Promessa mentirosa

Ponhamos por exemplo a questão seguinte: – Não posso eu, quando me encontro em apuro, fazer uma promessa com a intenção de a não cumprir? (…) Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima (de me tirar de apuros por meio de uma promessa não verdadeira) tomar o valor de lei universal (tanto para mim como para os outros)? E poderia eu dizer a mim mesmo: – Toda a gente pode fazer uma promessa mentirosa quando se acha numa dificuldade de que não pode sair de outra maneira? Em breve reconheço que posso, em verdade, querer a mentira, mas que não posso querer uma lei universal de mentir; pois, segundo uma tal lei, não poderia propriamente haver já promessa alguma, porque seria inútil afirmar a minha vontade relativamente às minhas futuras acções a pessoas que não acreditariam na minha afirmação, ou se precipitadamente o fizessem, me pagariam na mesma moeda. Por conseguinte, a minha máxima, uma vez arvorada em lei universal, destruir-se-ia a si mesma necessariamente.
Não preciso, pois, de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei-de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: – Podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? Se não podes, então deves rejeitá-la (…).
Kant, Fundamentação da metafísica dos Costumes, tr. Paulo Quintela, Porto Editora, pp. 40, 41.
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Publicado em Ética, Kant

David S. Oderberg – Uma crítica ao argumento (de Peter Singer) em defesa da eutanásia voluntária #2

O ponto em que a analogia com a vida termina reside, contudo, no facto de, embora a pessoa possa indubitavelmente alienar o seu direito a este ou àquele bem (…) não pode alienar o seu direito à propriedade em geral, considerado independentemente da alienação de determinados bens. Uma pessoa não pode declarar validamente «Renuncio ao meu direito de, enquanto ser humano, ter bens que me pertencem». Alienar o direito que se tem a este ou àquele bem não pressupõe alienar o direito à propriedade em geral, sendo portanto compatível com a manutenção desse direito. Por outro lado, uma alegada alienação do direito à vida específica que se tem pressupõe uma alegada alienação do direito à vida em geral, dado que é impossível ter mais do que uma vida. Assim, pois, enquanto a alienação deste ou daquele bem em nada afecta o direito à propriedade em geral, a alegada alienação da vida específica que o leitor tem afecta o seu direita à vida em geral, bem como a atitude que o leitor adopta relativamente a tal direito. Há portanto uma distinção importante a fazer entre os dois tipos de direitos, que permite perceber por que motivo se podem alienar certos bens, mas se pode, no mesmo sentido, alienar uma certa vida.
David S. Oderberg, Ética Aplicada – uma abordagem não consequencialista,
tr. Maria José Figueiredo, Principia, pp. 77, 78.
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Publicado em Bioética, Ética

David S. Oderberg – Uma crítica ao argumento (de Peter Singer) em defesa da eutanásia voluntária #1

É este o principal argumento a favor da eutanásia voluntária: Todos os direitos são alienáveis; existe o direito à vida; portanto, o direito à vida é alienável. Se uma pessoa sã de mente, capaz de pensar racionalmente, de avaliar com todo o cuidado a situação em que se encontra, tendo à sua disposição toda a informação relevante, toma deliberadamente a decisão de morrer, decisão essa que não foi tomada em resultado de coacção, ou de qualquer influencia indevida, e que é expressa por essa pessoa de forma clara e persistente, devemos considerar que essa pessoa alienou o seu direito à vida. (…)
Reflectindo um pouco sobre o assunto, contudo, compreendemos que a ideia de que todos os direitos são alienáveis não pode ser verdadeira. A principal analogia a que recorrem os defensores da eutanásia é a analogia com os direitos de propriedade. Se o direito à propriedade é alienável, por que motivo não o é igualmente o direito à vida? Uma premissa que normalmente se encontra neste argumento é a de que o direito à vida mais não é do que uma espécie de direito de propriedade, dado que nós somos proprietários do nosso corpo. (…) Para os defensores da analogia vida/propriedade, o problema consiste no facto de existirem, apesar de tudo, dissemelhanças relevantes entre o direito à vida e o direito à propriedade, e no facto de as semelhanças que existem entre os dois serem em apoio da inalienabilidade do direito à vida.
David S. Oderberg, Ética Aplicada – uma abordagem não consequencialista,
tr. Maria José Figueiredo, Principia, pp. 76, 77.
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Publicado em Bioética, Ética

