Um filósofo em Macau no século XIX

UM FILÓSOFO EM MACAU NO SÉCULO XIX

António Aresta

Escola Secundária de Paredes

 

Francisco Saverio Rondina (1827-1897), missionário jesuíta italiano do Real Padroado Português do Oriente, prestou assinaláveis serviços à cultura portuguesa, à educação e ao ensino da filosofia em Macau.

Permaneceu cerca de dois anos no nosso país, como professor de filosofia no Colégio de Campolide. Foi o introdutor do neotomismo em Portugal, antecipando-se ao amanhecer oficial dessa corrente filosófica que se dá em 1879, com a publicação da Encíclica ‘Aeterni Patris Unigenitus’ do Papa Leão XIII.

Parte para Macau, em Janeiro de 1862, para dirigir o Seminário de S.José que se encontrava envolvido numa decadência atroz , com falta de alunos e de vocações. Chega ao Território no fim do mês de Março do mesmo ano. Era um ano especial, porquanto era o regresso dos jesuítas a Macau, cem anos após a expulsão decretada pelo Marquês de Pombal . A lei é de 1759, mas foi executada em Macau apenas em 1762. Em Portugal, sobe ao trono o Rei D.Luiz.

Francisco Rondina recordará mais tarde essa inolvidável viagem para Macau no livro “Viaggio Nell’India e Nella Cina : Flora, Fauna, Costumi e Avventure” (1884), cujo volume segundo descreve o trajecto “Da Canton a Macao”. Há aqui um enorme manancial de informações curiosas, interessantes e perspicazes que ainda não foram devidamente estudadas e enquadradas no orientalismo português. O exemplar que existe no fundo antigo da biblioteca do ex-Leal Senado tem um carimbo a dizer que foi “Oferecido pela Família Nolasco”, muito embora o seu proprietário original tenha assinado o seu nome na folha de rosto, “Manuel J. da Silva , Macau, 16 de Janeiro de 1885”.

Monsenhor Manuel Teixeira recorda que os professores do Seminário, Francisco Rondina (retórica, filosofia racional e moral, teologia dogmática), José Matos (francês, português, literatura), Faria (gramática portuguesa e latina), José Marques (chinês), António Lopes (latim e português) e Tomás Cahil (inglês), formavam uma pequena elite pelo que o estabelecimento de ensino readquiriu o seu antigo prestígio e, escassos anos volvidos já possuía cerca de quatrocentos alunos.

Um desses alunos chamava-se Manuel Gomes da Costa, mais tarde general e marechal, o mesmo que comandou a revolução de 28 de Maio de 1926 , que marcou o fim da anarquia e da turbulência do regime republicano.

Francisco Rondina era um erudito que colocou o seu saber e a sua cultura ao serviço da comunidade. Admirador confesso de Luís de Camões, do padre António Vieira, de Mendes Leal, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, Latino Coelho, entre outros, Francisco Rondina publicou as obras seguintes : “A Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo Reivindicada contra Ernesto Renan”, 1864 ; “Exame do Relatório sobre o Seminário de S.José”, 1868 ; “Algumas palavras dirigidas aos Romeiros do ano de 1860 sobre o antigo sepulcro de S.Francisco Xavier na Ilha de Sanchoão”, 1869 ; Pio XI perante a Revolução”, 1871 ; “A Educação”, 1887 ; “Filosofia Natural e Racional”, 1888. Existem outros títulos publicados na sua língua materna, o italiano.

Como Professor de Filosofia, a sua obra foi notável. A começar pela edição do “Compêndio de Philosophia Theorica e Practica Para Uso da Mocidade Portuguesa na China”, impresso na Typographia do Seminário de S. José em Macau, que era muito mais do que um simples manual escolar. O primeiro volume sairia em 1869 e o segundo em 1870. O índice das matérias é o seguinte : lógica ; lógica menor ou dialéctica ; lógica maior ou crítica ; metafísica geral ou ontologia ; metafísica especial ; cosmologia ; psicologia ; teologia natural ou teodiceia ;  filosofia moral ou ética ; filosofia social ; filosofia da religião.

O redactor do jornal ‘O Echo Macaense’ , na edição de 30 Maio de 1897, esclarece que esta obra foi feita “a expensas do falecido pai do nosso amigo, Sr. Pedro Nolasco da Silva”. Há uma mão invisível por detrás de tudo isto.

