Identidade perdida

Educadores enfrentam o desafio de criar métodos para o ensino da
sociologia no ensino médio. Falta de histórico pedagógico e programa
curricular mínimo são apontados como principais dificuldades

Juliana Holanda

Amaury Cesar Moraes, da Feusp, alerta:”a sociologia não pode ser ensinada
sem leitura e escrita”

Há seis anos, o professor de sociologia Luiz Fernandes de Oliveira tentava
explicar a seus alunos do ensino médio da Fundação de Apoio à Escola
Técnica do Estado do Rio de Janeiro (Faetec) o que é ideologia. A
conceituação sociológica do termo parecia muito complexa para os
estudantes. Ele teve a idéia, então, de misturar o filme Matrix, então
popular entre os alunos, à explicação do conceito. “Pela primeira vez,
parte dos estudantes entendeu o que era ideologia”, lembra Fernandes, que
escreveu, em parceria com Ricardo Cesar Rocha da Costa, o livro Sociologia
para jovens do século 21.

O esforço de Fernandes para captar o interesse de adolescentes para
conceitos sociológicos deve se tornar mais freqüente nas salas de aula de
todo o país. A aprovação da obrigatoriedade da sociologia no ensino médio
suscita debates em torno de qual conteúdo pedagógico é o mais adequado
para essa etapa de ensino.

A inclusão das disciplinas de sociologia e filosofia no ensino médio
resulta da alteração da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) homologada em
2008, após oposição do Conselho Estadual de São Paulo. Em 2006, o
Ministério da Educação já havia publicado a orientação curricular para as
disciplinas, pois os componentes eram ofertados por muitos estados
brasileiros. A partir de consultas dos sistemas educacionais, o Conselho
Nacional de Educação (CNE) aprovou parecer, que aguarda homologação do
ministro Fernando Haddad para virar resolução, no qual diz que “as escolas
têm autonomia quanto à concepção pedagógica e à formulação de sua
correspondente proposta curricular, desde que garantam sua completude e
coerência (…)”. As secretarias de educação têm se organizado para se
adequar ao cronograma de inclusão das disciplinas, que começa em 2009 e
vai até 2011, mas nem todas estão com suas propostas curriculares prontas.

A falta de um currículo nacional mínimo ainda gera controvérsias entre
educadores e sociólogos. “É lamentável que cada professor lecione o que
quiser. Se não fixarmos um currículo mínimo, duas instituições vão fixar:
as editoras e os grandes vestibulares. Deveria ser o contrário”, defende
Lejeune Xavier de Carvalho, presidente do Sindicato dos Sociólogos do
Estado de São Paulo.

O professor do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação da
Faculdade de Educação da USP Amaury Cesar Moraes, integrante do grupo que
elaborou as orientações curriculares para o MEC, diz que seria difícil
chegar à unanimidade entre os próprios professores. “Se implantássemos um
currículo único, teria gente contra e a favor. Os contra não iriam adotar.
E os a favor poderiam não ter condições de ministrá-lo, já que a própria
formação das ciências sociais é diversificada”, reflete. Quanto à
influência das editoras e dos vestibulares, Amaury acredita que a dinâmica
atual é outra. “Sempre tivemos livros didáticos e eles nunca se pautaram
por conteúdos definidos. Já os vestibulares tiveram como referência, nos
anos 30 e 50, o que o ensino médio queria. Com o passar do tempo, os
vestibulares estão ficando mais autônomos.”

Amaury crê ser natural que o processo de consolidação do ensino da
disciplina seja lento. “Pode demorar para termos um currículo com 70% a
80% de homogeneidade. É preciso tempo para o professor observar o que
seria um currículo geral”, diz.

