Ainda haverá lugar para a Filosofia na cultura contemporânea?

Intervenção de D. José Policarpo no 30.º Aniversário do Curso de Filosofia em Lisboa

1. Celebrar 30 anos do estabelecimento da licenciatura em Filosofia na Sede da Universidade Católica, em Lisboa, é recordar: a análise e as motivações que a isso nos levaram, os objectivos que prosseguíamos, as dificuldades que encontrámos. O ensino da Filosofia, para além do que era ministrado na Faculdade de Filosofia de Braga, esteve presente em Lisboa, desde o início, na Faculdade de Teologia, porque parte integrante dos estudos filosófico-teológicos. A estruturação da Faculdade em Departamentos, entre os quais o Departamento de Filosofia, proporcionou a evolução. De facto, entre todos os Departamentos, o de Filosofia adquiriu um dinamismo muito próprio, pela investigação, consolidação de um corpo de docentes, a afirmação da identidade da Filosofia no conjunto dos saberes teológicos, objectivo primeiro da Faculdade. E foi do dinamismo desse departamento que surgiu o projecto de uma licenciatura em Filosofia. Lembro-me que a hipótese nos confrontou com algumas dificuldades institucionais: a Faculdade de Teologia não podia ser a matriz de uma licenciatura em Filosofia; uma secção da Faculdade de Filosofia dentro da Faculdade de Teologia tinha o seu quê de anacrónico. Este aspecto institucional e académico só se resolveu definitivamente com a criação da nova Faculdade de Ciências Humanas.

Recordo estas vicissitudes, porque têm a ver, embora indirectamente, com o tema que me pediram. Recordo que tínhamos uma motivação e um objectivo que nos ajudaram a vencer as dificuldades: proporcionar a Filosofia como saber comum e integrador de todos os saberes cultivados e ensinados na UCP. Eu tinha a experiência da Teologia como saber basilar da própria reflexão teológica, na arte de pensar, na fundamentação da racionalidade da fé, na humanização dos mistérios em que acreditamos, também eles a desafiarem a ciência e a razão. E perguntava-me então: não poderá a Filosofia ter um papel idêntico, como arte de pensar e fundamento metafísico e antropológico de outros saberes? Este objectivo não foi completamente atingido, e pergunto-me se criar uma nova licenciatura em Filosofia era o único caminho para o conseguir. A grande crise das licenciaturas em Filosofia, para além da diluição dos interesses intelectuais da nossa sociedade, é também motivada pela falta de saída profissional para esses licenciados. As licenciaturas podem entrar em crise, mas é grave que haja um deficit filosófico na nossa cultura e na formação dos quadros dirigentes. Daí que seja sadio perguntarmo-nos sobre que futuro para a Filosofia.

2. Não sei se sou a pessoa indicada para responder, pois não sou filósofo, não arrisco dissertar sobre o futuro da Filosofia e da sua inter-acção com os outros saberes e a maneira de influenciar a cultura. Mas há uma perspectiva que vos posso comunicar: aqueles momentos e circunstâncias, na vida da sociedade e da Igreja, em que sinto falta da Filosofia. Apontarei alguns exemplos seleccionados:

2.1. A superficialidade e horizontalidade da maior parte das análises culturais, e já é pomposo incluir sob essa designação todas as abordagens da realidade, as reflexões e motivações políticas, a interpretação do sentido do homem e da história que nos são abundantemente fornecidas. Fala-se de “post-modernidade” e de crise de sentido. Mas o sentido constrói-se e procura-se, e é objectivo da Filosofia orientar e ajudar nessa construção e nessa busca.

Todos sabemos que a cultura contemporânea é marcada mais pela eficácia e pela capacidade de transformar o mundo, quando muito pela compreensão dos métodos e mecanismos dessa transformação, do que pela compreensão profunda da realidade, onde sobressai o próprio mistério do homem: o “in se” das realidades, em cuja profundidade reside a força de atracção que as projecta para projectos dignos do homem. Todo o processo científico e de transformação do mundo deveria, penso eu, desabrochar numa atitude filosófica de busca e contemplação da verdade profunda das coisas. Sem essa profundidade poderá, porventura, existir processo científico e eficácia transformadora, mas não haverá, concerteza, a consciência profunda da dignidade do homem. A Filosofia é elemento decisivo da profundidade da cultura e da sua transformação em sabedoria.

Isto supõe, que os filósofos nos desculpem a ousadia, que a Filosofia se reencontre a si mesma, não se envergonhando da sua verdadeira identidade, na imensa nebulosa das “ciências humanas” e na tentação de ser útil. Foi apaixonante abordar o mistério do homem a partir do realismo da existência do homem concreto; foi, talvez, necessário estudar os fenómenos do evoluir humano, tentando captar-lhes o sentido, a integrar na compreensão global; mas não se perca de vista o grande desafio que é a compreensão do mistério do homem, para além da sua existência concreta e dos fenómenos que estruturaram ou desestruturaram a sua vida.

