Desidério Murcho, “Limites do Papel da Lógica na Filosofia”

A tarefa da filosofia, tal como a tarefa das ciências, é descobrir proposições verdadeiras. Mas ao contrário do que acontece com as ciências empíricas, a experiência raramente fornece à filosofia um critério para distinguir a verdade da falsidade. Assim, apesar de a lógica parecer fornecer tão pouco, é afinal o único meio seguro que temos para excluir argumentos que, ainda que conduzam à verdade, o fazem de forma tal que não podemos realmente saber se estamos perante a verdade ou perante a ilusão. A lógica não pode decidir se as premissas são ou não verdadeiras; a lógica não pode tão-pouco decidir se a conclusão de um raciocínio é verdadeira ou não; mas a lógica diz-nos se tal conclusão resulta realmente ou não de tais premissas.
É a lógica que permite distinguir claramente os argumentos válidos das falácias.

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O que torna a filosofia sublime é o carácter extraordinário que a faz perguntar pelo que a experiência não pode alcançar, sem desistir de exigir que se distinga a verdade da ilusão. Estas perguntas podem ser incómodas para as pessoas que têm um forte espírito técnico e um fraco espírito interrogativo, ou para as pessoas que querem ter a todo o custo conforto espiritual, sem se preocuparem muito em saber se aquilo que os conforta é ou não realmente verdade. Mas a filosofia é fundamentalmente uma actividade de fazer perguntas incómodas e tentar encontrar respostas razoáveis. Perguntas muito simples sobre as questões mais gerais da realidade. Tão gerais que não podem ter uma resposta empírica.

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As teorias filosóficas típicas não podem ser confirmadas ou infirmadas pela experiência; ultrapassam-na. Só a lógica e a discussão séria podem ajudar-nos a avaliar a verdade das suas teorias, uma vez que queremos excluir do nosso estudo o apelo irracional a experiências místicas. Mas como vimos, um argumento válido nunca é conclusivo em filosofia porque é sempre possível duvidar da verdade das premissas; por outro lado, um argumento inválido pode ainda assim ter uma conclusão verdadeira. Assim, a lógica não pode de forma alguma resolver os problemas da filosofia; não pode pelo menos, seguramente, resolvê-los todos. Mas é um instrumento básico sem o qual a tarefa do filósofo é bastante mais confusa, correndo o risco de se tornar ou num discurso autofágico, ou num veículo de divulgação disfarçada de ideias pouco inteligentes que querem furtar-se à livre discussão.

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