Apenas 37% dos oncologistas defendem eutanásia

Trinta e nove por cento dos médicos oncologistas defendem a legalização da
eutanásia, mas a percentagem que admite fazê-lo é de 23 por cento, segundo
um estudo de 2007 da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP)

O autor do estudo, Ferraz Gonçalves, do Serviço de Bioética e Ética Médica
da FMUP, indicou hoje à Agência Lusa não existir investigações
posteriores, referindo, porém, não ter passado tempo suficiente para uma
«mudança significativa» dos resultados.

«Alguns médicos reconheceram o direito de escolha, mas eles próprios não o
quereriam fazer», notou o médico.

Escusando-se a antever uma tendência para o futuro, o médico especialista
em cuidados paliativos referiu verificar-se, mas não de forma
significativa, que os médicos mais velhos são mais frequentemente contra a
eutanásia.

O também colaborador da Associação Portuguesa de Bioética afirmou que a
morte assistida (eutanásia) não deve ser uma questão prioritária para ser
discutida.

«Primeiro tem de haver uma opinião pública que queira debater. Está-se a
forçar a nota», argumentou Ferraz Gonçalves, contrapondo com a questão do
aborto.

Antes do quadro legal da interrupção voluntária da gravidez «já havia
posições, discussões e uma massa crítica significativa», considerou o
especialista, assumindo-se contra a morte medicamente assistida.

Ferraz Gonçalves considerou que uma maior implementação dos cuidados
paliativos evitaria muitos dos eventuais pedidos de eutanásia.

«Os cuidados paliativos estão numa fase reduzida e a resposta não é
suficiente para as necessidades», afirmou o médico à Lusa, para quem se
está a «queimar uma etapa» ao discutir a eutanásia, sem antes «responder
ao sofrimento» através dos cuidados especializados.

«A vir a legalização, deve ser depois. A maior parte das pessoas não quer
morrer mesmo quando estão muito doentes. Querem viver», garantiu.

Aquando da apresentação do estudo, o director do Serviço de Bioética e
Ética Médica da FMUP, Rui Nunes, orientador da tese, disse à agência Lusa
que os resultados são «muito preocupantes» e constituem «um sinal de
alerta», porque confirmam uma tendência de crescimento.

Em Outubro de 2008, a APB divulgou uma proposta para um referendo nacional
sobre a prática da eutanásia.

«A Assembleia da República, o Governo e demais órgãos de soberania devem
promover ao longo da próxima legislatura – e após um debate plural e
participado sobre esta temática – a realização de um referendo nacional de
modo a ser possível auscultar a população portuguesa no que respeita à
morte medicamente assistida», lê-se no documento datado de 13 de Outubro.

O mesmo texto sublinhava que, sendo uma questão que remete para a «esfera
da consciência individual, os partidos políticos com representação
parlamentar devem apresentar as suas propostas sobre a prática da
eutanásia no programa eleitoral das próximas eleições legislativas».

O congresso do Partido Socialista prepara-se para discutir uma moção
sectorial sobre eutanásia, com o dirigente Augusto Santos Silva a dizer
estar de acordo com a possibilidade de esse debate se travar, já que se
trata «de uma questão complexa e delicada».

«O PS, a sociedade civil, os profissionais de saúde e as instituições
religiosas devem fazer esse debate. Há já um forte consenso na sociedade
portuguesa no sentido de poupar os moribundos ao sofrimento desumano. Mas
uma coisa é defender essa posição e outra coisa é defender a eutanásia»,
declarou.

A moção sectorial que pretende gerar o debate em torno da eutanásia é
subscrita pelo deputado socialista Marcos Sá, pelo presidente do PS,
Almeida Santos, e pelo secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro.

Lusa / SOL
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=125918

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