Confrontações metafísicas

Um dos maiores problemas metafísicos é o de conciliar a existência do mal à bondade e à onipotência divinas. Voltaire, em seu Dicionário de Filosofia, discorre sobre o chamado dilema de Epicuro, que tem a seguinte formulação: “Ou Deus quer extirpar o mal deste mundo e não pode, ou pode e não o quer; ou não pode nem quer; ou finalmente quer e pode. Se quer e não pode, é sinal de impotência, o que é contrário à natureza de Deus; se pode e não quer, é malvadeza, o que não é menos contrário à sua natureza; se não quer e nem pode é simultaneamente malvadez e impotência; se quer e pode (o que de todas as hipóteses é a única que convém a Deus), qual então a origem do mal sobre a terra?”.
No percurso da história da Humanidade, muitas tradições buscaram encontrar uma solução para o paradigma de Epicuro. Uma das mais destacadas foi o maniqueísmo – seita cristã que apareceu por volta do século III na Pérsia, que admitia a existência de dois princípios no universo: um bom e outro mau. Existe um Deus justo e bom, mas há, em constante disputa com Ele, um princípio mau, fonte originária de todas as coisas más. Essa luta trava-se tanto no universo quanto no próprio ser humano. Assim, elimina-se o questionamento posto por Epicuro, vez que já não é mais de Deus a responsabilidade pela origem do mal.
Contudo, essa tese tem encontrado muita resistência. Em primeiro lugar, se Deus é todo-poderoso, porque não destrói o princípio mau? E se Ele é entendido como a causa de tudo, como excluir o mal de sua criação? Por outro lado, afirmar que existe no homem um princípio bom e outro mau, não é no final das contas desculpar o homem de seus erros, declarando que nele outra coisa agiu?
Santo Agostinho formula outra teoria para dar fim à polêmica. Na sua visão, o mal não tem realidade, não tem ser, é apenas ausência do bem. Sendo assim, Deus não é causa do mal, considerando-se que o mal não é e que Deus é apenas a causa do que é. O mal teria nascido de um desvio que constitui o pecado original de Adão e Eva.
Voltaire insurge-se contra tal perspectiva, pois, para ele, esse argumento presta-se para enaltecer a imagem cruel de Deus, que pune todas as gerações oriundas daqueles que cometeram o primeiro delito. Com efeito, inadmite um Deus vingativo e injusto.
Outra tentativa de equacionar o problema desenvolve-se no século XVII com a tese da teodicéia, que, literalmente, significa “justiça de Deus”. Destarte, a bondade divina não é atingida pela existência do mal; Deus deve ser inocentado em face da apresentação da racionalidade profunda do universo e dele próprio. Ao resolver criar o cosmo, o fez por este ser o melhor; nada existe sem uma razão para ser assim e não de outro modo. Tudo faz parte do arranjo divino, da harmonia preestabelecida por Deus. O melhor não é aquilo que é melhor para o homem, mas o melhor para o conjunto da criação. O fim do todo é bom, aquilo que se vê como mal se deve à limitação e à visão parcial da espécie humana. O que se vê como aparente mal contribui para um bem maior. Em outras palavras, Deus deseja o bem final do todo, mas pode permitir o mal em vista de um bem maior, como meio para atingir o fim, que é a melhor organização do todo. O mal geral não existe, e o mal particular não deve ser superestimado, já que contribui para o bem geral.
Contrapondo-se ao referenciado otimismo filosófico, Voltaire afirma que todas as coisas já foram planejadas e a elas se tem que aceitar, o que justifica o presente estado das coisas, sendo em vão esforçar-se para mudar, posto que tudo é como tem de ser.
Finalmente, teorias metafísicas não faltaram para dirimir tal controvérsia, mas o fato é que o homem não pôde encontrar resposta definitiva. Não são inválidas as tentativas dos filósofos. Porém, esses, na sua maioria, abandonam o mundo, edificam seus sistemas em castelos de areia e, quando confrontados com a realidade, permanecem afirmando suas conclusões, apesar da precariedade que podem surgir de suas proposições.
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