O seu propósito era muito ambicioso, “era nosso desejo introduzir aqui um curso trienal de filosofia, no qual o primeiro ano fosse consagrado à lógica e à metafísica ; o segundo à ética e ao direito natural ; o terceiro aos sistemas filosóficos ou à filosofia da religião”. Esse propósito não foi viabilizado porque Macau era “um país dedicado ao comércio, distante do centro da civilização e destituído de bibliotecas”.

Era importante rasgar novos horizontes problematizadores pelo que encarou esse desiderato com um sentido pedagógico de missão : “escrevendo nós este compêndio para a mocidade portuguesa de Macau e dos mais portos da China, em que não há aula de ensino superior, era para nós uma necessidade incluir nele os elementos de outras ciências que aqui não se ensinam, e que longe de serem estranhas à filosofia, formam pelo contrário parte da mesma, como são a jurisprudência, a economia política e a religião considerada debaixo do aspecto filosófico”.

O tomismo estava presente na concepção da obra, “as doutrinas contidas neste compêndio tem por base a filosofia de S.Tomás, exposta na sua ‘Summa Theologica e Philosophica’, e reduzida a método por dois eminentes filósofos, Goudin e Liberatore”, isto porque “a moderna filosofia, desviada do ramo que o cristianismo lhe trilhara, se foi encostando, ora ao materialismo que embrutece o homem, ora ao racionalismo que o diviniza, flutuando incerta entre estes dois sistemas fatais”.

Assim sendo ,“este regresso da filosofia aos bons princípios, abandonados numa época de alucinação e de desvario, constitui o verdadeiro progresso da ciência racional, que honra a época actual, e que promete um futuro melhor para a sociedade”.

O redactor de “O Echo Macaense” registou este impressionante apelo de Francisco Rondina aos seus alunos : “meus queridos meninos – dizia ele no meio das prelecções de filosofia e da arte oratória e poética – ficarei muito contristado quando souber que os meus discípulos depois de completado o curso de filosofia natural e racional foram engraixar as botas aos ingleses, ocupando o lugar de simples amanuenses. Dedicai-vos às ciências e artes liberais e não ao serviço mecânico. Sede advogados, médicos, engenheiros, negociantes, mas não vos deixeis estiolar o corpo e o espírito num escritório de copistas”.

Macau necessitava de homens desta têmpera, visionários e indutores de uma atmosfera cultural bem acima da mediania.

Contudo, os problemas surgiram de onde menos se esperava. No “Exame do Relatório sobre o Seminário de S.José” faz a dissecação de uma campanha contra os jesuítas, liderada pelo padre António Carvalho, entrando em pormenores tais que se vê obrigado a dizer, “perdoe-nos o leitor se descemos tão baixo a miudezas e frioleiras que nos repugnam”. Como é de costume dizer-se, fizeram dos periódicos locais uma barrela da roupa suja de animadversões e desinteligências que, em função da conjuntura, seria piedoso e útil tratar a bom recato.

Para além destes problemas intestinos no seio de uma instituição que tardava em serenar-se, Francisco Rondina tinha tido a ousadia de tocar num assunto que oficialmente não existia enquanto problema humano, jurídico e ético, a emigração dos cules , isto é , o tráfico e a escravatura dos cules, cujos fluxos migratórios para o Perú e para Cuba passavam pelo porto de Macau. Era uma questão tão rendosa quanto intocável.

Como é que o doutrinador da filosofia neotomista e dos valores humanistas e cristãos , poderia ficar silencioso e omisso, compactuando com tamanha ignonímia ?

Este protagonismo levantou enormes problemas e mal-querenças. Francisco Rondina tornou-se uma incomodidade para o ‘status quo’ dominante. Como não podia ser demitido , nem expulso de Macau, foi necessário recorrer a outro estratagema, porventura extraído dos ensinamentos de Maquiavel.

De Lisboa veio, em 1871, uma portaria , claramente ‘ad hominem’ , que estabelecia que os Professores do Seminário teriam de ser obrigatoriamente de nacionalidade portuguesa. Aqueles que não cumprissem esse requisito, teriam de abandonar o Território. Estava encontrada a solução ….

