Deixem de associar a ideia de alma ao ADN

A alma ficaria ofendida se lhe dissessem que é só uma molécula, brinca o Físico teórico rendido à Biologia.

Deixou de ser director do Instituto de Biologia Molecular e Celular do Porto, função que exerceu durante 16 anos. E agora?

Há seis anos comecei a avisar que, quando se aproximassem os 20 anos [de permanência em Portugal], ia querer sair, pois parece que de 20 em 20 anos sinto desejo de pensar em coisas diferentes (risos). Há três repeti e no ano passado disse que tinha tomado a decisão de não me recandidatar à direcção do IBMC.

Passou a vice-director. Porquê?

Queria afastar-me da direcção, mas os estatutos do IBMC não permitem ir buscar pessoas mais novas e sem ligação sólida com a instituição, pelo que aceitei continuar na direcção – para ajudar na transição. O Cláudio Sunkel, que era vice-director, passou a director e eu passei de director a vice-director. Isso perturbou ainda mais as pessoas, mas é normal em instituições de muitos países do Norte, onde há o reitor, o pró-reitor e o pós-reitor – que ajuda nas ligações estabelecidas.

Doutorou-se em Física e fez caminho na Biologia. Como é que foi isso?

Os primeiros anos do séc. XX foram de uma riqueza espantosa na área da Física. E eu tive um professor meio louco no liceu que me fascinou. Era mau professor, eu não percebia metade das coisas que dizia, mas ficava com curiosidade. 

Não mudou só de área de competência. Mudou de continente.

Em 1972 conheci, por acaso, Sydney Brenner, o grande homem da Biologia Molecular da altura, que tinha ido à África do Sul receber um prémio. Disse-lhe que estava com vontade de mudar para Biologia mas tinha acabado de fazer um doutoramento em Física Teórica. Ele respondeu ‘faça aquilo que quer’ e pouco depois comprei um bilhete de ida para Berkeley [Universidade da Califórnia] e fiquei lá 20 anos. Quando saí foi a mesma coisa – comprei um bilhete de ida para o Porto e a decisão de partir demorou só seis meses.

O que é que um físico teórico fazia no campo da Biologia em Berkeley?

Trabalhei como técnico de laboratório durante um ano. Depois deram-me uma bolsa de pós-doutoramento para fazer Biologia. Os primeiros dois anos lá foram muito difíceis pela insegurança emocional e intelectual, mas foi uma das decisões mais importantes da minha vida. A baía de S. Francisco tem uma vitalidade científica, cultural e social extraordinária.

Participou nas lutas que se travavam?

Participei intensamente na vida científica, social e política na área da baía de S. Francisco. Berkeley era muito conhecida pela questão dos direitos humanos e S. Francisco pela defesa dos direitos gay. Senti-me muito bem entre pessoas que lutavam pelos seus direitos de expressão.

Por que é que se veio embora?

Dirigia um Centro de Estudos Ambientais e era director-adjunto de uma das divisões do Lawrence Berkeley National Laboratory. Estava a ser empurrado para ter um trabalho cada vez mais administrativo e, aos 40 e poucos anos, queria fazer mais qualquer coisa. Eu vinha anualmente a Portugal dar aulas no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto. Era uma cidade fechada mas fizeram-me sentir que era bem-vindo e que aqui podia fazer coisas novas. 

Encontrou um ambiente estimulante no Porto?

Os jovens ainda não eram tão cínicos como hoje, não pensavam só no ‘job’ que queriam. Houve uma outra razão que nos levou [Alexandre Quintanilha e o seu companheiro de há 30 anos, o escritor Richard Zimler] a sair de S. Francisco. No fim dos anos 80 era muito difícil ir a uma reunião de amigos sem que se falasse da sida, havia sempre um amigo ou um familiar que tinha sido infectado. Não havia terapia. Era a morte, com degradação física. Isso afectou-me. Sentimos que precisávamos de ir respirar para outro sítio. Nessa altura, em Portugal, eram poucas as pessoas que conheciam doentes de sida. 

O que é que lhe apetece fazer agora?

