Como definir a Filosofia? – J. Ferrater Mora

1: O termo: O significado etimológico de filosofia é “amor à  sabedoria”. Antes de se usar o substantivo “filosofia” usaram-se o verbo “filosofar” e o nome “filósofo”. Heraclito afirmou que convém que os homens filósofos sejam sabedores de muitas coisas. Atribui-se a Pitágoras o ter-se chamado a si mesmo filósofo, mas não só se discute a autenticidade da afirmação como, principalmente, se neste contexto filósofo significa o mesmo que para Sócrates e Platão. Por aquele tempo considerava-se como filósofo todo o sábio, sofista ou historiador, físico e fisiólogo. As diferenças entre eles obedeciam ao conteúdo das coisas que estudavam: os historiadores estudavam factos (e não só factos históricos), os físicos e fisiólogos o elemento ou os elementos últimos de que se supunha composta a natureza. Todos eram, contudo, homens sapientes e, portanto, todos podiam ser considerados (como fizeram Platão e Aristóteles) como filósofos. Esta tendência para o estudo teórico da realidade a fim de conseguir um saber utilitário acerca dela, em conjungo com a tese da diferença entre a aparência e a realidade (já em Platão é explícita), tornou-se cada vez mais acentuada no pensamento grego. A concepção da filosofia como uma procura da filosofia por ela própria conclui numa explicação do mundo que utiliza um método racional-especulativo, coincida ou não com a mitologia. Desde então o termo filosofia tem valido com frequência como expressão desse “procurar a sabedoria”.
2: A origem: Inicialmente, com efeito, a filosofia estava misturada com a mitologia e com a cosmogonia; isto tem levado a perguntar-se se a filosofia grega carece de antecedentes ou não. Alguns autores indicam que as condições históricas dentro das quais emergiu a filosofia (fundação de cidades gregas nas costas da Ásia Menor e no sul da Itália, expansão comercial, etc) são peculiares da Grécia e, portanto, a filosofia só podia surgir entre os gregos. Outros assinalaram que há influências orientais, por exemplo egípcias. Outros, finalmente, indicam que na China e especialmente na Índia houve especulações que merecem, sem restrições, o nome de filosóficas. Qualquer que seja a posição que se adopte, é forçoso reconhecer que os sentidos que o termo “filosofia” atingiu a sua maturidade apenas na Grécia. Por tal motivo, nesta obra, limitar-nos-emos primordialmente à tradição ocidental, que se inicia na cultura grega.
3: A significação: Assinalou-se acertadamente que, enquanto perguntar “o que é a física?” não é formular uma pergunta pertencente à ciência física, mas sim anterior a ela, perguntar, em contrapartida, “que é a filosofia?” é formular uma pergunta eminentemente filosófica. Assim, cada sistema filosófico pode valer como uma resposta à pergunta acerca do que é a filosofia e também acerca do que representa a actividade filosófica para a vida humana. Segundo Platão e Aristóteles, a filosofia nasce da admiração e da estranheza; mas enquanto para o primeiro é o saber que, ao estranhar as contradições das aparências, chega à visão do que é verdadeiramente, as ideias, para o segundo a função da filosofia é a investigação das causas e princípios das coisas. O filósofo possui, na opinião de Aristóteles, “a totalidade do saber na medida do possível, sem ter a consciência de cada objecto em particular”. A filosofia conhece por conhecer; é a mais elevada e, simultaneamente, a mais inútil de todas as ciências, porque se esforça por conhecer o cognoscível por excelência, quer dizer, os princípios e causas e, em última instância, o princípio dos princípios, a causa última ou Deus. Por isso a filosofia é chamada por Aristóteles, enquanto metafísica ou filosofia primeira, teologia; é a ciência do ente enquanto ente, a ciência daquilo que pode chamar-se com toda a propriedade a Verdade. Desde Platão e Aristóteles sucedem-se as definições da filosofia, que compreende também um conteúdo religioso e uma norma para a acção, como no estoicismo e no neoplatonismo. O cristianismo irrompe com uma negação da filosofia, mas já em Santo Agostinho se verifica uma assimilação entre o antigo saber e a nova fé. A resposta que a idade média dá à pergunta pela filosofia vem determinada por esta perspectiva, da qual o cristão contempla o saber transmitido pela antiguidade e procura absorvê-lo. A filosofia é então aspiração ao conhecimento dado que estabelece a fé. Mas este conhecimento não pode transcender os limites impostos pelo racional e por isso a filosofia vai-se separando cada vez mais da teologia, vai-se reduzindo à esfera onde se aplica a luz natural do homem em todo o seu esplendor, mas ao mesmo tempo , em toda a sua limitação. A tensão entre o mundo da fé e o da razão testemunha os direitos que se reconheceram a ambas as esferas do saber. Na filosofia moderna multiplicam-se as definições da filosofia; recolheremos algumas. Para Bacon, a filosofia é o conhecimento das coisas pelos seus princípios imutáveis, e não pelos seus fenómenos transitórios; é a ciência das formas ou essências e compreende no seu seio a investigação da natureza e das suas diversas causas. Para Descartes, a filosofia é um saber que averigua os princípios de todas as ciências e, enquanto