Filmosofia – American Psycho

Quando surgiu, em 2000, o filme American Psycho despertou violentas críticas por parte de organizações de defesa dos direitos das mulheres por ser considerado misógino e depreciativo em relação ao sexo feminino.

Curiosamente, o filme foi realizado por uma mulher, Mary Harron, e baseia-se na obra homónima de Bret Easton Ellis, retratando a vida dupla de um bem sucedido investidor, Patrick Bateman, interpretado eximiamente por um dos mais versáteis actores da sua geração, Christian Bale.

Bateman é um psicopata que se diverte a usar as mulheres como meio para satisfazer o seu ego desmesurado, torturando-as física e emocionalmente, assassinando-as para depois as guardar como troféus.

Uma análise mais aprofundada do filme revela-nos outra realidade para lá da misoginia explícita: mais do que espelhar o profundo desprezo pelas mulheres, bem patente na afirmação de Bateman: “there are no girls with good personalities”, o filme revela a superficialidade de alguns homens, obcecados pela aparência física, pelo grafismo de cartões de visita, pela frequência dos locais mais in de Nova Iorque. Na verdade, o filme é uma crítica acutilante a uma geração de yuppies, à década faustosa e vazia de 80, um pouco como uma feira de vaidades, mas aqui no masculino.

Para além da superficialidade da personagem principal, encontramos uma mente dividida entre o desejo de respeitar as mulheres como seres humanos e o desejo de as usar para satisfação de pulsões violentas. Trata-se da derradeira luta interna numa consciência moral abafada pela satisfação de impulsos de cariz sexual e agressivo, numa procura incessante de satisfação. Esta luta está bem patente quando Bateman se debate com o desejo de magoar a sua secretária, Jean, e acaba por a mandar embora de sua casa, resistindo aos violentos impulsos que o levam a percorrer mentalmente os instrumentos de tortura e corte à disposição. A luta patente leva-nos a questões relativas ao livre-arbítrio: até que ponto o protagonista é livre de contrariar o hedonismo da sua existência e a procura interminável de saciedade?

Não é um filme a visionar em contexto de sala de aula, dada a violência gráfica e explicitamente sexual de algumas cenas.

O filme está disponível na sua totalidade em https://www.youtube.com/watch?v=-TcfVzPgCJk.

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