As forças vivas da cidade encabeçadas pelo Presidente do Leal Senado, Lourenço Marques , telegrafaram ao Ministro da Marinha e Ultramar ,tentando anular essa providência legislativa. Nem resposta obtiveram. Apresentaram uma petição ao Governador, com mais de oitocentas assinaturas. Ganharam mais algum tempo, mas a ordem manteve-se. O Bispo de Macau resignou ao seu cargo por não ter sido tido nem achado sobre o estatuto do Seminário e de seus Professores.

De Lisboa, o inconfundível Eça de Queirós espeta estas fulgurantes “Farpas”, em Julho de 1871, depois acondicionadas em “Uma Campanha Alegre” : “ Houve este mês um pânico patriótico : julgou-se que íamos perder Macau ! A China, segundo se afirmava, tinha intimado Portugal a evacuar aquela colónia, onde só devia reinar o rabicho ! Foi acusado acremente o Governo ; a Baixa pululou de alvitres ; e o orgulho nacional da Rua dos Retroseiros pareceu profundamente ferido. Corria que o senhor Carlos Bento, como outrora Caim, ouvia, a horas mortas, vozes vingativas que lhe bradavam : – que fizeste tu de Macau, Bento ? E tanto que o Governo , para nos tranquilizar, bradou de entre as colunas do ‘Diário do Governo’ : – Não, Portugueses, não, Macau ainda é vosso !”.

Outra acha para a fogueira foi lançada por Leôncio Ferreira que publica em 1872 ,“Um Brado pela Verdade ou a Questão dos Professores Jesuítas em Macau e a Instrução dos Macaenses”. Toma a defesa de Rondina e de seus pares, dizendo : “é necessária a união para promover uma educação e instrução apropriadas para os filhos da terra”. Palavras lúcidas e verdadeiras.

Em Xangai, E.Couto dá à estampa, em 1873, “A Verdade Reivindicada em a Questão dos Jesuítas”, uma prova de que esta problemática extravasou Macau.

A injustiça consumou-se e Francisco Rondina e os outros missionários estrangeiros foram obrigados a sair de Macau. Rumaram ao Brasil , fixando-se , mais tarde, em Itália. Aqui, nas páginas de “La Civiltá Cattolica”, continuará a escrever sobre Macau e sobre Portugal.

É surpreendente constatar que esta apaixonante e misteriosa personagem não tenha suscitado um estudo sobre a sua vida, obra e pensamento.

A N E X O

Theses para o Exame de Philosophia do 1º anno no Seminário Diocesano de Macau, em 1892(1)

Lógica Menor

1ª. Da percepção ou simples apprehensão da mente. Divisão da idêa em individual, universal, collectiva e transcendente. Extensão e compreensão das idêas. Predicaveis e predicamentos. Signal da idêa e algumas das suas divisões. Definição e divisão e suas leis.

2ª. Noção do juízo. Signal do juízo, seus elementos e divisão. Propriedades das proposições : oposição, equipolência e conversão.

3ª. Noção do raciocínio. Signal do raciocínio e seus elementos. Syllogismo e suas leis. Syllogismo condicional, disjunticvo e conjunctivo. Fallacias.

Lógica Maior

4ª. A verdade acha-se propriamente no juízo. O Scepticismo, ou duvida universal, é um systema absurdo.

5ª. A certeza é proporcional ao motivo, que por parte do objecto attrahe o assento da mente, e á essência do subjeito conhecedor : divide-se em metaphysica, physica e moral.

6ª. Na percepção do sensível próprio os sentidos, não havendo impedimento nem no órgão nem no meio, não podem errar.

7ª. O testimunho da consciencia é indubitável. A intelligencia não erra em proferir seus juízos ; e em deduzir ilações não pode errar senão accidentalmente.

8ª. A divina revelação (e diga-se o mesmo da auctoridade e consenso do género humano), não pode ser o unico nem, quanto ao tempo, o primeiro critério da verdade.

9ª. O ultimo critério da verdade parece que é a evidencia , objectiva e ontologicamente considerada.

10ª. Em certas circumstancias o testimunho histórico gera em nós verdadeira certeza.

11ª. Tanto o nominalismo como o conceptualismo e o realismo exaggerado são absurdos. O universal reflexo existe só no intendimento : o universal directo existe também nas coisas, quanto ao que se concebe, mas não quanto ao modo como se concebe.

