Humberto Maturana: o conhecimento como fenómeno biológico

O conhecimento tradicionalmente é entendido como uma forma de apreender uma representação de um objecto exterior. Os órgãos dos sentidos tem a função de captar as características dos objectos e transmiti-las ao cérebro. Assim, percepcionar é um verbo que é normalmente entendido desta forma. A própria etimologia da palavra “percepção” ajuda a esclarecer esta perspectiva, pois esta palavra provém do latim percipere que significa precisamente “apoderar-se de”, ou ainda “obter por captura”. Desta forma, conhecer seria imprimir no cérebro uma cópia das características dos objectos do mundo real.
Maturana, em virtude das suas investigações científicas, considera que esta forma de entender o conhecimento é errada. Ele considera que os seres vivos são seres fechados em si mesmos. Isto quer dizer que não recebem informações do exterior como uma caixa de correio recebe uma carta. O ser vivo (por exemplo, o ser humano) tem uma estrutura própria que quando funciona bem o mantém vivo. Este funcionamento é autónomo do meio em que o ser vivo vive.
Mas, o meio não influencia os seres vivos? Sim, mas essa influência é apenas exterior, não determina o organismo a alterar o seu funcionamento. Não é a maçã que nós comemos que determina o processo da digestão. A digestão faz parte do nosso funcionamento interno.
Mas se a maçã estiver estragada, pode despoletar uma reacção interna do nosso corpo que provoque uma indigestão. Mas a indigestão não foi determinada (isto é, não aconteceu devido a imposição exterior) pela maçã estragada. Despoletar é diferente de determinar.
No conhecimento passa-se uma situação semelhante. A ideia de árvore que temos no nosso pensamento não é uma impressão do objecto exterior «árvore». Somos nós que criamos interiormente a ideia de árvore.
Os fotões de luz reflectidos nos objectos do mundo (incluindo a árvore) batem nos nossos olhos e despoletam uma reacção interna no nosso cérebro. Não são esses fotões que determinam a ideia que temos da árvore. Essa ideia depende apenas da nossa forma de pensar.
Mas como pode ser assim se todos vemos a mesma árvore e se a descrevemos de forma igual?
Todos os seres humanos são semelhantes, por isso reagem de formas muito parecidas às mesmas sensações do mundo.
Então, o conhecimento para Maturana é, não só construído pelo sujeito, mas totalmente dependente dele. O conhecimento humano depende das estruturas internas do ser humano, e da forma como reagem a estímulos exteriores.
O conhecimento é um fenómeno biológico. Conhecer é viver, pois só o conhecimento permite que o indivíduo consiga orientar-se no mundo através do mapa que constrói internamente.
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Publicado em Páginas de Filosofia
2 comentários sobre “Humberto Maturana: o conhecimento como fenómeno biológico
  1. Ela diz:

    Parabéns pelo BLOG…

    Se me permite perguntar, você poderia explicar melhor a diferença entre despoletar e determinar ?

    Obrigada !

  2. Rui Areal diz:

    Despoletar significa contribuir para que algo tenha início. Determinar significa condicionar a 100% algo a acontecer. No contexto de Maturana, as ideias que temos do mundo não são determinadas por esse mundo exterior. Esse mundo apenas despoleta em nós reacções internas… que nuns podem ser assim, noutros podem ser assado… por isso Maturana é um autor ligado a algumas correntes pós-modernas (relativistas). Para saber mais um autor importante é Francisco Teixeira. Pode começar por aqui: http://www.triplov.com/identidade_pessoal/Autopoiesis/biologico-humano.htm

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