Ensinando a criança a pensar

A necessidade de formar cidadãos mais conscientes e participativos fez com que o professor e filósofo Silvio Wonsovicz criasse um método de inserção da filosofia no ensino. Jovens e crianças são instigados a questionar a realidade em que vivem.

CAROLINE AGUIAR

Formar um cidadão crítico e reflexivo é a missão de todos os educadores. Com o objetivo de viabilizar o alcance desta meta, o professor Silvio Wonsovicz criou, no final dos anos 80, o Centro de Filosofia e Educação para o Pensar (Cenfep). A instituição promove, além do ensino da filosofia nas escolas, o uso desta disciplina durante todas as aulas e para todas as faixas etárias.

O Cenfep nasceu em Florianópolis, quando o professor Silvio fazia mestrado e presenciou muitos professores de filosofia desconectados da vida escolar. Então, defendeu sua tese justificando que a escola precisava ser mais reflexiva e o professor de filosofia seria a liderança que levaria os alunos e demais mestres a observarem os acontecimentos por ângulos diferentes.

A partir de então, inspirado nas ideias de Lipman, filósofo e educador norte-americano, Silvio começou a desenvolver o Sistema de Ensino Reflexivo (SER), consolidado através de treinamentos para professores e materiais didáticos. O professor usou o arcabouço teórico de Lipman e o adaptou à realidade e ao cotidiano brasileiros.

Os livros são construídos dentro dos conteúdos escolares – história, geografia, ciência e português –, mas de uma forma reflexiva. Também existem assuntos que são tratados de forma interdisciplinar. As escolas só precisam se associar ao Cenfep e passam a receber todo o apoio para que possam adotar o método em sala de aula. O material didático também auxilia na aplicação da metodologia, mas não é essencial.

SER em Brasília
Não demorou muito para que a ideia se espalhasse pelo país. Já são mais de 300 escolas e 80 mil alunos utilizando o método em todo o Brasil. Há seis anos em Brasília, o Núcleo de Filosofia e Educação para o Pensar (Nufep), ramificação do Cenfep, já atendeu em torno de 50 colégios, 25 mil alunos e treinou 1.500 professores.

Lia Anhesim Bargo, professora aposentada e coordenadora do Nufep-DF, explica que o método visa levar as crianças a pensarem por si próprias. “O SER colabora com a emancipação do pensamento para que as crianças cresçam e pensem por si próprias. As escolas dão muito conteúdo e os alunos engolem isso sem refletir, o que dificulta o crescimento individual”, argumenta a professora.

Depois de aplicar o método, Lia garante que a turma acaba formando uma comunidade investigativa e os estudantes têm mais resultado. Os professores se tornam menos expositivos e mais reflexivos, os alunos por sua vez passam a avançar nos temas e a questionar acontecimentos do cotidiano, de uma forma que todos crescem juntos.

O criador do método, Silvio Wonsovicz, lembra que hoje não dá para pensar em um filósofo que não tenha conhecimentos pedagógicos, assim como não dá para pensar em um pedagogo sem conhecimentos filosóficos. “Pensar a escola de hoje, em nosso tempo e realidade, sem uma reflexão filosófica sistemática, é não estar sintonizado e atuando no foco principal da educação. Precisamos que as pessoas aprendam a ser felizes, a viverem intensamente e com razão”, explica o professor.

Para utilizar a filosofia, os professores são orientados a trabalhar os conteúdos que já são dados normalmente, mas de forma reflexiva. Ou seja, eles ensinarão as matérias fazendo questionamentos e ligações com o dia-a-dia das crianças.

Para filosofar basta exercitar o diálogo, o aprender a falar, ouvir, reconsiderar e ampliar suas ideias. Assim, os alunos estarão aptos a analisar a realidade de vários pontos de vista. O Nufep dá cursos de 240, 120 ou 40 horas para que os educadores aprendam a lidar com o método questionador e consigam instigar os alunos para que eles participem e pensem por si sós. “Além de ensinar o método, o curso tem o objetivo de motivar os professores a fim de que eles passem essa motivação para o aluno”, observa Lia.

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