Rawls e os seus críticos – uma comparação

Esta tabela é um resumo das críticas de Nozick e Sandel a Rawls. Na coluna central encontramos as principais ideias de Rawls; à esquerda encontramos as  críticas de Sandel e à direita as críticas de Nozick. Não sendo exaustivo, é uma proposta de organização da matéria que aqui deixo, agradecendo a preciosa ajuda do Rui Areal na elaboração deste material.

Contudo, saliento que didaticamente o ideal é que sejam os alunos a elaborar um quadro comparativo semelhante a este. Podem fazê-lo numa plataforma de debate de argumentos, como a Kialo, ou simplesmente através de um documento gerado no Google Drive.

 

Problema filosófico O problema da justiça social: para ser justa, uma sociedade deve dar prioridade à liberdade ou à igualdade?

 

Experiências mentais como o Cortejo dos Rendimentos mostram-nos que a desigualdade entre os indivíduos é enorme nas nossas sociedades. Deveriam essas desigualdades de distribuição da riqueza serem menores? Seria preferível uma sociedade igualitária? Uma intervenção do Estado sobre a distribuição de riqueza permitiria diminuir as desigualdades, mas implicaria uma intromissão na liberdade individual de enriquecer; mas seria isso justo?

Autor Michael Sandel John Rawls Robert Nozick
Corrente Comunitarismo

Os comunitaristas consideram que o indivíduo se define sobretudo pela sua pertença a uma comunidade (em termos psicológicos e sociológicos). Isto é, existe um primado da comunidade sobre o indivíduo – o indivíduo só é o que é em função da comunidade onde se insere.

Para os comunitaristas, as desigualdades sociais colocam em causa o Bem Comum e constituem fonte de injustiças, pelo que o Estado deve intervir para as combater, redistribuindo bens essenciais de forma igualitária pelos cidadãos: dinheiro, emprego, saúde, educação, poder político.

Sandel não é um comunista, mas sim um comunitarista: pertencemos não apenas a nós próprios, mas também à comunidade onde nos inserimos.

 

Liberalismo moderado

Rawls é um liberal igualitário, isto é, defende que as liberdades básicas do indivíduo não podem ser sacrificadas em nome de princípios distributivos, mas concede que, sendo o indivíduo racional e razoável, estará aberto à cooperação com os outros, pelo que a solidariedade é um valor fundamental para a aceitação do segundo princípio da justiça: devemos partilhar com os outros as eventuais vantagens da lotaria natural e social.

Se um igualitarista consideraria a Igualdade como valor fundamental, Rawls posiciona-se como liberal ao eleger a Liberdade como valor prioritário.

 

 

 

 

Libertarismo (liberalismo radical)

O Estado não tem o direito de interferir na vida de alguém sem o seu consentimento. Os impostos constituem uma forma de coerção.

 

Defende um liberalismo em que as desigualdades podem ser muito profundas: a existência de pessoas muito ricas na mesma sociedade em que vivem pessoas muito pobres nada tem de injusto, desde que a riqueza seja adquirida de forma lícita.

 

Portanto, as funções do Estado devem restringir-se ao mínimo indispensável, o que não deixa de implicar a cobrança de impostos: defesa perante ameaças externas (exército), segurança dos cidadãos e dos seus bens (polícia) e cumprimento dos contratos e das leis (tribunais). Esta é a defesa de um Estado Mínimo.

Teoria Perfeccionismo

De um modo geral, os perfeccionistas defendem que devemos procurar aquilo a que possamos chamar “uma vida boa”. Assim, determinadas coisas (ações, objetos, ideias) são boas em si mesmas e devem ser procuradas por todos os indivíduos.

 

 

 

Teoria da justiça como equidade

Na adopção dos princípios de justiça todas as partes que estabelecem este contrato social estão numa situação de igualdade de circunstâncias. Contudo, todos os contratantes sabem que haverá pessoas mais e menos talentosas, mais e menos ricas, homens e mulheres, crentes e ateus.

