Introdução

Introdução

 

Professor desde 1994/1995, ano em que teve início esta aventura que é o ensino de filosofia, cedo se instalou a dúvida: como se ensina filosofia? Por essa altura, as referências maiores da didática da filosofia eram Izuzquiza (1982), Santiuste (1984), Cossutta (1989) e mais alguns (poucos) autores. Era um tempo em que a Internet não estava ainda vulgarizada, o número de documentos produzidos e publicados online era ainda muito diminuto e as bibliotecas públicas estavam, tal como hoje, mal apetrechadas no que às didáticas específicas dizia respeito.

Ao longo deste percurso são já algumas as escolas onde lecionámos: Escolas Secundárias Rodrigues de Freitas, Paredes, Gonçalves Zarco (Matosinhos), Maia, Trofa, Rocha Peixoto (Póvoa de Varzim), António Nobre e Garcia de Orta (Porto), sem esquecer algumas experiências em escolas profissionais privadas. Precisamente, os docentes do Grupo 410 encontram-se hoje distribuídos por outras disciplinas, sobretudo oriundas dos cursos profissionais, como Área de Integração, Área de Estudo da Comunidade, Comunicação e Relações Interpessoais, Psicologia, etc., disciplinas essas que são relevantes do ponto de vista do horário laboral dos professores mas que, quantas vezes, nos desviam do fito inicial: ensinar Filosofia, a maior paixão. Restam ainda as inúmeras experiências como diretor de Turma, delegado de Grupo disciplinar, membro da Assembleia Constituinte, coordenador do Centro de Recursos Educativos / Biblioteca Escolar, coordenador do Clube de Rádio, coordenador do auditório (com projeto em educação pelo cinema), coordenador disciplinar do Projeto CRIE, orientador de PAP (Prova de Aptidão Profissional) e/ou de FCT (Formação em Contexto de Trabalho), corretor e revisor de exames nacionais, dinamizador ou participante em inúmeras conferências, palestras, ações de formação, e, por fim, Professor Cooperante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (vulgo “orientador de estágio”), etc. Afinal, nada mais senão o reflexo das atividades normais de um professor ao longo de mais de duas dezenas de anos. O que se aprende perante tal diversidade de escolas, funções e experiências? Ainda resta tempo para ensinar (e estudar) Filosofia?

Ao longo deste tempo, as escolas rechearam-se de quadros interativos, computadores, plataformas de gestão de aprendizagens; foram invadidas por turbas de estudantes, hoje alunos, apetrechados de tamagotchis primeiro, smartphones depois, smartwatches agora. Os projetores de slides e acetatos repousam algures, esquecidos no fundo de alguma arrecadação empoeirada, as cassetes vídeo VHS tornaram-se obsoletas e o CD segue-lhes o caminho. O ensino desmaterializou-se, tornou-se digital. Mais de vinte anos depois, o que é ensinar filosofia, hoje?

Num mundo crescentemente digital, em que todos podemos estar instantaneamente conectados com alguém situado no outro lado do globo, a comunicação acelerou. O professor que hoje enuncia algo numa sala de aulas tem perante si dezenas de alunos que imediatamente podem verificar nos smartphones se a informação está correta. A relação de poder professor/aluno que outorgava a um deles a posse do conhecimento foi reinventada pela possibilidade de distribuição e partilha desse mesmo conhecimento – ou será apenas da informação?

Não crendo em revoluções tecnológicas que alterem radicalmente os paradigmas de ensino e de aprendizagem, é necessário reconhecer, contudo, que também a sociedade mudou, que o modo de perspetivar o mundo por parte dos adolescentes é necessariamente outro, e que aquilo que o mercado de trabalho e, sobretudo, a vida cívica exige hoje dos cidadãos é substancialmente diferente do que ocorria há uns escassos vinte anos. Então, como se ensina filosofia nestes novos tempos?

É desta necessidade de re-estudar, de re-elaborar, de re-aprender a lecionar filosofia que surge a motivação para este relatório. Imediatamente após a conclusão de um mestrado em Pedagogia do E-learning, em 2016, surgiu a necessidade de dar outro sentido à didática da filosofia no ensino secundário, agora travestida de novas ferramentas de comunicação, produção, partilha, publicação, em suma, uma didática da filosofia que incorpore os meios tecnológicos disponíveis.

