Actos gratuitos

No célebre romance de André Gide, Les caves du Vatican, o herói, um jovem muito imaginativo, quer provar a si próprio que se podem executar certos actos sem qualquer razão válida. Tais actos não teriam fundamento senão em si próprios.

O jovem lança à linha um viajante desconhecido que ocupa com ele a mesma cabina do comboio. É um assassínio sem razão: não se lhe pode atribuir qualquer um dos motivos convencionais que acompanham os homicídios: interesse material, vingança, demência, paixão, agressividade social, etc.

Com este exemplo, Gide assinala a possibilidade do acto puro, do acto gratuito, e pretende demonstrar que, ao longo da sua existência, o homem é capaz de executar acções puramente externas a si próprio, sem qualquer compromisso. Quem não vê, porém, que a teoria do acto gratuito se baseia num postulado artificial? Sem dúvida, em si mesmo o acto parece independente de qualquer causa. Contudo, o facto de querer que ele exista, executando-o, é suficiente para o provocar. Este acto tem, portanto, uma causa e é bastante paradoxal pretender que a não tenha. O herói foi impelido a agir a fim de demonstrar que o seu pensamento estava correcto.

Albert Collette, Introdução à psicologia dinâmica

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