Trata-se de uma justiça como equidade porque os princípios da justiça social são escolhidos numa situação inicial equitativa, sem que nenhum indivíduo ou grupo social seja beneficiado ou prejudicado.

Teoria da titularidade

A autonomia das pessoas é fundamental. Ao contrário de Rawls, não aceita uma distribuição padronizada da riqueza, pois isso implica uma intervenção constante do Estado na liberdade individual de enriquecer de forma lícita. O indivíduo é o titular legítimo dos bens que adquire legalmente.

O indivíduo é dono de si mesmo: do seu corpo, da sua vida, mas também dos bens materiais que a sua liberdade individual lhe permite acumular, pelo que o Estado não deve interferir nessa liberdade individual.

Rejeição da Posição Original

O Bem Comum não é o resultado da combinação das preferências individuais; pelo contrário, o Bem Comum é algo que tem prioridade sobre as preferências individuais.  O modo de vida que define uma vida boa (Bem Comum) é definido pelo conjunto da sociedade.

A forma de encontrar os princípios de justiça está errada (Posição Original e Véu de Ignorância), pois não basta as nossas escolhas serem imparciais para serem boas.

 

 

Posição original

Trata-se de uma experiência mental, uma situação hipotética na qual Rawls nos desafia a imaginar quais os princípios organizadores de uma sociedade na qual quiséssemos efetivamente viver.

A Posição Original é apenas um dispositivo de representação, a descrição de um contrato social hipotético no qual todas as partes (indivíduos ou seus representantes) são racionais e mutuamente desinteressadas. Todos terão de escolher os princípios organizadores de uma sociedade para que ela seja justa. Para garantir a imparcialidade das suas escolhas, as partes são mantidas sob um Véu de Ignorância.

Conceitos, argumentos e suas críticas Crítica ao Véu de Ignorância

O véu de ignorância transforma-nos em seres fictícios, desprendidos de laços sociais. Escolhas feitas por seres hipotéticos não são credíveis, pois todas as nossas escolhas decorrem do enraizamento numa comunidade específica. O nosso próprio Eu é construído em sociedade, pelo que o Véu de Ignorância nos obrigaria a esquecermo-nos não apenas da nossa condição, mas do nosso próprio Eu.

O Véu de Ignorância coloca os indivíduos numa situação anterior a qualquer moral, isto é, obrigando sujeitos individuais a tomar decisões tendo em conta apenas os interesses individuais (e não os da comunidade onde se inserem).

Véu de Ignorância

Situação cognitiva em que se encontram todos os sujeitos na Posição Original: não sabemos qual será a nossa posição social na futura sociedade: sexo, etnia, inteligência, força, profissão estatuto social, riqueza. Isso obriga-nos a avaliar os princípios de justiça de forma imparcial, sem atender à nossa circunstância particular. Portanto, os princípios de justiça são avaliados numa situação de equidade.

 

 

 

 

Refutação da Regra Maximin

A estratégia maximin defendida por Rawls implica que os sujeitos apenas têm em consideração os seus interesses egoístas e tem em conta conceitos morais. Por exemplo, é relevante saber como a riqueza é produzida, pois pode acontecer que a riqueza seja produzida de forma imoral.

 

 

 

Regra Maximin

“Maximizar o mínimo”

Na posição original e com o véu de ignorância, Rawls acredita que chegaríamos a acordo, optando por princípios que garantissem que, por muito má que fosse a nossa condição social, ela nunca nos privaria de certas liberdades básicas, como as oportunidades de melhorar a nossa condição e a garantia de um rendimento mínimo aceitável.

A regra maximin é uma estratégia de decisão que permite maximizar o mínimo.

Conceitos, argumentos e suas críticas Rejeição do utilitarismo

Os utilitaristas defendem que devemos maximizar o bem-estar geral. Tal regra permitiria uma sociedade em que a maioria vive muitíssimo bem à custa de trabalho escravo. Ora, Rawls rejeita a escravatura, pois trata-se de uma violação da liberdade individual, colocando em causa a prioridade do Princípio da Liberdade.

