A crença no livre-arbítrio é inultrapassável

Na nossa discussão da intencionalidade concentramo-nos naquela forma de intencionalidade que consiste em intenções conscientes na acção, intencionalidade que é causal da maneira como a descrevi, e cujas condições de satisfação são que certos movimentos corporais ocorram e que ocorram como causados por aquela genuína intenção na acção. É esta experiência que é pedra basilar da nossa crença na liberdade da vontade. Porquê? Reflictamos com todo o cuidado no carácter das experiências que temos quando nos empenhamos nas acções humanas normais da vida de cada dia. Veremos a possibilidade de cursos de acção alternativos incrustados nessas experiências. (…)
Se alguém tentar expressar em palavras a diferença entre a experiência de percepcionar e a experiência de agir é que, na percepção, se tem a sensação: «isto está a acontecer-me», e, na acção, a sensação é a seguinte: «faço isto acontecer». Mas a sensação de que «faço isto acontecer» traz consigo a sensação de que «poderia fazer alguma coisa mais». No comportamento normal, cada coisa que fazemos suscita a convicção válida ou inválida de que poderíamos fazer alguma coisa mais, aqui e agora, isto é, permanecendo idênticas todas as outras condições. Eis, permito-me afirmar, a fonte da nossa inabalável convicção na nossa vontade livre. (…) Assim, a experiência da liberdade é uma componente essencial de qualquer caso do agir com uma intenção. (…)
Isso explica também, creio eu, porque é que não podemos abandonar a nossa convicção na liberdade. Achamos fácil abandonar a convicção de que a Terra é plana logo que compreendemos a prova para a teoria heliocêntrica do sistema solar. De modo semelhante, quando olhamos para o pôr-do-sol, apesar das aparências, não nos sentimos compelidos a crer que o Sol está a pôr-se por detrás da Terra. Cremos que a aparência do pôr-do-sol é simplesmente uma ilusão criada pela rotação da Terra. Em cada caso, é possível abandonar uma convicção do senso comum, porque a hipótese que a substitui explica as experiências que levaram a essa convicção e explica muitos outros factos que a concepção de senso comum é incapaz de explanar. Eis porque deixamos de lado a crença numa terra plana e o «pôr-do-sol» literal em favor da concepção copernicana do sistema solar. Mas não podemos de modo semelhante abandonar a convicção de liberdade, porque esta convicção está inserida em toda a acção intencional normal e consciente. E usamos esta convicção para identificarmos e explicarmos as acções. Este sentido de liberdade não é apenas uma característica da deliberação, mas é parte de qualquer acção, seja premeditada ou espontânea. (…)
Não navegamos na Terra com base na suposição numa Terra plana, mesmo se a Terra parece plana, mas agimos no pressuposto da liberdade. Efectivamente, não podemos agir de outra maneira senão com base na suposição da liberdade, pouco importando o que aprendemos acerca do modo como o Mundo funciona enquanto sistema físico determinado.
John Searle, Mente Cérebro e Ciência, tr. Artur Morão, Ed. Setenta, p. 116-118
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