A estrutura das revoluções científicas

O objectivo nuclear de Kuhn é compreender em que é que consistem essas imensas transformações que ele designa por revoluções científicas. Toda a conceptualização referida conflui neste objectivo, que Kuhn considera tanto mais importante quanto ele foi , na imagem  dominante  da  ciência  que se construiu a partir dos séculos XVII-XVIII, secundarizado ou mesmo anulado. Para isso, contribuíram vários factores, de que se devem destacar a influência dos manuais científicos e  das obras de vulgarização, assim como a dos trabalhos filosóficos que adoptam a imagem da ciência difundida por estes meios. O que eles têm de comum é a anulação das vicissitudes teóricas e práticas da história científica, facto que decorre de uma estratégia de anulação da história efectiva da ciência e de promoção de uma visão linear, contínua e cumulativa do desenvolvimento científico.

Ao estudar as revoluções científicas, Kuhn procura destacar alguns elementos essenciais à compreensão da História da Ciência. Uma revolução ocorre, pode ocorrer, quando o poder heurístico de um paradigma vacila face a certos tipos de fenómenos, pondo em causa a prática da ciência normal. Se as anomalias não são passíveis de ser reconduzidas à resolução de enigmas, aquela situação transforma-se progressiva, mas irreversivelmente, numa crise, com as concomitantes   tentativas de formular uma nova teoria que permita substituir o paradigma anterior.»

Manuel Maria Carrilho, Itinerários da Racionalidade, Publicações Dom Quixote, 1989

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