12ª. O primeiro principio, que se acha implicitamente em todos os outros, é o principio de contradicção : Não pode a mesma coisa ser e não ser ao mesmo tempo. O principio de causalidade é indubitável. Os juízos syntheticos a priori, proclamados por Kant, são contrários á razão.

Ontologia

13ª. A noção do ente é a mais comum e simples de todas ; não se pode difinir, e é predicado essencial de tudo aquillo a que se attribui.

14ª. A noção de ente não é generica, mas analoga.

 

15ª. O conceito de substancia não é uma ficção da mente, mas exprime alguma coisa real. Nas coisas creadas, além das substancias, há accidentes reaes, realmente distinctos das substancias. Não repugna que, por virtude divina, se conservem alguns accidentes separados da substancia.

16ª. A possibilidade interna das coisas não depende da nossa intelligencia, nem das coisas existentes no mundo : depende de Deus.

17ª. A noção do finito, que não se funda na previa noção do infinito, não é meramente negativa, mas em parte affirmativa e em parte negativa.

18ª. A noção de causa efficiente é real, e deduzida da observação dos phenomenos. As causas segundas são verdadeiras causas efficientes.

Cosmologia

19ª. O mundo é um ser composto, mudável, finito e contingente. O pantheismo, sob qualquer forma que se apresente, é sempre absurdo.

20ª. O mundo foi produzido por Deus sem matéria pre-existente. A creação não repugna. O ultimo fim da creação é a glória de Deus, a qual consiste na manifestação dos attributos e perfeições divinas.

21ª. Os viventes differem essencialmente dos não viventes. As plantas vivem, mas não sentem. Os brutos animaes não são autómatos, mas gosam da faculdade de sentir, sendo porem destituídos de intelligencia.

22ª. São possíveis os milagres.

A. M. D. G.

 

(1)  Macau, Imp. Na Typographia do Seminário, 1892, 3 pp. [manteve-se a grafia original].

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Jafar Panahi’s Taxi

Realizado por Jafar Panahi em 2015 e vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, Jafar Panahi’s Taxi é um filme realista sobre a vida em Teerão e a luta pela sobrevivência numa sociedade controlada. Proibido de fazer filmes pelo governo iraniano, Panahi contorna a proibição, desta feita como taxista, contactando com pessoas de todos os extractos sociais e condição económica, que expõem o modo de vida imposto pela sharia. Liberdade de expressão e direitos das mulheres são a tónica fundamental do filme. Chamo particularmente a atenção para a  realidade das viúvas que, nessa condição, nada herdam do marido, já que o património transita directamente para os irmãos do falecido. A única salvaguarda é a declaração ainda em vida na qual se manifeste directamente vontade em deixar tudo à mulher, o que sucede no filme de Panahi.

Mais do que um filme, é um retrato cruel de uma sociedade onde a religião e o poder político, de mãos dadas, controlam e reprimem direitos que nós, ocidentais, consideramos adquiridos.

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Introdução à Filosofia para Crianças – FCSHUNL

fcsh-logoA Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa está a levar a cabo mais uma Escola de Verão e queremos aqui destacar o curso de Introdução à Filosofia para Crianças, a decorrer de 29 de Agosto a 09 de Setembro deste ano, num total de 25H. A formação será ministrada pela Prof.ª Dr.ª Dina Mendonça, membro de investigação do Instituto de Filosofia da Nova.

Mais informações aqui: http://www.fcsh.unl.pt/escola-de-verao/cursos/introducao-a-filosofia-para-criancas

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“Filosofia da Informação: Alguns problemas fundadores”, de Fernando Ilharco

Um texto seminal para quem pretende começar a estudar Filosofia da Informação. De Fernando Ilharco.

 

Fernando Ilharco Filosofia Informacao Problemas Fundadores

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O Pensamento Português em Macau

Pedro Baptista lançou recentemente o livro “Filosofia Contemporânea Portuguesa em Macau : Introdução”, [edição Livros do Meio, Macau, 2013, 195 pp., ISBN : 978-99965-851-7-3], uma proposta com um invulgar fulgor argumentativo a merecer uma problematização mais alargada mas que não cabe neste espaço. Desde logo importa referir que Pedro Baptista é doutorado em filosofia e investigador no “East-West Institute for Advanced Studies”, de Macau , e tem atrás de si uma notável folha bibliográfica, onde naturalmente se destacam “Newton de Macedo” (2006), “A Pluralidade na Escola Portuense de Filosofia” (2010), “O Filósofo Fantasma” (2010), “O Milagre da Quinta Amarela – história da primeira Faculdade de Letras da Universidade do Porto” (2012) , “Um Mundo a Fazer” (2013) , tudo isso para além de diversas obras literárias e de uma esclarecida  intervenção cultural , cívica e política.