filosofia primeira ou metafísica, ocupa-se da dilucidação das verdades últimas e, em particular, de Deus. A partir de Descartes, a filosofia vai-se tornando pronunciadamente crítica. Locke, Berkeley e Hume consideram a filosofia, em geral, como crítica das ideias abstractas e como reflexão sobre a experiência. Quanto a Kant, concebe a filosofia como um conhecimento racional por princípios, mas isto exige uma prévia delimitação das possibilidades da razão e, portanto, uma crítica à mesma como prolegómenos ao sistema da filosofia transcendental. Nos filósofos do idealismo alemão, a filosofia é o sistema do saber absoluto, desde Fichte, que a concebe como a ciência da construção e dedução da realidade a partir do Eu puro como liberdade, até Hegel, que a define como a consideração pensante das coisas e que a identifica como o Espírito absoluto no estado do seu completo autodesenvolvimento. Schopenhauer sustentou que a filosofia é a ciência do princípio de razão como fundamento de todos os restantes saberes, como a auto-reflexão da vontade. Para o positivismo, é um compêndio geral dos resultados da ciência e um filósofo é “um especialista em generalidades”. Segundo Husserl, a filosofia é, em si mesma, uma ciência rigorosa que conduz à fenomenologia como disciplina filosófica fundamental. Para Wittgenstein e muitos positivistas lógicos, em compensação, a filosofia não é um saber com conteúdo, mas sim um conjunto de actos; não é conhecimento, mas actividade. A filosofia seria uma “aclaração” e sobretudo uma “aclaração da linguagem”, para o descobrimento de pseudoproblemas. Portanto, a missão da filosofia não consiste em solucionar problemas, mas em desanuviar falsas obsessões: no fundo a filosofia seria uma purificação intelectual. Para Bergson, em contrapartida, a filosofia possui um conteúdo: o que se dá à intuição, rasgado o véu da mecanização que a espacialização do tempo impõe à realidade: a filosofia utilizaria como instrumento a ciência, mas aproximar-se-ia melhor da arte. O importante é que a reflexão sobre as diferentes atitudes ante o problema da filosofia permitiu que se vá tendo uma crescente consciência do própria problema. Esta consciência manifestou-se especialmente nas investigações de Dilthey, que se esforçou por dilucidar o que chamou”filosofia da filosofia”. graças a estas e a outras tentativas, chegou-se a erigir, embora ainda imperfeitamente, uma verdadeira teoria filosófica da filosofia, teoria que tem a sua justificação no facto de a filosofia não ser nunca, por princípio, uma totalidade acabada, mas uma totalidade possível.
4: As disciplinas filosóficas: A divisão da filosofia em diferentes disciplinas não é própria de todos os sistemas. É difícil, por exemplo, expor a filosofia de Platão ou de Santo Agostinho como se fosse constituída por diversas partes. Em compensação, a divisão é clara em Aristóteles ou em Hegel; a divisão pelo facto de a encontrarmos com nitidez depende, em grande parte, do filósofo em questão. De facto, só em Aristóteles apareceram as divisões que tão influentes foram no curso da filosofia ocidental. O seu sistema filosófico é um marco de enciclopédia do saber do seu tempo; é a partir dele que se constituem como disciplinas a lógica, a ética, a estética (poética), a psicologia (doutrina da alma), a filosofia política e a filosofia da natureza, todas elas dominadas pela filosofia primeira (metafísica. Em geral, pode dizer-se que até finais do século dezanove e em particular para as finalidades do ensino se consideraram como disciplinas filosóficas a lógica, a ética, a gnoseologia, a epistemologia ou teoria do conhecimento, a ontologia a metafísica, a psicologia, com frequência a sociologia, e além disso um conjunto de disciplinas como a filosofia da religião, do estado, do direito, da História, da natureza, da arte, da linguagem, da sociedade, etc, bem como a história da filosofia. Em breve várias partes se tornaram independentes. Muitos sustentam que, por diversas razões, a psicologia, a sociologia, a metafísica, a lógica, etc, deveriam ser eliminadas. De facto, as duas primeiras constituíram-se em grande parte como disciplinas especiais.
José Ferrater Mora, “Dicionário de Filosofia”, Publicações D. Quixote
Facebook Comments

2 Comments

  1. A ideia de Filosofia como desbanalização do banal é interessante e encontra correspondência em toda a história da filosofia, sobretudo na tradição continental. Referindo-se a Gilbert Ryle filósofo inglês, o francês Belaval afirmou que “pretende criticar a tese cartesiana do dualismo alma/corpo em conformidade com o método analítico dos «filósofos da linguagem comum» estudando o campo conceptual dos termos utilizados para designar o espírito, a fim de pôr emevidência os erros de atribuição categorial”.
    Frequentemente, os conceitos filosóficos são portadores de uma semântica que só é compreensível no interior da obra de um filósofo ou de uma corrente filosófica (por exemplo, o conceito de “substância” é distintamente utilizado por Descartes e Espinosa, pelo que nem sempre a linguagem comum, banal,é apropriada para a compreensão das mais variadas teorias filosóficas.

    Sérgio Lagoa

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.