Diálogo entre culturas

Face à diversidade dos sistemas de normas desenvolvidos por diferentes sociedades e diferentes culturas, coloca-se a questão: “Existirá um critério universal que nos diga se um sistema de valores e de normas é moralmente melhor ou pior do que outro?” Por outras palavras, pretendemos, agora, fazer juízos morais sobre os juízos morais. Mas a dificuldade desta questão dum critério universal, por vezes chamado de metaético, é que, ainda que alguns pensadores concordassem sobre um tal critério, é pouco provável que ele fosse facilmente aceite por todas as sociedades existentes e, nomeadamente, por aquelas que seriam consideradas moralmente inferiores, com base nesse critério. Um tal critério teria de ser imposto pela força, como foi tantas vezes o caso no passado. Mas seria, então, autodestrutivo, uma vez que um sistema moral imposto pela força, dificilmente pode ser considerado como moral e, certamente, não reconhecido como tal universalmente. É por essa razão que, quando se confrontam diferentes culturas, com valores e normas diferentes, a única forma de alcançar uma universalidade real não pode ser imposta de cima, mas construída, passo a passo, pela argumentação, a propósito de situações práticas. Em cada caso particular deverá permitir-se tal ou tal prática e em que circunstâncias? Não há qualquer garantia, como é evidente, de que o acordo seja sempre possível. […] Todavia, conhecemos casos de êxito relativo: a Declaração Universal dos Direitos do Homem é disso um exemplo. Este acordo não está despido de ambiguidades e de mal-entendidos, uma vez que diferentes culturas parecem apreciar diferentemente o que se entende por direitos do homem. Mas não deixa de existir um acordo quanto à interdição de determinadas práticas, como a escravatura, a tortura, o abuso de crianças, os genocídios e crimes contra a humanidade, etc., apesar da existência dessas ambiguidades. Com efeito, é mesmo provável que seja graças a essas ambiguidades e mal entendidos que se conseguiu um acordo. Ainda que se verifiquem transgressões a essas interdições, é como tal que elas são julgadas e eventualmente condenadas.

Jean-Pierre Changeux, “Uma Mesma Ética para Todos?”, Instituto Piaget, Lisboa, 1997

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