 

“A Filosofia Contemporânea Portuguesa em Macau : Introdução” procura traçar a cartografia do pensamento português no Território e nas palavras do autor, “Infelizmente, ou felizmente para a empresa que ora encetamos, a história das ideias e, em especial, a história da filosofia em Macau é um campo em grande parte por cultivar, pelo que procuraremos abrir portas que permitam aceder aos diferentes sectores mais especializados percorridos ou, pelo menos, marcados pela filosofia”. Por ser inovador, é também um empreendimento de risco. Esta obra tem o mérito de sinalizar caminhos e o desejo de compreender Macau sob o ponto de vista cultural e filosófico. A obra estrutura-se em cinco capítulos (da génese à expressão do pensamento ; da poesia e da filosofia ; há ou não uma filosofia portuguesa ? ; a filosofia portuguesa em Macau ; bibliografia), e por eles seguiremos o pensamento do autor que também convoca outros saberes e olhares antropológicos sob as intersecções do Oriente com o Ocidente.

 

Recordo que Camilo Castelo Branco abre os “Mistérios de Fafe”, publicado em 1868, com esta irónica epígrafe : “O dilúvio, que afogou a Europa no ano 2000, foi necessário e providencial : tanta era a corrupção daqueles povos ! Um Filósofo Asiático que há-de escrever no ano de 3521”. Este fascínio pelo Oriente é também a sedução pelas ideias do Outro, uma tensão de alteridade que não se apaga e que frequentemente não se procura estudar.

 

A filosofia na tradição grega e ocidental, percorreu em Macau quatro caminhos, três institucionais e diferentes entre si (o Colégio de S. Paulo , o Seminário de S. José e o Liceu de Macau) e o outro inteiramente livre e solto, construído por leituras autónomas, por influência de personalidades marcantes e pela  imprensa. Essas três instituições não podem ser vistas do mesmo modo como se avaliam os tropos de Sexto Empírico, mas poderemos convocar uma reflexão sobre as convergências e as divergências com a filosofia  oriental e chinesa, isto é,  se foi propiciado um defensivo  barramento estratégico, pedagógico e higiénico ou se houve uma indisciplinada fluidez nas ideias filosóficas que iam e vinham ao sabor das oportunidades. Álvaro Semedo notou, com aparente normalidade, que os compêndios do “Curso Conimbricense” eram conhecidos e estudados pelas elites chineses, pouco tempo depois de terem surgido em Coimbra. Por outro lado, também é surpreendente a influência de Silvestre Pinheiro Ferreira, homenageado pelo “Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor”, que desde o ano da sua morte, em 1846, abria com esta sua divisa : “Assim, sem comprometer os públicos interesses, se satisfará ao maior de todos eles, que consiste em que toda a verdade se diga, a quem toda a verdade é devida”. Silvestre Pinheiro Ferreira, filósofo, jurista e diplomata, viveu no Rio de Janeiro com a Corte portuguesa e prestou serviço em França, na Alemanha, na Inglaterra e na Holanda.  De resto, olhando para a bibliografia produzida década após década, século após século, em Macau,  não é piedoso nem útil mascarar alguma decepção. Como lidamos com as excepções, é isso que nos salva. Também não devemos perder de vista alguns efeitos colaterais oriundos da  jóia da coroa, Goa, que desde o século XIX possuía ensino superior, com escolas de farmácia, medicina e direito, e por arrastamento uma intensa vida cultural e uma interessante produção filosófica. Uma parte significativa da elite de Macau foi formada em Goa.