Da filosofia do charco à da subtileza

Um dos problemas filosóficos mais facilmente associável à vivência humana do dia a dia é o de saber se temos ou não obrigação moral de ajudar quem vive em pobreza extrema. Peter Singer avançou com um dos mais famosos e pungentes argumentos acerca deste tema. Segundo ele se podemos evitar um mal, algo profundamente negativo, mesmo que isso nos cause um pequeno prejuízo (e se esse pequeno prejuízo é de importância moral bastante inferior ao mal que se evita), então temos a obrigação de agir. (cf. Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, pp. 250-252) Este argumento é ilustrado com o famoso exemplo da criança em risco de vida num lago. «Suponhamos que me apercebo de que uma criança caiu a um lago e está em risco de se afogar. Alguém duvida que eu devia entrar no lago e tirar de lá a criança? Isso implicaria ficar com a roupa cheia de lama entre outros inconvenientes; no entanto, em comparação com a morte evitável da criança, isso é insignificante. Um princípio plausível que apoiaria o juízo de que devo tirar a criança do lago é o seguinte: se estiver nas nossas mãos evitar que aconteça um grande mal, sem com isso sacrificarmos nada de importância moral comparável, devemos fazê-lo.» (250) Parece realmente plausível que perante um cenário destes temos a obrigação moral de agir e salvar a criança. A questão torna-se mais densa quando Singer estende o alcance deste argumento para a obrigação de ajudar os pobres. Se os ricos não sacrificarem nada de importância moral comparável, e se considerarmos a vida em pobreza absoluta uma coisa má, então os ricos têm a obrigação moral de ajudar quem vive em grandes dificuldades.
Este argumento inspirou o próprio autor a criar um sítio na Internet em que divulga o seu último livro (http://www.thelifeyoucansave.com/) ao mesmo tempo que convida as pessoas a assumir o repto de ajudar a salvar uma vida fazendo uma doação de uma parte do seu rendimento. [Para ver e ouvir o próprio Peter Singer a argumentar clique aqui. Para ler o argumento na base desse livro – que no fundo é uma versão daquele analisado neste texto – clique aqui. Aliás esta postura não é única, felizmente. Outro pensador com créditos no mundo académico, Thomas Pogge, assumiu uma posição semelhante. Criou uma proposta concreta a que chamou Health Impact Fund. Para saber mais clique aqui.]

Das dificuldades normalmente apontadas ao argumento de Singer gostava apenas de me centrar naquelas avançadas por Kwame Anthony Appiah no seu livro Cosmopolitismo – Ética num mundo de estranhos, Publicações Europa-América. Este autor rejeita a conclusão forte do argumento, embora sinta intuitivamente o apelo do argumento. «O problema com este argumento não é afirmar que nós temos obrigações incríveis com estranhos. O problema é afirmar que nós temos obrigações incríveis.» (Appiah, p. 157) Este filósofo cosmopolita entende que o princípio moral proposto por Singer nos obriga a uma postura radical que pode inclusivamente levar-nos à ruína. Por isso, reformula-o e apresenta um princípio semelhante apelidando-o de «princípio da emergência», mas que não possui, segundo Appiah, as consequências do princípio de Singer: «Se você é a pessoa na melhor posição para impedir algo realmente horrível, e se não custa muito fazê-lo, então faça-o.» (159) Para Appiah, a nuance introduzida com a expressão «a pessoa na melhor posição para» assegura que não seremos penalizados moralmente por não realizarmos sacrifícios excessivos para aliviar a pobreza num lugar qualquer recôndito do globo. Se esta argumentação parece querer desculpar a não intervenção e justificar a passividade perante desastres humanitários, julgo que devemos atentar nalguns limites à nossa aplicação do princípio de Singer que podem dar alguma razão a Appiah. Em primeiro lugar, qualquer ajuda humanitária para aliviar a pobreza extrema tem que ser mediada pelo Estado-nação (ou por ONGs que devem obedecer às regras desses estados). Não é possível uma ajuda eficaz sem respeitar os Estados e sem promover o seu desenvolvimento institucional. Por isso, muitas das obrigações para com quem vive em pobreza extrema são obrigações colectivas, de povo para povo, de Estado para Estado. Mas temos também obrigações particulares, individuais. Uma segunda dificuldade consistiria, portanto, em definir uma fronteira para lá da qual devemos sentir a consciência pesada, por outras palavras, um limite para a nossa obrigação básica para com as pessoas que vivem em pobreza extrema. Aqui parece-me que Appiah exagera no alcance que atribui ao argumento de Singer. Este não implica que nos sacrifiquemos para lá do razoável. Todos podemos estabelecer uma obrigação pessoal básica e cumprir essa obrigação, por mínima que seja, e ainda assim sermos coerentes com o princípio de Singer. Mas, no entender de Appiah, o princípio de Singer compromete-nos com actos claramente superrogatórios.

