojado de valores. Ensina a não ser fanático, a ser tolerante, racional, mas ao fazê-lo, aceita um pouco de tudo, o consumismo, a superficialidade da moda, o vazio da televisão. Não consegue, sobretudo, fazer despertar nos indivíduos uma chama que vá para além do
mero bem-estar, um ideal que supere o horizonte de uma melhor distribuição dos rendimentos. Não cria metas, não suscita crenças. Não sabe fornecer critérios do bem e do mal, do justo e do injusto. Desta forma, tudo se reduz à opinião e à conveniência pessoais.

Isto é o que os filósofos, os sociólogos e os observadores críticos continuam a dizer do nosso mundo.

E não restam dúvidas de que, em boa medida, as suas observações têm fundamento. Mas, em nosso entender, não tomam em consideração os valores positivos do mundo moderno, a sua moralidade específica.

Partamos da observação de alguns factos. A nossa sociedade tem muitos valores reconhecidos, partilhados, não discutidos. Considera negativamente a violência em todas as suas formas. A nossa sociedade eliminou as formas mais brutais de abuso. Eliminou o duelo, as vinganças privadas. Hoje, a pouco e pouco, está a eliminar os focos de guerra. Combateu a doença e as dores físicas e mentais. Defendeu as crianças, os velhos, os doentes, protegendo-os com uma rede de direitos. Combate os preconceitos raciais, as discriminações étnicas. É certo que estas coisas ainda existem, mas são condenadas e combatidas como nunca o foram no passado. A nossa sociedade favoreceu a ciência, o conhecimento objetivo, difundiu a instrução, procurou estabelecer a equidade social, nivelando as diferenças mais agudas. Tornou-
-nos mais compreensivos das necessidades dos outros, mais civilizados, mais amáveis. Fez com que nos tornássemos mais conscientes em relação à natureza, à vida animal, ao nosso próprio planeta. Também não é verdade que não sintamos o dever. Sentimos como drama e dever a pobreza do Terceiro Mundo. Sabemos que é nosso dever acabar com a miséria, com a fome, com os desgastes provocados pelas doenças. Sabemos que é nosso dever dirigir o progresso técnico para um equilíbrio ecológico que garanta a vida às gerações futuras.

Não nos sentimos, de facto, para além do bem e do mal. Talvez sejamos hipócritas, mas damo-nos conta de que os desastres sociais e naturais são o produto do nosso egoísmo individual e coletivo.»

Francesco Alberoni e Salvatore Veca, O altruísmo e a moral. Lisboa: Bertrand, 1998.

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O que são valores?

«O que são valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos: necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto, como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um vestido, utilidade de uma ferramenta.
Se observarmos o vestido, o quadro ou a ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades. Nos objetos mencionados há algumas qualidades que parecem essenciais para a própria existência dos objetos, por exemplo, a extensão. Mas o valor não confere nem agrega ser, pois a pedra existia plenamente antes de ser talhada, antes de se transformar num bem. Enquanto as qualidades primárias não se podem eliminar dos objetos, bastam uns golpes de martelo para terminar com a utilidade de um instrumento ou a beleza de uma estátua. Antes de incorporar-se no respetivo portador ou depositário, os valores são
meras «possibilidades», isto é, não têm existência real, mas virtual.

Ver-se-á melhor a diferença se se comparar a beleza, que é um valor, com a ideia de beleza, que é um objeto ideal. Captamos a beleza primordialmente por via emocional, enquanto a ideia de beleza apreende-se por via intelectual.

Com o fim de distinguir os valores dos objetos ideais, afirma-se que estes são enquanto os valores não são, mas valem.

Uma característica fundamental dos valores é a polaridade. Enquanto as coisas são o que são, os valores apresentam-se desdobrados num valor positivo e o correspondente valor negativo. Assim, a beleza opõe-se à fealdade, o mal ao bem. A polaridade implica a rotura com a indiferença. Não há obra de arte que seja neutra, nem pessoa que se mantenha indiferente a escutar uma sinfonia, ler um poema ou ver um quadro.

Aliás, os valores estão ordenados hierarquicamente, isto é, há valores inferiores e superiores. É mais fácil afirmar a existência de uma ordem hierárquica do que indicar qual é essa ordem e quais são os critérios para a estabelecer.

Muitos são os axiólogos que têm enunciado uma tábua de valores, pretendendo que essa seja a «Tábua», mas a crítica mostra rapidamente os erros de tais tábuas e dos critérios usados na sua elaboração.

O homem, individualmente, bem como as comunidades e os grupos culturais concretos, manejam sempre uma tábua de valores. É certo que tais tábuas não são fixas, mas flutuantes, e nem sempre coerentes; porém, é indubitável que o nosso comportamento frente ao próximo, aos seus atos, às suas criações estéticas (…), é julgá-los e preferi-los de acordo com uma tábua de valores. Submeter essas tábuas de valores, que obscuramente influem na nossa conduta e nas nossas preferências, a um exame crítico é a tarefa a que o homem moderno não pode renunciar.»

Risieri Frondizi, Qué son los valores?

México: Fondo de Cultura Económica, 1958.

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