 

Pedro Baptista alinha um conjunto de personalidades (José Gomes da Silva, Wenceslau de Moraes, Mateus António Lima, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, António Patrício, Joaquim Paço d’Arcos e Maria Ondina Braga) cujas obras são susceptíveis de merecerem uma demorada revisitação filosófica. Tem toda a razão. Contudo,  quem falta à chamada ?  Um grupo heteróclito de livres-pensadores, amigos do saber, da literatura e das artes, sinólogos e de espiritualidade ortodoxa. Pensadores com obra publicada no âmbito da ética e da moral (José Miranda e Lima, Francisco Xavier Rondina, Leôncio Ferreira) ; intelectuais cujas traduções dos clássicos chineses ajudaram a modelar o pensamento português em Macau (Pedro Nolasco da Silva, José Vicente Jorge, Luís Gonzaga Gomes, Joaquim Guerra) ; o grupo da fenomenologia da viagem  (Pedro Gastão Mesnier, Carlos José Caldeira, Adolfo Loureiro, Fernando Lara Reis) ; intelectuais que agitaram a polémica sobre o darwinismo (Lourenço Marques, António Vasconcelos, P. Costa) ; literatos que edificaram o quadro histórico-mental de uma literatura situada (José Joaquim Monteiro, Deolinda da Conceição, Henrique de Senna Fernandes, Rodrigo Leal de Carvalho); os pensadores da contemporaneidade (Ana Cristina Alves, Daniel Carlier , Jorge Morbey e Arnaldo Gonçalves) ; a estética é bem mais difícil de arrumar.  As Pastorais e outros escritos dos sucessivos Bispos de Macau, são outras fontes de um pensamento mitificador e doutrinário que não pode ser esquecido, por exemplo, D. João Paulino de Azevedo e Castro, D. José da Costa Nunes ou D. Arquimínio Rodrigues da Costa.

 

Manuel da Silva Mendes será porventura a personalidade com maior densidade filosófica, cuja obra se reparte pela filosofia chinesa, pela estética e pela filosofia social e política. As suas ideias pedagógicas também são relevantes. Os textos jurídicos permanecem completamente desconhecidos, presume-se que depositados no arquivo do tribunal, a menos que a formiga branca tenha feito a sua degustação gourmet. A reedição da sua obra continua a ser um imperativo categórico.

 

Francisco Xavier Rondina foi o pensador que mais discípulos criou . A sua influência foi enorme na frente educativa. Publicou um excelente manual escolar, “Compêndio de Philosophia Theorica e Practica Para Uso da Mocidade Portugueza na China”, em 2 volumes, impresso na tipografia do Seminário de S. José, em 1869/1870. É redutor classificar esta obra apenas como um manual escolar, porque é muito mais do que isso. Neotomista assumido, combateu denodadamente o republicanismo ateu dos discípulos de Ernest Renan e procurou instituir uma pequena comunidade de estudos sob a forma de cenáculo filosófico.

 

José Gomes da Silva, médico, botânico e investigador é a grande figura da epistemologia positivista , cuja obra nunca foi reeditada, com excepção, ironicamente, de um livro secundário, “A República de Macau : história amena” . A sua correspondência é importante para o conhecimento do ambiente social e cultural de Macau e de Timor. Outro autor a resgatar e outra obra a reeditar.

 

Mateus António Lima é neste contexto, uma carta fora do baralho. Não se lhe conhecem apetências ou trabalhos filosóficos. Quando muito, terá secretariado júris de provas orais de filosofia no Liceu.

 

A Imprensa como veículo de ideias é verdadeiramente crucial. A imprensa portuguesa tem a sua história fixada, em 1965, pelo Padre Manuel Teixeira  com o volume “A Imprensa Periódica Portuguesa  no Extremo Oriente” (reeditado em 1999) , mas suspeita-se que há outro tanto por investigar. Aguardamos o trabalho de Daniel Pires, “Dicionário da Imprensa de Macau” (em publicação pelo Instituto Cultural) para podermos apreciar a problemática na sua globalidade.

 

Pedro Baptista não descura esse pormenor : “ É o caso da imprensa e revistas editadas em Macau, em que se disseminam ideias culturais e filosóficas : O Independente, Echo Macaense, Oriente Portuguez, Lusitano, A Voz do Crente, O Progresso, A Colónia, A Juventude, O Echo do Povo, o Liberal, O Macaense, o Patriota, A Academia, A Opinião, Nun’Álvares, A Pátria, O Combate, Diário de Macau, A Verdade, Jornal de Macau, O Petardo e A Voz de Macau. A partir do acervo desta imprensa nem sempre regular, mas alinhada política e ideologicamente, será possível extrair as principais ideias filosóficas em circulação, nesta colecção ainda por explorar do ponto de vista da história das ideias e da filosofia”.