Mais do que um olhar sobre o passado, este relatório pretende apontar algumas pistas para o futuro, já presente. Mas determinar a importância, exequibilidade ou pertinência das tecnologias no ensino de filosofia implica repensar a pertinência das condições da sua ensinabilidade, as conceções filosóficas em que nos situamos, as competências que visamos desenvolver nos alunos e, claro, problematizar o lugar do digital na educação e na aprendizagem, sobretudo no que à filosofia diz respeito. Por isso, este relatório divide-se essencialmente em quatro capítulos.

O primeiro capítulo discute a ensinabilidade da filosofia. Parte da asserção “ensinar filosofia é um problema filosófico” e apresenta algumas perspetivas teóricas acerca deste problema. Situa a didática da filosofia face a três modelos pedagógicos fundamentais (Behaviorismo, Construtivismo, Conetivismo), com maior relevo para o Conetivismo por ser esse que oferece mais respostas para o contexto online da educação.

A partir da provocação de Lyotard, segundo a qual a Filosofia não poderia ser ensinada, procura-se demonstrar que tal é falso, pelo menos no sentido em que a sua escolarização, a sua institucionalização, é factual. Aceitando esse facto óbvio, procede-se à análise da situação atual do ensino de Filosofia, recorrendo aos relatórios periódicos da UNESCO sobre os ensinos básico, secundário e superior, e a situação específica do ensino institucional de Filosofia em Portugal, no Brasil e em França. Traça-se uma breve resenha histórica do que tem sido o ensino público de Filosofia em Portugal, com relevo para alguns programas, manuais e polémicas particularmente marcantes, nomeadamente a importância da Lógica enquanto instrumento operatório. No Brasil, onde o ensino de Filosofia é relativamente recente, vários autores (Gallo, Kohan, Chauí) vão desenvolvendo linhas coerentes, ainda que distintas, sobre as competências essenciais a desenvolver na disciplina. Por fim, uma pequena análise da situação escolar da Filosofia em França, onde as polémicas nascidas nos anos 1970 parecem não ter encontrado ainda uma solução apaziguadora.

Nem sempre pacífica, a relação entre Filosofia, Pedagogia e Didática surge como uma inevitabilidade: conterá a Filosofia em si a sua própria didática? A Filosofia é, ou reduz-se, a uma forma de Pedagogia? Qualquer Pedagogia é intrinsecamente filosófica? Em que consistirá uma Didática da Filosofia? E será absolutamente necessária? Para esclarecer estes problemas, apresenta-se uma retrospetiva histórica assente em Comenius, Rousseau, Russell e Agostinho da Silva, para chegar, com Girotti e Boavida, a uma conceção minimalista de Didática da Filosofia que a estrutura em torno de problemas, promovendo mais um “ensinar a filosofar” do que um “ensino de filosofia”, aceitando provisoriamente essa dicotomia como factual.

 

O segundo capítulo conduz-nos a outra inevitabilidade: a discussão em torno das metafilosofias (filosofia continental e filosofia analítica, ou talvez mais propriamente, em torno da primazia dada à interpretação e à História ou, em alternativa, à argumentação e à Lógica) que orientam programas, manuais, estratégias didáticas e conceções pessoais dos professores de Filosofia. Trata-se de responder à questão “o que se ensina?”, isto é, qual é a filosofia que é ensinada ou que deve ser ensinada. Procede-se a uma síntese histórica cujo objetivo é, precisamente, conduzir-nos até ao reconhecimento dessa tensão entre as conceções metafilosóficas que estruturam todo o trabalho didático. São abordadas as perspetivas de vários filósofos sobre o que é a Filosofia, sem qualquer intenção de os entrincheirar em posições irredutíveis, exatamente porque isso seria demasiado redutor. Faz-se então um percurso por Sócrates e Platão, Aristóteles, Agostinho de Hipona, Boaventura, Descartes, Espinosa, Wolff, Kant, Hegel, Heidegger, Deleuze e Searle. A aproximação destes autores a perspetivas ora mais argumentativas, ora mais interpretativas da Filosofia, é intencional e meramente operatória, de forma a consubstanciar a pertinência das duas metafilosofias referidas. Explica-se então em que consistem essas metafilosofias e explora-se uma primeira tentativa de superação, não sem antes evidenciar a sua relevância prática, didática, para a ensinabilidade da Filosofia. Por isso, demonstra-se como os programas e os manuais privilegiam uma determinada metafilosofia, facto que condiciona, a priori, o trabalho dos professores. Não se trata aqui de encontrar vencidos nem vencedores desta guerra de filósofos: trata-se de reconhecer, de evidenciar e tornar consciente a necessidade de cada professor se situar, ele próprio, numa metafilosofia, de a subentender nas finalidades, nos objetivos e nos conteúdos programáticos para que a sua praxis didática se encontre solidamente ancorada, do ponto de vista teórico, num determinado modo de fazer Filosofia. O surgimento, nas últimas décadas, da Filosofia com Crianças e Jovens permite-nos fazer uma abordagem simultaneamente filosófica e pedagógica que não reduz a Filosofia nem a um logicismo estéril nem a um historicismo diletante, reintroduzindo conceitos fundamentais como o pensamento crítico, a criatividade, a investigação e a colaboração.