Por isso, Rawls considera que os princípios (de justiça, de perfeição ou de utilidade) a escolher para o ordenamento da sociedade devem ser aqueles que todas as partes representadas possam aceitar.

Conceitos, argumentos e suas críticas Sandel contesta que o Princípio da Liberdade tenha prioridade sobre a Igualdade. Para Sandel  o erro de Rawls consiste em ter uma noção metafísica do Homem – ou seja, tem uma conceção do ser humano que não é real, no sentido em que se encontra desenraizada de tudo aquilo que lhe é anterior, designadamente a sociedade, a comunidade da qual faz parte. Princípio 1

Princípio da liberdade

 

“Cada pessoa deve ter um direito igual ao mais extenso sistema de liberdades básicas que seja compatível com um sistema de liberdades idêntico para todas as outras”

Os membros da sociedade devem ter todos os mesmos direitos e liberdades. Por “liberdades básicas” Rawls entende coisas como os direitos cívicos (liberdade de opinião, de expressão, de reunião), direitos políticos (direito de voto e de participação na vida pública) e direitos da pessoa (direito à integridade física e psicológica).

Este princípio tem prioridade sobre os restantes, pelo que Rawls é um liberal moderado. Isto significa que cada um tem a liberdade de escolher a sua própria conceção  de bem, desde que compatível com a justiça.

 

Nota: sendo um libertário, Nozick estaria de acordo com o Princípio da liberdade de Rawls.

Conceitos, argumentos e suas críticas Princípio 2 A

Princípio da Igualdade de oportunidades

“As desigualdades económicas e sociais devem satisfazer duas condições:

  1. A) Em primeiro lugar, ser a consequência do exercício de cargos e funções abertos a todos em igualdade equitativa de oportunidades (…)

 

As desigualdades não serão aceitáveis se decorrerem das oportunidades que são dadas a uns mas não a outros. Isto é, o Estado deve intervir para garantir que todos tenham as mesmas oportunidades no acesso à saúde, à educação, à cultura, etc. Isto seria uma forma de corrigir a lotaria social, isto é, a sorte de nascer numa família com mais recursos.

Rejeição do princípio da igualdade de oportunidades

Nada existe de errado com a desigualdade social e económica.

Qualquer intervenção do Estado consiste numa violação dos direitos absolutos das pessoas. Tirar a uns para dar a outros sem o consentimento dos primeiros é tratar as pessoas como se não fossem pertença de si próprias, isto é, como meros meios e não fins em si mesmos, violando os seus direitos mais básicos.

Conceitos, argumentos e suas críticas Aceitação do Princípio da Diferença

 

O Princípio da diferença obedece a uma lógica comunitarista, pois preconiza a correção das desigualdades introduzidas pela lotaria social e natural. Sandel não critica este princípio, mas sim a prioridade dada ao 1.º princípio, isto é, à prioridade da Liberdade sobre a Igualdade.

Cabe ao Estado promover algumas conceções de Bem em relação a outras, se essas conceções contribuem para o Bem Comum de uma determinada sociedade.

 

Nota: Sandel não desenvolveu uma teoria completa da justiça alternativa a Rawls. Esse mérito coube a Michael Walzer, que defende a “Igualdade Complexa”, uma teoria que dá ênfase à ideia de comunidade, aceita as desigualdades mas defende que se evitem situações de bens e classes sociais predominantes.

Princípio 2 B

Princípio da diferença

“As desigualdades económicas e sociais devem satisfazer duas condições:

(…)

  1. B) e, em segundo lugar, ser para o maior benefício dos membros menos favorecidos da sociedade.”

 

Rawls admite que exista uma desigualdade na distribuição da riqueza na condição de essa desigualdade favorecer os mais desfavorecidos. Este favorecimento conduz a uma sociedade mais estável, equitativa e consequentemente mais justa para todos.