 

Mas, ainda ninguém se interessou pelo estudo da influência da imprensa estrangeira em Macau. Os jornais e as revistas vinham nos navios que traziam mercadorias e passageiros, fazendo de Macau uma cidade realmente cosmopolita. As ideias , como as notícias, chegavam pelo mar e é impressionante essa cosmovisão em versão pessoana de ode marítima. Em escassos oito anos, entre 1838 e 1846, por exemplo, é possível registar um número significativo de títulos estrangeiros : Canton Register ; China Mail ; Canton Press ; Chinese Repository ; The Friend of China ; North China Herald ; Times ; Singapore Journal of Commerce ; Singapore Free Press ; Straits Times Extra ; Estrella de Manila ; La Patrie ; Le Constitutionel ; Vienner Zeitung ; Deustche Alegemeine Zeitung ; Journal d’Havre ; Moniteur Algerien ; Moniteur de la Flotte ; Courrier des Etats-Unis ; El Comercio de Cadiz ; Esprit ; Gaceta de Madrid ; L’Ami de la Religion ; Montly Times ; Morning Chronicle ; Atlas for India ; El Occidente ; Birmingham Post ; United Service Gazette. A lista termina aqui mas poderia continuar. Desses títulos, pelo menos dois [ Canton Register ; Chinese Repository ] estão digitalizados e disponíveis para o leitor interessado . Artigos destas publicações foram traduzidos, comentados  e lidos, quiçá recortados, pelos leitores da comunidade portuguesa de Macau, abrangendo temas tão diversos como a política, a literatura, a educação, a filosofia, as crónicas de guerra, a crítica literária, o humor e as anedotas, a história, as novidades científicas, a química, os folhetins, a poesia, a música ou a religião. Imagina-se a sofreguidão com que terá sido lida a entrevista  do Mandarim Yeh,  Vice-Rei de Cantão, concedida ao Moniteur de la Flotte. A vida política do Território é frequentemente objecto de artigos e notícias no jornal The Friend of China.

 

Convém recordar que a imprensa portuguesa, no período de tempo em apreço, também era lida e transcrita : A Revolução de Setembro ; O Mercantil ; Abelha de Bombaim ; Boletim dos Estados da Índia ; Jornal dos Debates ; Jornal da Sociedade Católica ; A Ilustração ; Revista Universal Lisbonense ; Pregoeiro da Liberdade ; Heraldo ; Revista Económica ; Diário do Governo. Os leitores de Macau estavam familiarizados com artigos de Alexandre Herculano, Mendes Leal Júnior, Silvestre Pinheiro Ferreira, António Feliciano de Castilho, Cunha Rivara, Oliveira Marreca ou Silva Túlio. Não falamos da imprensa chinesa, que é outro mundo de possibilidades.

 

No Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor, de 21 de Maio de 1846, na parte não oficial, encontra-se  um longo ensaio , “Estudos philosophicos sobre a Philosophia e o senso comum”, texto não assinado, e que se estende pelas edições de 28 de Maio e de 4 de Junho. É o exemplo vivo de como a reflexão filosófica se insinuava no quotidiano dos portugueses de Macau. Em termos estéticos é de assinalar a aparição de António Feliciano de Castilho, antes da polémica do bom senso e do bom gosto, na imprensa de Macau. São textos que devem ser vistos a dois níveis , um  na qualidade de clássico perdido no romantismo, com o poema “O Ano Bom dos Romanos” e o outro na qualidade de pedagogo esclarecido, com a notável exortação “Monumento de D. Pedro”. O responsável por esta iniciativa terá sido Francisco Maria Bordalo, secretário do Governo de Macau, desde 1849, admirador confesso de Byron e esquecido literato.

 

Será legítimo pensar que toda esta actividade tenha deixado marcas na educação informal e na cultura geral dos cidadãos portugueses, abrindo horizontes, aprofundando problemáticas, importando polémicas, aprimorando as várias formas de pensar ou de sentir e criando sobressaltos cívicos quando o patriotismo ficava submergido pelo nacionalismo eurocêntrico. É um trabalho de fina hermenêutica que algum dia terá de ser feito. E com tudo isto há material de sobra para se delinear uma história do pensamento português em Macau.

