A deificação do Homem

Com ferramentas o Homem aperfeiçoa os seus órgãos – tanto os motores como os sensoriais – ou elimina as barreiras que se opõem à sua acção. As máquinas conferem-lhe gigantescas forças que pode dirigir, como os seus músculos, em qualquer direcção: graças ao navio e ao avião, nem o ar nem a água conseguem limitar os seus movimentos. Com a lente corrige os defeitos do seu cristalino e com o telescópio contempla as mais remotas distâncias; mercê do microscópio supera os limites do visível impostos pela estrutura da retina. Com a máquina fotográfica, criou um instrumento que fixa as impressões ópticas fugazes, serviço que o fonógrafo (gravador) lhe presta com as não menos fugazes impressões auditivas, constituindo ambos os instrumentos materializações da sua inata faculdade de recordar, isto é, da memória. Com a ajuda do telefone ouve a distâncias que um conto de fadas tomaria como inalcançáveis. (…)

Dir-se-ia que é como um conto de fadas, esta realização de todos ou quase todos os seus desejos fabulosos, conseguida pelo Homem com a sua ciência e com a sua técnica nesta terra que o viu aparecer pela primeira vez como um débil animal (…). O Homem pode considerar todos estes bens como conquista da cultura. Desde há muito já se tinha forjado um ideal de omnipotência e de omnisapiência que encarnou nos deuses, atribuindo-lhes tudo o que parecia inacessível aos seus desejos ou lhe estava vedado, de modo que bem podemos considerar estes deuses como ideais de toda a cultura. Agora que se encontra muito perto de alcançar este ideal, quase ele próprio se chegou a converter num deus. (…) O Homem tornou-se, por assim dizer, um deus com próteses: bastante magnífico quando coloca todos os seus artefactos sem contudo estes nascerem do seu corpo e apesar de por vezes lhe causarem muitos dissabores. (…) Tempos futuros trarão novos, e quem sabe, inconcebíveis progressos neste terreno da cultura, exaltando ainda mais a deificação do Homem.

Freud, El Malestar en la Cultura, Obras Completas, Vai. 111, Editorial Biblioteca Nueva, 1981, pp. 3033-3034

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