Eutanásia, ortotanásia e distanásia. Qual a diferença?

O caso de Eluana Englaro reacendeu, nos últimos dias, o tema da eutánasia
na imprensa mundial. A italiana, de 38 anos, permaneceu em coma por 17 e
morreu, no último dia 9, após a suspensão pela equipe médica de sua
alimentação e hidratação artificiais.

Em entrevista ao noticias.cancaonova.com, o professor de Bioética da
Faculdade Dehoniana de Taubaté, Padre Mário Marcelo explica o que
significam os termos eutanásia, ortotanásia e distanásia e declara que a
dor, num momento de enfermidade, pode adquirir um sentido maior, quando se
participa do sofrimento de Cristo.

noticias.cancaonova.com – Qual a diferença entre eutanásia, ortotanásia e
distanásia. Qual dessas práticas a Igreja é a favor e porquê?

Pe. Mário Marcelo – São três temas relacionados ao fim da vida. O termo
eutanásia, etimologicamente falando, significa morte sem dor ou morte
suave. Ocorre quando há uma ação direta de uma pessoa para antecipar o
momento da morte, sendo aplicado algum método ou se tirando outro a fim de
antecipar a morte. O termo orto, de ortotanásia, significa “correto”, ou
seja, é a morte certa, aquela que deve acontecer naturalmente. E
distanásia significa o prolongamento do momento da morte. É quando se
utiliza aparelhagens, prolongando a vida do paciente até o momento da
morte. A melhor forma é a ortotanásia, a morte correta e natural.

Quanto à distanásia, não há nenhum problema, objetivamente falando, de se
prolongar o momento da morte. A pessoa pode até ser mantida nos aparelhos
por um período e se você for desligar os aparelhos, desde que não seja uma
ação direta para provocar a morte da pessoa, também não há nenhum problema
ético ou moral nisto. É um prolongamento do momento da morte, ou seja, a
morte é iminente, vai acontecer. E o que acontece? A pessoa é ligada aos
aparelhos, sendo prolongado o momento da morte. Você não está prolongando
a vida, mas o momento da morte. Então, ao se desligar o aparelho, a
eutanásia não está sendo provocada, porque a morte iria acontecer do mesmo
jeito, mas não aconteceu ao se manter a pessoa na aparelhagem.

O problema moral está na eutanásia porque é também chamada de homicídio
assistido, ou seja, há uma ação direta do paciente ou de outra pessoa para
antecipar o momento da morte. A passagem da distanásia para eutanásia, às
vezes, é muito confusa, mas é uma questão da consciência do médico. A
distanásia é quando a morte é iminente, porém você sustenta a pessoa por
aparelhagem. Já no caso da eutanásia, a morte não era iminente e o
paciente pode viver por muitos anos, e uma ação direta é aplicada que
antecipa o momento da morte. Na distanásia, você permite a pessoa morrer
quando se desliga a aparelhagem, ao passo que na eutanásia o momento da
morte é antecipado.

noticias.cancaonova.com – Uma orientação para as famílias cristãs seria a
de procurar médicos, nos quais se possam ter uma maior confiança em sua
consciência?

Pe. Mário Marcelo – Muito depende da consciência do médico. Há um momento
quando ele procura a família e avisa que a morte é iminente, vai
acontecer, e que vão desligar a aparelhagem para não provocar mais
sofrimento. Não há problema, tanto em manter o paciente ligado ao
aparelho, como desligá-lo, porque você não está antecipando o momento da
morte, mas permitindo que ela morra.

noticias.cancaonova.com – Muitas vezes, há o pedido do próprio paciente
para que seja feita a eutanásia. Como orientar as pessoas que cuidam
desses doentes? Como devem agir?

Pe. Mário Marcelo – É um grande desafio. Mas aquelas pessoas que assistem
os enfermos não podem falar que é um pecado, mas ter atitudes de
solidariedade e de apoio naquele momento de dor. Porque muitas pessoas
pedem a morte por estarem se sentindo abandonadas. Ela já está com dor e
sofrimento e ainda se sente abandonada e inútil, então, ela pede a morte.
Assim, é preciso ficar ao lado, mostrar que a pessoa é importante, mesmo
neste momento de dor, nesta condição de sofrimento, e dizer que ela faz
parte da família e é amada. Assim, é necessário estar junto, mostrar
solidariedade, força e comunhão com essas pessoas. É a melhor forma.

noticias.cancaonova.com – A Declaração sobre eutanásia da Sagrada
Congregação para Doutrina da Fé, afirma que a dor, especialmente nos
últimos momentos da vida, assume um significado particular no plano
salvífico de Deus? Como isso acontece, como preparar o doente pra viver
esse momento?

Pe. Mário Marcelo – Temos que ter clara uma coisa: não é uma apologia à
dor e ao sofrimento. A dor e o sofrimento em si mesmos não têm sentido.
Jesus quer que todos tenham vida e a tenham em abundância, ou seja, você
não pode buscar a dor pela dor. O que dá sentido é a motivação e intenção
colocadas nesses momentos. É um sentido de comunhão com a própria dor de
Cristo. “Eu estou sofrendo essa dor, na verdade eu não queria, tenho que
buscar tratamento e ajuda, mas como no momento não há condições, eu vou me
solidarizar com o sofrimento do Cristo”. Então, eu participo da dor e do
sofrimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o verdadeiro sentido.

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