 

 

 

 

Rejeição da redistribuição de riqueza

 

 

Redistribuir implica violar a liberdade dos cidadãos.

Os indivíduos têm direito ao que adquirem e que inicialmente não pertence a ninguém (jazidas de petróleo, patente farmacêutica por eles descoberta, etc.). Também têm direito à totalidade das heranças ou doações que recebam ou de quaisquer negócios e contratos que venham a realizar. Assim, se os indivíduos enriquecem de forma justa, o Estado não deve interferir para criar quaisquer padrões de distribuição de riqueza.

Consequentemente, o Estado não deve cobrar impostos para proceder a qualquer distribuição de riqueza, ainda que os impostos sejam necessários para assegurar as suas funções mínimas (defesa, segurança e cumprimento das leis).

 

 
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Rendimento Básico Incondicional na TSF

A rádio  TSF discutiu o Rendimento Básico Incondicional no programa “Olhe que não”, com João Cardoso Rosas e Catarina Neves. O programa pode ser ouvido em https://www.tsf.pt/programa/olhe-que-nao/emissao/concorda-com-o-rendimento-basico-incondicional-para-todos-os-cidadaos-para-quem-trabalha-e-para-quem-nao-quer-trabalhar-10901054.html?autoplay=true

 

 

Concorda com o Rendimento Básico Incondicional para todos?

 

E se, no futuro, todos os cidadãos tivessem direito a um rendimento básico, quer trabalhassem quer não? Uma questão ética e disruptiva no conceito de trabalho tal como o conhecemos em discussão no programa “Olhe que não”.

Rendimento Básico Incondicional: uma prestação social de mesmo valor para todos os cidadãos, quer trabalhem ou não, sejam ricos ou pobres.

João Cardoso Rosas, presidente do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, e Catarina Neves, doutoranda na mesma instituição, trocam ideias sobre o tema no programa da TSF ” Olhe que não “.

João Cardoso Rosas é investigador nas áreas da teoria política, da filosofia política, das ideologias políticas e da filosofia dos Direitos Humanos, com vários livros publicados sobre estes temas. Catarina Neves, depois de uma licenciatura em ciência política e um mestrado em gestão, estuda agora o rendimento básico incondicional e colabora com a associação que defende a sua implementação em Portugal.

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2081

Trata-se da adaptação, em curta-metragem, do conto de original Kurt Vonnegut’s Harrison Bergeron 2081 mostra-nos um futuro no qual constitucionalmente todos os cidadãos são finalmente iguais. Quem tem excecionais capacidades auditivas, visuais, quem for mais bonito ou mais forte e inteligente é obrigado a fragilizar as suas vantagens individuais.

Interessante para abordar o problema político da igualdade e da diferença.

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Filosofia no Feminino – Entrevista com Martha Nussbaum

Com legendas em Português.

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Metodologias didáticas da Filosofia

Quais são as metodologias didáticas utilizadas em Filosofia?

Trata-se de uma questão muito polémica que nos levaria a discutir assuntos tão diversos como:

  • existe um método para ensinar filosofia?
  • existe uma didática específica da filosofia?
  • pretendemos ensinar filosofia ou ensinar a filosofar?
  • a filosofia contém em si a sua própria didática?
  • as metodologias de trabalho filosófico supõem a inscrição em alguma metafilosofia? (por exemplo, filosofia continental ou filosofia analítica)
  • existem pressupostos psicológicos que condicionem ou fundamentem tais metodologias didáticas? (por exemplo, o caso da filosofia com crianças)
  • a implementação de estratégias didáticas implica a clarificação das competências que se pretende desenvolver nos alunos?