Criatividade necessária
Além do caráter genérico das orientações curriculares, os professores
também enfrentam outros problemas: a falta de tradição pedagógica da
disciplina, que durante os últimos 80 anos apareceu de forma intermitente
nos currículos; a histórica oposição dos próprios sociólogos entre uma
tendência conceitual linear e outra temática fragmentada; e a falta de
livros didáticos apropriados para a faixa etária. “É preciso criar uma
identidade para o ensino médio para que o aluno perceba a contribuição da
sociologia”, define Marcos Barbosa Gonçalves, professor da Secretaria de
Educação do Distrito Federal.

A formação docente também preocupa. “Mesmo em outras disciplinas, a
universidade não forma para o ensino médio em si. Ninguém sabe o que
acontece na escola. Quando o professor chega, leva um choque. Na
sociologia é mais grave porque não existia a disciplina, era muito
acadêmica”, diz Marcos. O que acontece, na prática, é que cada professor
dá forma própria à dinâmica em sala de aula. “A sociologia está ligada à
perspectiva de mundo que o professor tem. Os que saíram há pouco tempo da
universidade ainda trazem a sociologia acadêmica. Os mais antigos sabem
que não tem espaço para muita teoria”, diz Marcos Barbosa.

Quando começou a dar aulas, Marcos percebeu que a “cultura da xerox”,
vigente na universidade, não dava certo no ensino médio. Os livros
didáticos disponíveis, segundo ele, não tinham linguagem adequada aos
alunos. Ele começou a redigir textos para usar em sala e acabou por
escrever o próprio livro: Fundamentos da Sociologia, que vai para a 3ª
edição. “Estamos criando uma linguagem para o aluno do ensino médio.”

A dificuldade foi a mesma encontrada pelos professores autores Luiz
Fernandes e Ricardo Cesar. A experiência de dez anos na Faetec do Rio
mostrou que a criatividade do professor é preponderante e a construção de
uma interlocução com os alunos, fundamental. Eles desenvolvem diversas
atividades fora de sala de aula, utilizam muita imagem para explicar
conceitos e aproveitam sugestões dos alunos para melhorar o livro
didático, reeditado em 2007. Entre as intervenções dos estudantes, os
principais pedidos foram com relação a mudanças na linguagem, introdução
de exemplos e sugestões de exercícios. Os alunos também contribuíram com
charges e ilustrações. “Não estamos formando sociólogos, o importante é
que os alunos saibam pensar a sociedade”, diz Ricardo.

Na realidade do ensino técnico, em que parece ser ainda mais difícil
incorporar disciplinas das ciências sociais, os docentes aproveitaram o
caráter de interdisciplinaridade da sociologia. Ao propor a discussão do
tema violência em sala de aula, pediram que os alunos estruturassem um
banco de dados com informações do entorno da escola. A capacidade de
desenvolver pesquisa científica, mesmo no ensino médio, é defendida por
Amaury. “É possível fazer pesquisa com qualidade, sem precisar ser uma
pesquisa grande. Os alunos podem apresentar projetos”, diz.

Outro entrave para a adoção de um currículo único é a falta de consenso
sobre qual conteúdo ministrar. A tensão entre a priorização de linhas
teóricas e a mera exposição de exemplos do cotidiano sempre estiveram
presentes no ensino da disciplina. Na opinião de Lejeune Carvalho, o
currículo mínimo deveria ter três principais eixos: as origens da ciência,
os principais pensadores com as questões clássicas, e a sociologia
política, com temas da atualidade. “Se a parte histórica não é dada, fica
só o dia-a-dia, sem uma ligação teórica-histórica”, defende.

Amaury concorda que é necessário unir teoria e prática, mas desconfia da
imposição dos conteúdos. “Não sei se é possível ter um currículo que
atenda aos objetivos da disciplina, que é o de promover a cidadania. Não
há um currículo que atenda a esses objetivos, nem que seja uma unanimidade
do ponto de vista dos professores.”