Daí decorre a revisitação das competências filosóficas fundamentais, descritas e teorizadas de formas diferentes por diferentes autores: problematização, conceptualização, argumentação, mas também competências linguísticas e atitudinais. Neste capítulo encontraremos referência a alguns trabalhos extraordinários desenvolvidos nas últimas duas décadas por Michel Tozzi, Joaquim Neves Vicente, António Paulo Costa, Aires Almeida e John Rudisill. Independentemente de concordarmos mais com uns ou com outros, de sentirmos uma maior identificação cognitiva com esta ou aquela teorização, estes autores são, assim o entendemos, fulcrais no entendimento do que deve ser o ensino de Filosofia na atualidade.

O terceiro capítulo constitui a transição, e justificação, para as condições de ensinabilidade de Filosofia no ensino secundário com recurso às “novas” tecnologias. Trata-se de questionar a distinção informação / conhecimento num mundo em rede, no qual os indivíduos estão conectados através de sistemas de informação e comunicação sem paralelo na história da humanidade. Discute-se a incorporação das novas tecnologias no ensino e a sua utilidade para a filosofia, mostrando a tendência de hibridação do ensino, que consiste no esbatimento das fronteiras entre o ensino presencial e o ensino online. A este propósito, discute-se ainda o papel da filosofia nesta Sociedade em Rede, papel esse que não será muito diferente do ideal da paideia grega, de vocação humanista.

Por fim, o último capítulo tem um caráter mais prático, com o resgate das estratégias de trabalho colaborativo e comunidades de investigação, na senda de Stephen Downes e Matthew Lipman. São exploradas algumas ferramentas disponíveis, tais como os Quadros Interativos Multimédia (QIM), as plataformas de gestão de aprendizagens, como Moodle e Blackboard, e as infinitas possibilidades hoje oferecidas pelos serviços Google (Google Classroom, Blogger, etc.) e WordPress. Apresentam-se alguns serviços de criação, edição e publicação de registos em áudio e vídeo, para produção de podcasts e vídeos. São ainda apresentados recursos e ferramentas para estratégias didáticas motivadoras, com recurso ao mundo digital: pósteres, mapas de conceitos, mapas de argumentos, redes sociais, mobile-learning. Faz-se um breve inventário de algumas das aplicações para telemóveis e tablets, como o Dicionário de Filosofia de Oxford, a revista Philo Magazine, jogos e outras aplicações didáticas. Salientamos que essa tarefa não tem, naturalmente, a pretensão de ser exaustiva dada a incrível quantidade de aplicações que diariamente ficam disponíveis para os diversos sistemas operativos dos dispositivos móveis. O interesse destas ferramentas para a Filosofia e o seu ensino é detalhado em conformidade com cada situação específica.

O capítulo termina com algumas iniciativas online na área do ensino de Filosofia. Desde os primórdios, ainda nos anos 1990, até à atualidade, muita coisa mudou e os rudimentares blogues evoluíram para as redes sociais, fazendo uso de várias plataformas de distribuição de conteúdos. Destacamos, inevitavelmente, o “Páginas de Filosofia”, um projeto em coautoria do qual faz parte o autor destas linhas, e apontam-se perspetivas de evolução para comunidades online.

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