Gostava muito de começar a estudar mais Filosofia, principalmente Ética, que está dominada pela Igreja. No lado anglo-saxónico há uma filosofia muito mais pragmática e secular que não baseia os valores na crença num ser supremo e em recompensas depois da morte. Os valores são construídos pelos seres humanos. 

Interessa-lhe a Ética em articulação com a Ciência?

Principalmente. E voltamos às questões da Biologia relacionadas com a autonomia das pessoas. Há perguntas infantis: ‘você é a favor do aborto?’, ‘você é a favor da eutanásia?’ Eu sou é contra a criminalização do aborto e da eutanásia. Deve haver situações em que, se calhar, faz todo o sentido, é o mal menor do processo. 

Compreende os receios dos leigos diante da manipulação genética?

Perfeitamente e até certo ponto a culpa é dos cientistas, que dizem que o ADN é a alma dos seres vivos. Eu não acredito na alma, mas, se acreditasse, acho que ela ficaria muito ofendida se lhe dissessem que era só uma molécula, tanto mais que agora é possível fazer ADN sinteticamente. Tem de haver um esforço para que as pessoas percebam os riscos e os benefícios. Eu também não sou a favor da engenharia genética de qualquer maneira, mas deixem de associar ao ADN a ideia de alma. 

Não há uma certa futilidade em usar a clonagem, por exemplo, para substituir animais domésticos?

Depois de fazerem muitas clonagens em animais domésticos, as pessoas vão perceber que o animal novo não tem nada a ver com o anterior e isso permitir-lhes-á compreender que o ADN não é suficiente para substituir um ser querido. Isso terá um efeito terapêutico. Quanto à questão da aplicação dos recursos, é preciso não esquecer que 90% do investimento na saúde é para tratar as doenças de 10% da população. É justo? Não! São desequilíbrios enormes, mas não é por se ser contra ou a favor da clonagem que isso vai alterar-se. Quando as pessoas perceberem que a clonagem não cria seres iguais, o fascínio desaparecerá.

‘COMPETIÇÃO INTERNA CADA VEZ MAIS SÓLIDA’

O IBMC ligou-se primeiro ao Instituto de Engenharia Biomédica, depois ao Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e, agora, a partir dos três, surge o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde. Qual é o objectivo destas parcerias? 

Ir agora buscar as pessoas que trabalham na área da Oncologia faz todo o sentido, tanto mais que fazer investigação na área das ciências da vida é cada vez mais caro: não temos dinheiro para comprar equipamento pesado. Tem de existir concertação de esforços – para dar aos alunos dos doutoramentos oportunidade de escolha e fazer com que as pessoas trabalhem juntas em projectos integrados com maior probabilidade de financiamento. Leva ainda a que a competição interna seja mais sólida – não no sentido de cada um achar que é melhor do que o outro (aí não há problema porque todos os cientistas acham que são melhores do que os outros) mas no bom sentido, que tem a ver com o avançar das fronteiras do conhecimento, para o que é preciso estar convencido de que se vai conseguir.

PROFESSORES SENIORES PARA ALUNOS DO PRIMEIRO ANO

– Gosta de ensinar?

– Muito. Faz parte da minha vida. E, cada vez mais, acho que os professores seniores só devem dar aulas aos alunos do primeiro ano porque são quem faz a diferença. Eu só dou aulas a alunos do primeiro semestre e do primeiro ano de quatro cursos na Universidade do Porto: Medicina, Veterinária, Bioquímica e Bioengenharia. Sentir que eles até gostam de Física no fim do primeiro semestre é uma satisfação muito grande.

‘GOSTO DA NOVA ZELÂNDIA MAS FICA MUITO LONGE’

– Nasceu em Moçambique, estudou na África do Sul, foi para os Estados Unidos, veio para Portugal. De 20 em 20 anos muda de continente?

– Também gosto muito da Nova Zelândia (risos) mas estive a fazer as contas: desde que saio da minha casa, no Porto, até deitar a cabeça na almofada, em Auckland, são 33 horas. É muito longe. 

PERFIL

Alexandre Tiedtke Quintanilha nasceu a 9 de Agosto de 1945, em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique. É filho de um biólogo açoriano e de uma alemã. Licenciou-se e doutorou-se em Física Teórica na África do Sul. Foi investigador nos EUA. Em Portugal desenvolveu o IBMC.

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