Descartes – Génio maligno

Está gravada no meu espírito uma velha crença, segundo a qual existe um Deus que pode tudo e pelo qual fui criado tal como existo. Mas quem me garante que ele não procedeu de modo que não houvesse nem terra, nem céu, nem corpos extensos, nem figura, nem grandeza, nem lugar, e que, no entanto, tudo isto me parecesse existir tal como agora? (…) Porventura Deus não quis que eu me enganasse deste modo, ele que dizem que é sumamente bom (…).
Vou supor por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores não são mais do que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à minha credulidade.
Descartes, Meditações metafísicas, tr. Gustava de Fraga, Almedina, p.110-114.
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5 Comments

  1. Esse argumento de Descartes é muito interessante. Seu poderoso Cogito tem o risco de cair num solipsismo perigoso que faria cair por terra todo o seu empreendimento de encontrar um conhecimento seguro. A partir da certeza indubitavel de que existimos já que sabemos que algo pensa, como sair da questão de que as coisas e o mundo existem apenas em nosso pensamento?

    Ele resolve esse problema em um argumento ontológico. Só um Ser perfeito que pensa o mundo e a nós todos, pode dar sustentabilidade a uma realidade objetiva fora de nós.

    O problema desse raciocínio (para nós, não para Descartes) é que ele não tem sustentação empírica, apenas racional.

    Penso que só a fenomenologia pôde resolver esse impasse, que ficou preso na garganta da modernidade muito tempo rsrsrs.

    Parabéns pela página, abraços

    Tenho um Blog, se quiser dar uma olhadinha, esteja a vontade.

    http://miranda-filosofia.blogspot.com

  2. Pois é! Depois disso, ele chega à conclusão de que a coisa mais confiável é sua própria cognição. O intelecto humano passa a ser o centro do universo e o ser humano abandona sua filiação (literal) ao Ser. A modernidade começava.

  3. É muito interessante, pois este gênio maligno precisa ser desconstruído e tornar-se uma ideia ou uma essência imperfeita, pois, não carece de existência e só então Descartes poderá propor a existência perfeita de deus que por dedução de uma ideia, ele afirma sua existência, pois apenas a existência poderia aperfeiçoar a essência, então deus é a perfeição e assim sendo, garante a certeza que possibilita a dedução de outras duas substâncias deduzidas por sua metafisica especial , ou seja, o eu e o mundo.

  4. É muito interessante, pois este gênio maligno precisa ser desconstruído e tornar-se uma ideia ou uma essência imperfeita, pois, não carece de existência e só então Descartes poderá propor a existência perfeita de deus que por dedução de uma ideia, ele afirma sua existência, pois apenas a existência poderia aperfeiçoar a essência, então deus é a perfeição e assim sendo, garante a certeza que possibilita a dedução de outras duas substâncias deduzidas por sua metafisica especial , ou seja, o eu e o mundo.

  5. Penso que nesta metáfora do “Gênio Maligno”, Descartes faz uma perfeita alusão ao Clero de sua época. Descartes estava escrevendo sob o império do medo, tanto que a obra Meditações foi adiada e substituída pelo Discurso do Método.Era uma época na qual o sangue das pessoas jorrava pelas mãos dos padres inquisidores e os instrumentos de tortura da satânica inquisição era a maior tarefa dos podres poderes eclesiásticos da herdeira do Império Romano, que em nome de Deus, matava, torturava com os requintes do mais autêntico satanismo… Este era o gênio maligno que impediu Descartes de conhecer Deus através da pura racionalidade.

    José Hunaldo de Souza

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