Posto isto, interessa perceber quais são as metodologias, técnicas ou estratégias didáticas utilizadas e filosofia. A título de exemplo, cá ficam algumas:

  • trabalho de texto (análise, síntese e interpretação)
  • diálogo socrático
  • exposição magistral
  • debate
  • ensaio filosófico
  • análise e discussão de [trechos de] filmes
  • controvérsia construtiva
  • trabalho de grupo
  • simpósio
  • mesa redonda
  • comentário de texto
  • leitura partilhada e discussão de histórias e contos (Lipman)
  • dissertação filosófica
  • metodologia de trabalho de texto longo
  • utilização de ferramentas digitais para criação de conteúdos, discussão, avaliação, etc. (mapas conceptuais — Mindomo, CMapTools, … — , mapas de argumentos — Rationale, Argunet, Kialo, … –, Kahoot, Padlet, Moodle, …
  • atividades diversas de conceptualização, argumentação, problematização

Sem prejuízo de que a discussão ocorra por aqui, foi criada uma “sondagem” no grupo “Filosofia e Ensino”, onde a discussão é mais ágil e onde todos podem acrescentar opções didáticas.

Siga este link:

https://www.facebook.com/groups/filosofiaeensino/permalink/10157144043536383/

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Quiz Show e o Carácter Moral das Acções

Quiz Show é um filme realizado por Robert Redford em 1994, baseado num caso verídico de fraude televisiva na NBC nos anos 50.

Na altura, um académico chamado Charles Van Doren participou durante várias semanas num programa televisivo chamado Twenty-One, ganhando consecutivamente até que denúncias por parte do campeão anterior, Herb Stempel, chamam a atenção das autoridades que acabam por descobrir toda a trama por detrás do concurso.

Antes e durante a sua participação no concurso, Van Doren enfrenta dúvidas quanto à legitimidade da sua fama (embora a aprecie largamente), dúvidas essas que se intensificam perante a ameaça da investigação, mas para as quais procura apresentar justificações morais, como o bem maior provocado nos mais jovens, ávidos de aprender e de frequentar as suas aulas em busca de mais conhecimento.

Um filme que permite a abordagem de perspectivas morais como as de Kant e Mill, e para a qual sugerimos a utilização do guião por nós elaborado (sob licença Creative Commons).

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A Objetividade dos Valores

«Os valores não existem, pelo menos da mesma forma que as pedras e os rios. Considerado à margem dos sentimentos e dos interesses humanos, o mundo parece não incluir quaisquer valores. […]

Este é o «argumento metafísico»: as opiniões éticas não podem ser objetivamente verdadeiras ou falsas porque não existe uma realidade moral a que possam corresponder ou não corresponder. Esta é a diferença profunda entre a ética e a ciência. A ciência descreve uma realidade que existe independentemente dos observadores. Se os seres sencientes deixassem de existir, o mundo permaneceria inalterado nos restantes aspetos – continuaria a existir e não deixaria de ser precisamente como a ciência o descreve. No entanto, se não existissem quaisquer seres sencientes, não existiria qualquer dimensão moral na realidade. Podemos resumir o argumento desta forma:

1. Existem verdades objetivas na ciência porque existe uma realidade objetiva – o mundo físico – que a ciência descreve.

2. Mas não existe qualquer realidade moral comparável à realidade do mundo físico. Não existe «lá fora» algo que a ética possa descrever.

3. Logo, não existem verdades objetivas na ética.

Uma vez mais, podemos perguntar se isto é correto. É verdade, julgo eu, que não existe qualquer realidade moral comparável à realidade do mundo físico. Contudo, não se segue daqui que não possam existir verdades objetivas na ética. A ética pode ter uma base objetiva de outra forma. Uma investigação pode ser objetiva de duas formas:

• Uma investigação pode ser objetiva porque existe uma realidade independente que esta descreve correta ou incorretamente. A ciência é objetiva neste sentido.

• Uma investigação pode ser objetiva porque existem métodos de raciocínio fiáveis que determinam a verdade e a falsidade no seu domínio. A matemática é objetiva neste sentido. Os resultados matemáticos são objetivos porque são demonstráveis com os tipos relevantes de argumentos.

