O livre-arbítrio existe?

daniel-dennett Vivemos as nossas vidas face a um contexto de factos, alguns deles variáveis e outros tão firmes como uma rocha. Alguma da estabilidade provém de factos físicos fundamentais: a lei da gravidade nunca nos desiludirá (…), e em todas as nossas diligências podemos fiar-nos no facto de a velocidade da luz se manter constante. Alguma da estabilidade provém de factos ainda mais fundamentais, factos metafísicos: 2+2 será sempre igual a 4, o teorema de Pitágoras confirmar-se-á, e se A=B, tudo o que for verdadeiro sobre A também o será de B e vice-versa. A ideia de que somos dotados de livre-arbítrio é outra condição de base para toda a nossa maneira de pensar sobre as nossas vidas. Contamos com ela; contamos com que as pessoas ‘sejam dotadas de livre-arbítrio’ da mesma maneira que contamos que caiam quando empurradas do cimo de montes e que precisem de comida e água para viver, mas não se trata nem de uma condição metafísica de base nem de uma condição física fundamental. O livre-arbítrio é como o ar que respiramos e está presente em quase todos os lugares onde podemos chegar, mas não é apenas não eterno; evoluiu, e ainda está a evoluir. A atmosfera do nosso planeta evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos como um produto das actividades das primeiras formas de vida simples e continua a evoluir hoje, em resposta à actividade de milhares de milhões de formas de vida mais complexas que tornou possíveis. A atmosfera do livre-arbítrio constitui um outro tipo de meio ambiente. É a atmosfera conceptual que envolve, possibilita e dá forma à vida da acção intencional, que planeia, espera e promete – e que atribui culpa, causa ressentimento, castiga e louva. (…)

[O livre-arbítrio] evoluiu como um produto recente das interacções humanas e alguns dos tipos de actividade humana que pela primeira vez tornou possíveis sobre este planeta podem igualmente ameaçar destruir a sua futura estabilidade, ou mesmo acelerar a sua extinção. Não é garantido que a atmosfera do nosso planeta dure para sempre, e o mesmo se aplica ao nosso livre-arbítrio. (…)

O livre arbítrio é real, mas não é um aspecto preexistente da nossa existência, como a lei da gravidade. E também não é o que a tradição declara que é: um poder divino que dispensa a pessoa do tecido causal físico. Trata-se de uma criação da actividade e das crenças humanas, como a música ou o dinheiro. E ainda mais valiosa.

Daniel C Dennett, A liberdade evolui, tr. Jorge Beleza, Temas e Debates, p. 24-28.

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Publicado em Metafísica
3 comentários sobre “O livre-arbítrio existe?
  1. Arthur Yanai diz:

    É inegável a todos os seres-vivos que eles tem o lívre-arbítrio, inclusive aos deterministas, pois eles podem fazer suas escolhas, dizer sim ou não, ir ou não ir…a questão é justamente se este lívre-arbítrio que “sentimos” é verdadeiro ou não.
    O ser humano é dotado de sentidos, o corpo do ser é capaz de sentir o som, o toque, a luz, o gosto, estes são os 4 sentidos do homem.Minha opnião é que ele é dotado de mais 2 sentidos, o da afetividade e o do “pseudo-lívre-arbítrio”.
    A afetividade seria os “sentimentos” do homem, o que lhe toca interiormente.
    Pseudo-lívre-abítrio justamente porque se trata de uma sensação, não é real.
    A teoria do caos é inegável se for aplicada num contexto puramente material.Quando não havia a existÊncia de seres-vivos no planeta, a física regia o planeta.O primeiro ser existente é fruto da combinação de substâncias, essas subtâncias criaram vida?Esse “ser” que surgiu tinha alguma vontade própria ou ele, inteiramente, ainda estava sujeito à fisica?Se não existiu nenhum Deus que desse essa autonômia a ele, eu acredito na segunda hipótese.A partir deste, a evolução proporcionou “não-seres” cada vez mais adaptáveis.Existe algum ponto da evolução do ser que é possível o livre arbítrio sem a interferência divina?Acredito que não.Assim como o tato, a visão, o olfato e o paladar foram desenvolvendo, a afetividade e o pseudo-livre arbítrio também.
    Você pode perguntar:”porque então, se eu vim da matéria, eu sinto, e a matéria bruta não?”, eu vou lhe voltar uma pergunta,”como você sabe que a matéria não sente?”.
    Para o espiritismo nossa matéria acolhe a alma, e portanto ele dispensa a função dos meus dois outros sentidos, existindo só 4.Mas mesmo estes 4 sentidos, quem sente eles, o corpo ou a alma?Como eu não sou espírita, eu acredito que todos(os 6) os sentidos são inerentes à matéria, e dependendo do seu nível de organização, ela é capaz de sentir.Não sei que nível de organização é necessário para sentir determinada sensação, mas é possível que a cadeira que você está sentado, esteja sentindo dor de você estar em cima dela, e que você esteja tapando sua visão com as nádegas, ou até mesmo sentindo algo que o homem não é capaz por não apresentar uma estrutura adequada para tal sensação.

    No homem, o que se julga ser alma, espírito, é sensação, o que move o homem é isso.

    O pseudo-livre arbítrio existe e é uma sensação que o homem tem que saber manipular.

  2. Edmilson diz:

    Esse tema é bastante complexo e penso que, como tal, é necessário colocar em jogo muitos outros aspectos além dos espirituais e físicos. É necessário compreender satisfatóriamente o meio onde o indivíduo aplica tal livre-arbítrio ou pseudo-livre-arbítrio. Penso que Sartre acertara ao afirmar que o importante não é aquilo que fazem de nós, mas sim o que fazemos com aquilo que fazem de nós.

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