A distinção da disciplina deverá ser construída com a prática em sala de
aula, exigindo do professor inventividade para trabalhar os conteúdos, em
oposição às aulas meramente expositivas de outras disciplinas. “O trabalho
do professor nunca deveria ser fácil. A má formação e a impossibilidade de
elaborar o próprio material didático fizeram com que o professor virasse
um mero carregador de manual, ou seja, com um trabalho mecânico e pouco
inventivo,” diz Amaury.

As relações e efeitos do capitalismo e da globalização sobre o mundo do
trabalho estão entre os temas sugeridos para reflexão na aulas de socilogia

Eixos pedagógicos
No vídeo Sociologia no ensino médio, que tem roteiro de Amaury Soares e
Nelson Dácio Tomazi, da Universidade Federal do Paraná, os educadores
também defendem o ensino a partir de três eixos temáticos: teorias,
conceitos e temas, trabalhados de forma transversal. As teorias são
essenciais por levar em conta a tradição sociológica, e podem ser vistas
por meio de um conjunto de autores ou por autores em separado; os
conceitos podem ser apresentados a partir de diversas teorias, mas
precisam ser abordados em conexão com a realidade, que é facilitada pela
utilização de temas, que conduzam os debates em sala. “O trabalho do
professor não é só voltar-se para temas imediatos, mas para os temas
universais. O entendimento de que problemas contemporâneos são estruturais
contribuem para que os alunos desenvolvam possíveis soluções pessoais e
coletivas”, defende Amaury.

O formato deve ir além da aula expositiva e incluir seminários, debates,
redação de relatórios e o uso de imagens, já que os alunos nessa idade
estão muito influenciados por informações imagéticas. Para isso, são
propostas questões em sala de aula, que podem utilizar jornais, filmes e
programas de televisão para provocar afirmações que partem do senso comum
e a partir de então explicar os conceitos da disciplina. Entre os temas
mais utilizados pelos professores estão violência, capitalismo e
globalização. “A religiosidade é um tema que interessa a todos os jovens
hoje e está presente em todo o país. Eles têm dificuldade de tratá-lo, mas
é um assunto bem fundamentado na sociedade”, diz Luiz Fernandes, da Faetec.

O professor pode elaborar um roteiro para ampliar a capacidade de leitura
dos alunos e sempre pedir que as conclusões sejam redigidas. “A sociologia
não pode ser ensinada sem leitura e escrita. O aluno tem de saber
conceituar, passar do senso comum e do discurso jornalístico da televisão,
que é muito imediatista”, diz Amaury.

Sair do senso comum e ser capaz de formular conceitos com fundamento
científico é um dos principais objetivos e contribuições que a sociologia
pode oferecer aos alunos. Para Amaury e Tomazi, dois princípios que podem
nortear o trabalho do professor em busca desse objetivo são o princípio do
estranhamento, quando o aluno deve chegar à afirmação “eu nunca tinha
pensado nisso”, e o princípio da desnaturalização, que deve revelar: “o
que você está vendo não é”.

“A sociologia tem três papéis fundamentais no ensino médio: desenvolver as
competências cognitivas, por relacionar lógica aos temas do cotidiano;
promover a reflexão sobre a realidade social, o que pode reforçar a
relação do estudante com o seu meio; e desenvolver conteúdos científicos
próprios, que auxiliam na articulação com questões contemporâneas”, define
Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Por essas características,
também pode contribuir para melhorar o desempenho dos alunos em outras
disciplinas, com a melhora da interpretação de texto e a capacidade de
escrita e argumentação.

O trabalho dos professores em sala de aula e os efeitos da disciplina
podem demorar algum tempo para ser percebidos. Até lá, está sob
responsabilidade dos educadores construir esse caminho. “Em 20 anos a lei
estará consolidada. Vão surgir diversas experiências, livros, propostas.
Apesar de tudo, existem conceitos iguais a serem trabalhados. O problema
está do nosso lado, nós que teremos de construir nossa identidade na
sociologia”, diz Marcos Barbosa.

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12646

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