A ética é objetiva no segundo sentido. Não descobrimos se uma opinião ética é verdadeira comparando-a com uma espécie de «realidade moral». […] Descobrimos antes o que é certo ou o que se deve fazer examinando as razões ou os argumentos que, numa dada questão, podem ser avançados a favor de cada um dos lados – é certo aquilo que está apoiado pelas melhores razões para agir. Basta que possamos identificar e avaliar as razões a favor e contra os juízos éticos e que cheguemos a conclusões racionais.»

James Rachels, Problemas da Filosofia. Lisboa: Gradiva, 2004.

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Diversidade cultural – A história dos Nacirema

«As crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspetos tão invulgares que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano.

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre a sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste.

De acordo com a mitologia dos Nacirema, a sua nação foi criada por um herói cultural, Notgnihsaw, que é conhecido por duas incríveis proezas: ter atirado um colar de conchas para o rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que tem crescido num rico habitat natural. Apesar de o povo dedicar muito tempo às atividades económicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável parte do dia são dedicados aos rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como interesses dominantes no ethos deste povo.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que tende naturalmente para a debilidade e para a doença. Encarcerado num corpo como este, a única esperança do homem é afastar estas características através de rituais e cerimoniais.

Cada habitante tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos da sociedade têm vários santuários em casa e, de facto, a opulência de uma casa, muito frequentemente, é medida em termos do número de centros rituais que a compõem.

O ponto central do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre, guardam-se os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita poder viver. Tais preparados são conseguidos através de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxílio deve ser recompensado com dádivas substanciais.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias, cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina o seu rosto sobre a caixa-de-
-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por «sagrados-
-homens-da-boca». Os Nacirema nutrem um horror quase patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam influenciar todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais, os dentes cairiam, as gengivas começariam a sangrar, os maxilares encolheriam, deixariam de ter amigos e seriam rejeitados pelos companheiros.

Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, há um ritual que envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, chegando mesmo a revoltá-lo. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com alguns pós mágicos e em movimentá-lo por meio de uma série de gestos altamente formalizados.

Esperamos que quando for realizado um estudo completo acerca dos Nacirema seja feito um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas. Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da-boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolva um certo grau de sadismo.

Foi a estas tendências que, em 1936, o Prof. Linton se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporais desempenhados apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície do rosto com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimónia, as mulheres ousam colocar as suas cabeças em pequenos fornos durante cerca de uma hora.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de determinada dimensão. Sabe-se que as crianças, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem às tentativas de as levarem ao templo porque «é lá que se vai para morrer».

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que se baseiam na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e às suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras.

As funções naturais de reprodução são, igualmente, distorcidas. Evita-se a gravidez pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do relacionamento sexual em certas fases da lua. A conceção é, na realidade, pouco frequente. Quando estão grávidas, as mulheres vestem-se de modo a esconder o seu estado. O parto faz-se em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta os filhos.»

Horace Miner, «Body ritual among Nacirema», American Anthropologist, 1956.

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A Subjetividade dos Valores

«As questões sobre «valores» – isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos – estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veementemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram – a de que as questões sobre «valores» estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem «valor», estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. […] Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste sempre em criar nos outros emoções semelhantes às suas – ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua atividade.

Quando um homem diz «Isto é bom em si» parece estar a exprimir uma proposição, como se tivesse dito «Isto é um quadrado» ou «Isto é doce». Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é «Quero que toda a gente deseje isto», ou melhor, «Quem me dera que toda a gente desejasse isto». Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, nada afirma, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na ética. […] Se esta análise está correta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral – e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso. A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da «subjetividade» dos valores. Esta doutrina consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer género de verdade. Quando um homem diz «As ostras são boas» e outro diz «Eu acho que são más», reconhecemos que nada há para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são deste género, embora pensemos naturalmente que não o são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que a das ostras. A razão principal para adotar esta perspetiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. Se estivéssemos de acordo a este respeito, poderíamos defender que conhecemos os valores por intuição. Não podemos provar a um daltónico que a relva é verde e não vermelha, mas há várias maneiras de lhe provar que ele não tem um poder de discriminação que a maior parte dos homens tem. No entanto, no caso dos valores não há qualquer maneira de fazer isso, e aí os desacordos são muito mais frequentes que no caso das cores. Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos de chegar à conclusão de que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objetiva.»

