Choque de culturas

O meu interesse pelo choque de culturas prende-se com o interesse por um problema importante: o problema da singularidade e da origem da nossa civilização europeia. Uma resposta parcial a esta questão parece-me encontrar-se no facto de a nossa civilização ocidental derivar da civilização grega. E a civilização grega – um fenómeno sem paralelo – resultou de um choque de culturas – das culturas do mediterrâneo oriental. Foi o primeiro grande embate entre culturas ocidentais e orientais, e como tal foi sentido. […] Mas será a civilização ocidental algo de bom, algo que mereça ser aclamado? Esta questão tem sido colocada repetidamente, pelo menos desde Rousseau, e muito especialmente por jovens sempre em busca de algo melhor; esta questão é, pois, característica da actual civilização ocidental, a civilização mais autocrítica e mais reformista do mundo. Antes de me debruçar sobre o meu tema, o choque de culturas, gostaria de responder a esta questão.Creio que a nossa civilização ocidental, apesar de tudo o que, com razão, se lhe possa censurar, é a mais livre, a mais justa, a mais humana, a melhor de que temos conhecimento na História da Humanidade.É a melhor porque a mais predisposta ao aperfeiçoamento.Por toda a parte na terra os homens têm criado novos universos culturais, muitas vezes perfeitamente distintos: os universos do mito, da poesia, da arte, da música; os universos dos meios de produção, das ferramentas, da técnica, da economia; os universos da moral, do direito, da protecção e auxílio às crianças, aos doentes, aos incapacitados e outros necessitados.Só na nossa civilização ocidental é que a exigência moral da liberdade individual é amplamente reconhecida e posta em prática. E com ela a exigência de igualdade perante a lei de forma a evitar ao máximo o recurso à violência. […]É sabido que também a nossa civilização é muito imperfeita. Isto resulta particularmente evidente.Uma sociedade perfeita não é possível como facilmente se poderá constatar. Em relação a quase todos os valores que deveriam ser realizados pela sociedade, existem outros valores que com eles vão colidir. Até mesmo a liberdade, porventura o mais elevado de todos os valores sociais e individuais, deve ser restringida, na medida em que a liberdade do João pode muito facilmente entrar em colisão com a liberdade do Pedro. […) A liberdade tem infelizmente de ser limitada pela lei, pela ordem. A ordem constitui o equivalente necessário da liberdade. O mesmo se passa com todos, ou quase todos, os valores que desejaríamos ver implantados . Sou, pois, um defensor da sociedade ocidental, da ciência, da democracia. Elas dão-nos a oportunidade de prevenir o infortúnio evitável e de experimentar, de apreciar criticamente e, se necessário, aperfeiçoar as reformas.

Karl Popper – Conferência do autor, em Viena, em 1981 Fonte: Expresso, 29 de Abril de 1989

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