A QUESTÃO DO HOMEM COMO QUESTÃO DE DEUS

Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia

” Quando no século XXI falamos de céu, inferno e paraíso, utilizamos metáforas. Não cremos que Deus, na sua infinita sabedoria, tenha criado um universo em que realmente existam estes domínios ultra-terrenos. Tão-pouco pensamos que a vida seja uma peregrinação que conduz a Deus. Nisto nos diferenciamos de Dante, o maior poeta da Idade Média.” Aí está, com esta serenidade, a afirmação de entrada de uma breve introdução de Ch. Zschirnt à leitura de A Divina Comédia de Dante.

Reconhecendo, evidentemente, a perplexidade toda destas questões e que Dante se encontra no mundo das metáforas, será assim tão universal e transparente esta declaração de evidência na abolição de Deus e do seu mistério?

Ainda recentemente, o famoso antropólogo René Girard, por exemplo, à pergunta: “Crê que há algo para lá da morte?”, respondia: “Espero, é a minha fé, um acto de vontade e de esperança. O cristão afirma que não pode reduzir-se tudo ao universo no qual se encontra. Que seja tudo como se nada tivesse sido parece-me demasiado abominável para ser real. Aposto na Realidade.”

António Lobo Antunes também disse ao DN que se zanga com Deus porque permite o sofrimento. “O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria.” E não é a morte “uma puta”? Mas acredita. “A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia.” Não tem dúvidas? “Acredito sempre, mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me: será que existe? É óbvio que sim.”

“Mas reza ou não?” Com as cruzes no horizonte, Eduardo Lourenço pensa e sorri. E responde ao Expresso: “Pode-me acontecer!”

Quem pode negar que as religiões também trouxeram ao mundo barbaridade, superstição, guerras, infantilismo? Afinal, o mundo seria melhor sem elas? A causa da indignidade está nas religiões ou nos seus crentes e funcionários que delas se servem de modo rasteiro e blasfemo para seus propósitos desumanos?

Deus não é objecto de ciência nem pode ser. Há razões para acreditar e há razões para não acreditar. Mas não há um saber científico sobre a existência ou não existência de Deus. Como escreveu o filósofo ateu A. Comte-Sponville, “ninguém sabe, no sentido forte da palavra, se Deus existe ou não. Se encontrardes alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não existe’, esse não é em primeiro lugar um ateu, é um imbecil”.

De qualquer forma, face a um deus que anula o Homem, o escraviza e amesquinha, só se pode e deve ser ateu. Esse deus não pode existir.

O que une os homens e as mulheres é pôr perguntas. O Homem é ele mesmo pergunta para si mesmo: o que é ser Homem? E há uma pergunta maior, que é a da perguntabilidade, isto é, a pergunta pelo perguntar: qual é a condição de possibilidade do perguntar?

Na tentativa de responder a esta pergunta radical, o que se encontra é a presença do (in)finito. O Homem pergunta porque a sua constituição é a da tensão entre o finito e o infinito. Essa é a sua morada: uma finitude aberta ao infinito e, assim, constitutivamente, questão de Deus enquanto questão, no Aberto.

Então, há quem responda que Deus não existe. Uns são agnósticos. Outros fixam-se em respostas rígidas e fundamentalistas, assassinas do Mistério. Há aqueles que se contentam com a natureza e o nosso estatuto de seus filhos e órfãos simultaneamente, como diz Edgar Morin, assumindo a metáfora de Spencer Brown: se quisesse conhecer-se, o universo deveria estabelecer uma distância, fazendo sair de si “um braço no termo do qual instalaria conhecimento, consciência. Quando por fim esse braço o olhasse, o universo teria ao mesmo tempo ganho e perdido. Porque esse braço se tornou demasiado estranho para ser o universo com consciência de si mesmo”. Outros entregam-se, na confiança – quem pergunta espera resposta -, ao Mistério vivo, salvador.
Mas a pergunta está lá. Aceder à consciência de Homem é deixá-la ser até ao fim.

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