Bertrand Russell (1935), Ciência e Ética, trad. de Paula Mateus.

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Quais são os valores contemporâneos?

«No passado, os Homens tinham certezas religiosas e morais. Toda a vida individual e social estava organizada em redor dessas crenças sagradas. Os seus símbolos de pedra, os monumentos religiosos, sobreviveram aos milénios. Tal como as estátuas dos deuses, os livros de inspiração divina. A grande mudança teve lugar com a Revolução Industrial. Então, a pouco e pouco, a banca, a bolsa, o arranha-céus de escritórios substituíram a catedral. Paralelamente à crise do sacro, difunde-se a recusa do conceito de pecado e, eventualmente, do conceito de culpa. As grandes revoluções contemporâneas, a libertação sexual, o feminismo, fizeram desaparecer muitas crenças e muitas normas consideradas imutáveis.

Já não existem tábuas da lei absolutas e imutáveis e muitos pensam, depois de Nietzsche, que os conceitos de bem e de mal se estão a desvanecer, tal como a ideia de demónio e da tentação.

Muitos pensadores laicos constatam que o pensamento progressista triunfa hoje, mas como que despojado de valores. Ensina a não ser fanático, a ser tolerante, racional, mas ao fazê-lo, aceita um pouco de tudo, o consumismo, a superficialidade da moda, o vazio da televisão. Não consegue, sobretudo, fazer despertar nos indivíduos uma chama que vá para além do
mero bem-estar, um ideal que supere o horizonte de uma melhor distribuição dos rendimentos. Não cria metas, não suscita crenças. Não sabe fornecer critérios do bem e do mal, do justo e do injusto. Desta forma, tudo se reduz à opinião e à conveniência pessoais.

Isto é o que os filósofos, os sociólogos e os observadores críticos continuam a dizer do nosso mundo.

E não restam dúvidas de que, em boa medida, as suas observações têm fundamento. Mas, em nosso entender, não tomam em consideração os valores positivos do mundo moderno, a sua moralidade específica.

Partamos da observação de alguns factos. A nossa sociedade tem muitos valores reconhecidos, partilhados, não discutidos. Considera negativamente a violência em todas as suas formas. A nossa sociedade eliminou as formas mais brutais de abuso. Eliminou o duelo, as vinganças privadas. Hoje, a pouco e pouco, está a eliminar os focos de guerra. Combateu a doença e as dores físicas e mentais. Defendeu as crianças, os velhos, os doentes, protegendo-os com uma rede de direitos. Combate os preconceitos raciais, as discriminações étnicas. É certo que estas coisas ainda existem, mas são condenadas e combatidas como nunca o foram no passado. A nossa sociedade favoreceu a ciência, o conhecimento objetivo, difundiu a instrução, procurou estabelecer a equidade social, nivelando as diferenças mais agudas. Tornou-
-nos mais compreensivos das necessidades dos outros, mais civilizados, mais amáveis. Fez com que nos tornássemos mais conscientes em relação à natureza, à vida animal, ao nosso próprio planeta. Também não é verdade que não sintamos o dever. Sentimos como drama e dever a pobreza do Terceiro Mundo. Sabemos que é nosso dever acabar com a miséria, com a fome, com os desgastes provocados pelas doenças. Sabemos que é nosso dever dirigir o progresso técnico para um equilíbrio ecológico que garanta a vida às gerações futuras.

Não nos sentimos, de facto, para além do bem e do mal. Talvez sejamos hipócritas, mas damo-nos conta de que os desastres sociais e naturais são o produto do nosso egoísmo individual e coletivo.»

Francesco Alberoni e Salvatore Veca, O altruísmo e a moral. Lisboa: Bertrand, 1998.

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