 

Após este livro , infelizmente pouco conhecido em Portugal,  que é um marco na história das ideias , e que se saúda, não quererá Pedro Baptista meter ombros a um Dicionário dos Pensadores de Macau ?

 

Termino com esta ideia luminosa de Bertrand Russell : “a filosofia, por um lado, faz com que continuemos a pensar no que poderemos vir a saber e, por outro, conserva-nos humildemente conscientes de que muitas coisas que parecem factos assentes o não são”.

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Exame Nacional de Filosofia 2016 – 2.ª fase

Exames e Critérios de classificação da Prova 714, Exame Nacional de Filosofia 2016 – 2.ª fase. Versões 1 e 2, com critérios de classificação.

 

Exame Nacional de Filosofia – 2016. Versão 1

 

 

Exame Nacional de Filosofia – 2016. Versão 2 , 2ª fase

 

 

Exame Nacional de Filosofia 2016, critérios de correção, 2ª fase by Sérgio Lagoa on Scribd


 

 

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Bertrand Russell, “Funções de um Professor”

Livro em acesso aberto da semana: de Bertrand Russell, “Funções de um Professor”.

 

 

RUSSELL, B. Funções de Um Professor

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CFP: APEIRON nº. 9, “Filosofia, Religião e Ateísmo”, c/ Slavoj Zizek

Encontra-se aberto o call for papers da Apeiron nº. 9, que será dedicada ao tema da “Filosofia, Religião e Ateísmo”, e que contará com a participação especial de Slavoj Zizek.

Alguns pontos de orientação:

1. História e Filosofia da Religião e do Ateísmo;
2. É a Religião necessária na sociedade actual?
3. Relação entre Religião e Ética;
4. Relação entre Religião e Política;
5. É o conceito de Deus coerente?
6. O problema do mal e do livre-arbítrio;
7. É necessário postular um Deus para explicar o mundo natural?
8. Argumentos a favor da existência de Deus e respectiva análise;
9. Como justificar as crenças religiosas?
10. É Deus uma criação meramente humana?
11. Tem a Fé alguma relevância (epistemológica, científica, etc).
(…) outros temas que se inserem na discussão geral.

Os papers deverão obedecer às seguintes regras:

· Letra: Times New Roman;
· Tamanho de Letra: 12;
· Espaçamento: 1,5;
· Mínimo: 1000 palavas; (negociável)
· Máximo de 10.000 palavras;
· As regras de citação terão de estar de acordo com o seguinte exemplo: Autor, data: página (no final da citação; com 3 linhas, mantém-se no texto, mais que isso distingue-se do corpo principal e destaque-se a letra tamanho 11; no final do artigo deve conter a bibliografia completa das obras citadas).

Prazo de entrega: 13/11/2016

As propostas de artigo deverão ser enviadas para: stevensequeira92@hotmail.com.

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Espólio científico de Alexandre Fradique Morujão

O Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da UCP é o depositário do espólio científico de Alexandre Fradique Morujão, antigo professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O espólio é composto por um valioso conjunto de cartas, notas de leitura, manuscritos de conferências e cursos universitários, bem como pelos originais de livros a artigos publicados em vida. Este valioso acervo documental é posto à disposição dos investigadores, em parte, num site criado para o efeito, em parte através da edição em papel.

O site está em actualização permanente.

Convidamos os interessados a visitá-lo em http://cefi.fch.lisboa.ucp.pt/pt/ ou emhttp://cefi.fch.lisboa.ucp.pt/pt/espolio-afm.html

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Mestrado em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário – FLUP

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto tem em curso o período de inscrição para o mestrado em Filosofia no Ensino Secundário, além de outros mestrados e doutoramentos.

Os licenciados em Ensino de Filosofia pré-Bolonha podem, se o desejarem, apresentar candidatura para fazer a “atualização” das suas habilitações académicas.

Mais informações neste link: https://sigarra.up.pt/flup/pt/cur_geral.cur_view?pv_ano_lectivo=2015&pv_origem=CUR&pv_tipo_cur_sigla=M&pv_curso_id=9082

 

 

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