2.2. Não desistir da busca da verdade. A modernidade, marcada pela euforia da razão como única fonte da verdade, aliada à dimensão subjectiva da liberdade, acabou por pôr em questão a perenidade e a objectividade da verdade, caindo no relativismo da “post-modernidade” em que tudo é efémero e transitório, valendo apenas o que significa para o indivíduo em cada momento que passa. Perdeu-se a atracção pela verdade e a inquietação de a encontrar. As pessoas contentam-se com a verdade que lhes basta; muitas vezes não querem mesmo pô-la em questão, deixando que entre nelas a inquietação do absoluto. O “eros” dos gregos, o desejo de Agostinho ou o “appetitus” de Tomás de Aquino, manifestações da atracção que o absoluto exerce sobre o espírito humano, foram relativizados pela razão individual e domesticados pelo pragmatismo da verdade que basta.

Neste quadro, não há lugar para a Filosofia. Uma das causas desta situação foi o esquecimento da razão como capacidade de acolhimento da verdade que nos é comunicada ou transmitida, quer pela revelação, e esta não é o campo natural da pesquisa filosófica, quer por experiências humanas que não brotam da razão lógica, como o amor, a expressão simbólica ou a emoção estética, mas cuja mensagem deve ser acolhida pela razão e por ela reconduzida à compreensão e à sabedoria. A estética é certamente um campo a ser trabalhado pela Filosofia, a qual, procurando a harmonia, toca o domínio da beleza.

Como vencer esta satisfação empobrecida dos espíritos contemporâneos? Como valorizar a força inquietante e mobilizadora do “eros”, do “desejo”, do “appetitus”, tornando os homens peregrinos da verdade que os atrai e os transcende?

Nós sabemos que, no fundo, só Deus pode inquietar o coração do homem e daí que a escuta da sua Palavra seja decisiva para desencadear um autêntico dinamismo de busca da verdade. Mas o Deus que nos fala pelos Profetas e por Jesus Cristo, é o Deus que nos criou. E na criação Ele disse-se, antes de falar. Escutar a Sua mensagem é campo próprio da Filosofia. Este tem de ser, hoje, um dos caminhos para despertar nas pessoas e na cultura o desejo da profundidade e a inquietação do absoluto.

2.3. As razões do nosso acreditar. O dogma da modernidade, ao circunscrever a verdade ao horizonte da razão lógica, relegou as verdades da fé para um campo indefinido do “não-racional”, no âmbito da subjectividade, e inventou um pseudo-conflito entre ciência e fé. Não percebeu que há uma racionalidade da fé, porque a verdade acolhida, não tendo origem nas capacidades da razão, encontra nesta a capacidade de humanização, isto é, de dar às verdades da fé a dimensão humana, inserindo-as na harmonia da compreensão e do saber. Desde a era apostólica que a Igreja diz aos crentes que é preciso poder exprimir as razões do nosso acreditar.

Aquele divórcio entre a razão e a fé teve consequências em muitos cristãos, cuja racionalidade é profana, nunca desenvolveram uma razão crente e não estão preparados para explicitar as razões porque acreditam. Tocamos na relação entre fé e cultura, importante para o próprio dinamismo da fé. João Paulo II afirmou: “A fé que não se converte em cultura é uma fé não completamente acolhida, não inteiramente pensada, não vivida numa fidelidade total” (1). E noutra altura diz: “cultura e fé progridem em conjunto, influenciam-se mutuamente, para que a pessoa atinja o pleno desenvolvimento, correspondente à sua vocação e se torne conforme à ideia que o Criador concebeu desde a eternidade” (2)

Há aqui um lugar para a Filosofia e, de modo particular, para os filósofos cristãos. Atrever-me-ia a falar de uma função pastoral da Filosofia. Aprender a pensar em chave crente, eis um desafio para a “nova evangelização”.

3. Para restituir à Filosofia esta dimensão tornando-a omnipresente como arte de pensar, inquietação de profundidade, capacidade de harmonia entre os diversos saberes, não basta uma licenciatura académica. Serão precisos criatividade e espírito inventivo para encontrar os modos e os momentos de tornar a atitude filosófica mais presente, para proporcionar a quantos buscam a verdade, a arte da inteligência que abre novos horizontes e desafios à perspectiva concreta de que se parte nessa busca da verdade.

Universidade Católica Portuguesa

Lisboa, 20 de Novembro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

NOTAS

1 – João Paulo II, Insegnamenti, vol. IX,2 (1986), pg. 171

2 – Ibidem, pg. 1196

 

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