AUTOCARROS ATEUS E CRISTÃOS

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Oslogan “Deus provavelmente não existe. Deixe, pois, de se preocupar e
goze a vida”, que tinha começado por percorrer Londres, chegou à Espanha,
nomeadamente a Barcelona e a Madrid, devendo alcançar outras cidades
espanholas.

Como já aqui escrevi, trata-se, antes de mais, de um acto de liberdade de
expressão. No quadro do respeito pela lei, todos têm direito a manifestar
as suas opiniões e crenças. Este direito é, evidentemente, extensivo aos
ateus.

Depois, é interessante que no “cartaz” se leia: “provavelmente”. Não se
diz que não há Deus, diz–se que “provavelmente” não há. Isto significa
que os autores dos cartazes perceberam que não podem demonstrar a não
existência de Deus. A afirmação da existência de Deus ou da sua não
existência não é objecto de ciência, pois não pode haver verificação
empírica. O ateu não pode dizer que “sabe” que não há Deus; ele apenas
pode dizer que “crê” que não há Deus. Como o crente também não “sabe” que
Deus existe; ele “crê” que Deus existe.

E entende-se todo este movimento ateu, que deve obrigar os crentes a
pensar. Não foram frequentemente os crentes que deram uma imagem de Deus
que obrigava ao ateísmo? Não se deve ser ateu face a um Deus mesquinho e
ridículo – pense-se, por exemplo, no criacionismo americano, segundo o
qual os primeiros capítulos do Génesis devem ser tomados à letra –,
invejoso da alegria dos humanos e impedindo a sua realização e felicidade?

É precisamente o que se dá a entender na segunda parte do slogan: “Deixe
de se preocupar e goze a vida.” Deus aparece como impedindo a alegria de
viver, de tal modo que a probabilidade da sua não existência seria o
pressuposto para finalmente se viver de modo expansivamente humano.

Isso deve levar os crentes a reflectir, pois, embora seja fonte de vida,
de salvação e realização plena da existência, de facto, muitas vezes foi
pregado um Deus que amesquinha a vida, um Deus incompatível com a ciência,
um Deus vingativo – ele até apanharia os ateus no inferno… -, um Deus
desgraçadamente invocado para legitimar o que é contra Deus: a violência,
o terrorismo, a guerra.

Mas também é preciso perguntar aos autores dos cartazes: que entendem por
“deixe de preocupar-se e goze a vida”? Seja como for, crentes e não
crentes têm de viver com responsabilidade e empenhar-se na luta por uma
vida boa e justa para todos.

O lema do cartaz programado para a Itália pela União de Ateus e Agnósticos
Racionalistas seria: “A má notícia é que Deus não existe. A boa é que não
é preciso.”

Parece que foi impedido pelas autoridades. Lamentavelmente, pois esta
publicidade dos autocarros ateus obriga toda a gente a pensar e é bom e
urgente pensar no mais importante. O pior é não pensar, não se interrogar.
A pergunta por Deus, seja para afirmá-lo seja para negá-lo, é a pergunta
maior e é mesmo o fundamento da dignidade humana. O ser humano é digno,
porque pode perguntar pelo Infinito.

Mas, afinal, Deus não é preciso? Também o crente reconhece que Deus não
pode ser um tapa-buracos, a compensação para a nossa ignorância e
impotência, a legitimação ideológica da ordem social e política ou a chave
de abóbada de um sistema.

De qualquer modo, Deus tem a ver com o sentido último e a salvação. Foi
talvez neste quadro que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer,
escreveu a Ida, mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não
abandonasse a ideia de Deus: “Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar
atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa.” Como escreveu
Wittgenstein, “crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido
da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus
quer dizer que a vida tem um sentido”.

Nas ruas de Madrid, compareceram também autocarros cristãos: “Deus existe.
Desfruta a vida em Cristo.” Claro que há esse direito. Mas seria
lamentável uma “guerra” de cartazes. Os crentes devem sobretudo
testemunhar Deus pela vida, pela combate a favor da justiça, pelo amor. E
é também fundamental uma pastoral da inteligência, no diálogo entre a fé e
a razão.

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