Uma crítica mais profunda, e mais difícil de refutar, consiste na análise da teoria do valor que subjaz ao argumento de Singer. Não podemos, diz Appiah, entender uniformemente o valor de todas as coisas. Não há uma medida uniforme e universal de valor. O problema é encarar o argumento de Singer como um peso na consciência sempre que vamos ao cinema e sabemos que o dinheiro do bilhete poderia vacinar algumas crianças num qualquer país pobre. Mas ambas as coisas são valiosas à sua maneira. Devemos dar atenção a coisas diferentes e empenharmo-nos a realizar coisas diferentes. Por isso, Appiah pergunta-nos: «Tem a certeza de que queria viver num mundo no qual a única coisa em mente de todas as pessoas fosse salvar vidas?» (163)
As subtilezas de argumentação de Appiah foram aqui apenas sugeridas de forma pouco aprofundada; fica aqui apenas a referência crucial à crítica deste autor ao argumento em favor da obrigação moral de ajudar quem vive na pobreza absoluta proposto por Singer, crítica essa que se centra na ilegitimidade moral com que coloca uma enorme responsabilidade nas costas de todos nós. Julgo, no entanto, que podemos aceitar o argumento de Singer sem o carácter superrogatório que Appiah lhe dá. Aliás, o próprio Singer parece entendê-lo assim no seu último livro, atrás referido, quando sugere um cálculo razoável para estabelecer a nossa contribuição na ajuda ao combate à pobreza.
Publicado em Direitos Humanos, Ensaio Filosófico, Ética, Filosofia Política, Rui Areal

Karl Popper e o Problema da Demarcação de Teorias Científicas

O que distingue uma teoria científica de uma não científica? Existirão critérios de demarcação entre Ciência e Pseudociência?

Karl Popper considera que sim. Neste video, onde partes do seu trabalho são narrados, é muitíssimo bem feita a explicação das diferenças entre teorias científicas (testáveis) e teorias não testáveis (pertencentes a domínios como a Astrologia ou mesmo a Psicanálise).

Excelente video para consolidação ou iniciação ao Problema da Demarcação das teorias científicas.

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Publicado em Epistemologia, Filosofia do Conhecimento

Será a IA realmente uma ameaça?

Estaremos na iminência de uma Inteligência Artificial, à semelhança dos filmes de ficção científica, em que somos dominados por uma criatura despojada de emoções, tão inteligente que nos vê como criaturas inferiores? Aparentemente, estamos ainda muito longe de uma IA à maneira da Matrix dos irmãos Wachowski, conforme demonstra a Ted Talk de Janelle Shane, onde esta é apresentada como uma forma de inteligência que, obedecendo literalmente ao que lhe é pedido pelos programadores, desconhece as mais elementares regras de semântica e de pragmática. O resultado é hilariante e surpreendente.

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Publicado em Filosofia do Conhecimento, Pensamento Crítico

Informação-Prova 2020: Filosofia 714

O IAVE publicou as informações-prova para os exames nacionais de 2020. O primeiro documento  apresenta algumas respostas para pontos mais controversos, como a distribuição das cotações; o segundo documento, respeitante especificamente a Filosofia, é semelhante para a generalidade das disciplinas.

IP Geral 2020 by lagoa1972 on Scribd

IP-EX-Fil714-2020 by lagoa1972 on Scribd

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O Papel do Cogito na Filosofia Cartesiana

Como chega Descartes ao Cogito? Quais as consequências epistemológicas do mesmo?

Vídeo legendado pela equipa do PdF. O original pode ser encontrado em: https://www.youtube.com/watch?v=7iGjiSbEp9c 

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Peter Singer: uma entrevista com Sofia Miguens e Paulo Santos

Sofia Miguens e Paulo Santos entrevistaram Peter Singer, quando esteve no Porto, em junho, para participar na International Conference on Ethics. Pode ouvir a entrevista aqui:

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O Problema do Cepticismo

Jennifer Nagel, da Universidade de Toronto, narra esta animação onde são explicados os desafios do Cepticismo, bem como as diferente versões desta perspectiva filosófica.  Uma boa forma de iniciar o Desafio Céptico no programa de Filosofia de 11.º ano.

O video original pode ser encontrado em https://www.youtube.com/user/WirelessPhilosophy

A legendagem em português foi elaborada pela equipa do Páginas de Filosofia.

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