Aristóteles na empresa

Poderá, sem dúvida, ser uma tese genuinamente americana, mas a verdade é
que não devem existir barreiras na busca das melhores fontes de
conhecimento para uma boa condução dos negócios.

Aparentemente, milhares de profissionais em todo o mundo pensam o mesmo, a
julgar pelo êxito do livro de Tom Morris agora editado no mercado
nacional, que sem dúvida necessita urgentemente de algum oxigénio
iluminante.

O projecto do guru americano, que noutra vida foi um respeitado teórico de
filosofia, é de uma simplicidade desarmante. A base é a releitura dos
principais conceitos de um dos monstros sagrados do pensamento –
Aristóteles – e a sua aplicação ao contexto empresarial e laboral, na
procura do fornecimento de um guia para a excelência do indivíduo, o
profissional, e do colectivo, a empresa.

Como o próprio autor escreve no prefácio, numa expressão sincera de fé,
“os filósofos dos séculos passados, desde Platão e Aristóteles até aos
nossos dias, deixaram–nos o equivalente a uma enorme conta bancária de
sabedoria, a que podemos recorrer para uma riqueza de conhecimentos
aplicável tanto aos negócios como aos outros sectores da vida”.

É da mais elementar justiça reconhecer que Morris sai–se muito bem da
tarefa, nunca passando aquela fronteira ténue entre a aplicação feliz de
noções teóricas a um campo delimitado, e o oportunismo que, exactamente,
um conceito generalista permite.

Assim, alertando os seus leitores de que Aristóteles é o modelo mas não o
único filósofo a que recorre, e a General Motors apenas o símbolo da
empresa complexa e global, Morris procura “escavar” no pensamento teórico
para encontrar os princípios fundamentais da “alma” de um negócio de alto
nível.

Como não poderia deixar de ser, se a filosofia é o fio condutor da
proposta, o texto está submetido a quatro grandes campos, que correspondem
ao mesmo número de capítulos: Verdade, Beleza, Bondade e Harmonia, com um
epílogo que é um sumário executivo para a procura da excelência.

No primeiro capítulo, a ênfase está muito centrado na capacidade do
profissional não encontrar desculpas para a sua “performance”, e
principalmente de ser capaz de reconhecer e lidar com as suas falhas,
optando antes por uma sinceridade simples.

No segundo, que manobra muito bem as propostas estéticas de Aristóteles,
de enorme valor para o mundo contemporâneo, a discussão é em torno da
necessidade permanente de criatividade, do nível macro ao mais reduzido
dos níveis micro.

No terceiro capítulo, incorporando todas as propostas mais recentes de
responsabilidade social das empresas, o desafio de Morris é o de construir
uma base para as empresas, e os seus quadros, poderem funcionar com uma
base ética incorruptível.

O último capítulo, que lida com a harmonia, é o mais conceptual, já que
pretende unir um campo de difícil operacionalização, o da espiritualidade,
com a realidade material diária da produção e da competição. Numa síntese
nada filosófica, Morris partilha com os seus leitores um bom guia para um
caminho alternativo para a excelência.

José Vegar/Isabel Marques da Silva

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