Legitimidade Perdida

Desgastada pelo uso severo consagrado no passado, a idéia de autoridade
esfacelou-se no âmbito escolar. Para reconstruí-la, é preciso ao mesmo
tempo respeitar o aluno e não abrir mão do ato de educar e da condição de
adulto

Sérgio Rizzo

Conhecida pela tradição liberal, fundada nos ideais da Revolução de 1789,
a França viveu em 1933 um episódio mais característico de ditaduras e de
seus mecanismos de censura à liberdade de expressão. Em 7 de abril, foi
exibido pela primeira vez em Paris o filme Zero em comportamento, escrito
e dirigido por Jean Vigo (1905-1934), e lançado recentemente em DVD no
Brasil. Se o sentido escolar do título por acaso passasse despercebido, o
subtítulo se encarregava de deixar tudo bem explicado: “jovens diabos no
colégio”.

Em pouco mais de 40 minutos, conta-se a história de uma pequena rebelião
arquitetada e executada pelos alunos de um colégio interno, que se
consideram em uma “prisão”, sob o controle autoritário da direção e dos
professores. “A escola de Zero em comportamento, tirada das recordações de
infância de Vigo, é também a sociedade tal como ele a vê adulto”, observa
o professor e crítico brasileiro Paulo Emilio Salles Gomes no livro Jean
Vigo. “A divisão entre crianças e adultos no interior dessa escola
corresponde à divisão em classes da sociedade: uma minoria forte que impõe
sua vontade à maioria fraca.”

O público francês da época reagiu mal a essa leitura. O cineasta
brasileiro Alberto Cavalcanti, que vivia em Paris, escreveu no ano
seguinte, em artigo citado por Salles Gomes, que “os espectadores se
sentiram feridos em seus sentimentos burgueses pelo comportamento dos
meninos, tal como o mostrava Vigo”. Durante a primeira projeção, “foi
preciso acender a luz várias vezes e a sessão quase terminou em tumulto”.
Parte das críticas feitas a Zero em comportamento se concentrava no que
pareceu “falta de qualidade”, mas a objeção aos seus valores também foi
verbalizada.

“Irado, violento, destruidor, rancoroso, (o filme) parece insuflado por
uma grande amargura que o autor guardou de um passado miserável num
internato”, escreveu o crítico Pierre Ogouz, também citado por Salles
Gomes. “Infectado de grosserias, nocivo e áspero, estigmatiza os pedagogos
viciosos e limitados, e canta com desespero um hino à liberdade.” Não
tardou para que o discurso se agravasse. “É duvidoso que a censura deixe
circular esta fita que não serve absolutamente para crianças e não
divertirá os adultos”, provocou o periódico católico Omnium Cinematographe.

A “pressão dos padres” não foi determinante, mas teria contribuído para a
interdição, decidida pela Comissão dos Censores, cujo presidente fez
referência na ocasião a “filmes que possam criar problemas e prejudicar a
manutenção da ordem”, sem mencionar a obra de Vigo. “O governo pensava
então que as projeções públicas desse filme poderiam criar problemas e
prejudicar a manutenção da ordem”, afirma Salles Gomes. Embora tenha sido
exibido em seguida na Bélgica, uma vez que a censura francesa não pôde
impedir a sua exportação, Zero em comportamento só voltaria a circular na
França em 1945 e seria homenageado por François Truffaut em Os
incompreendidos (1959), clássico inaugural da nouvelle vague (nova onda),
um dos principais movimentos da história do cinema.

Mais de 75 anos depois, a insurreição imaginada por Vigo parece doce e até
mesmo ingênua, embebida de muito humor e poesia. Foi capaz, no entanto, de
incomodar a elite francesa porque ousava discutir um dogma: a autoridade
escolar representada por professores e gestores. Os primeiros até poderiam
ser, eventualmente, “viciosos e limitados”; em resposta a isso, os alunos
poderiam sonhar com um “hino à liberdade” – como Ogouz bem resumiu a
situação. Mas a sociedade se mobilizou para calar essa denúncia, ainda que
pertencente ao campo da ficção. É provável que ocorresse o mesmo, nos EUA
ou no Brasil, se algum cineasta ousasse naquele momento fazer algo
semelhante. Não se questionava a autoridade da escola porque ela
simbolizava o equilíbrio social.

A famosa cena da guerra dos travesseiros no filme Zero em comportamento,
de Jean Vigo: símbolo poético da rebelião dos alunos ante uma autoridade
que se exprimia por meio da opressão

Hoje, não é mais preciso que um filme trate do assunto; o noticiário traz,
com incômoda freqüência, casos verídicos em que estudantes se insurgem
contra a ordem vigente – e o fazem não com poesia e ludismo, mas com ódio
e violência. Na França e no Brasil. Um dos mais recentes episódios
registrados entre nós, em meados de novembro, envolveu a depredação da
Escola Estadual Amadeu Amaral, no Belenzinho, bairro da zona leste de São
Paulo. Uma briga entre duas alunas – acrescida do fato de os alunos serem
mantidos na escola em período integral sem oferta de atividades – teria
levado dezenas de estudantes a destruir carteiras e quebrar janelas, além
de provocar outros danos às instalações. Incapazes de conter a revolta, os
professores se isolaram em uma das salas e acionaram a Polícia Militar –
que informou ter sido chamada anteriormente para intervir em incidentes
semelhantes na mesma escola.

A ocorrência policial foi assunto da imprensa por alguns dias, mas
rapidamente desapareceu do noticiário. Não gerou debate, exceto entre
profissionais de educação. Não despertou indignação generalizada, como se
a sociedade já estivesse acostumada a manifestações como essa e não
enxergasse o que se revela de simbólico quando adolescentes, por meio de
seus atos, querem dizer enfaticamente: não reconhecemos a autoridade de
vocês, não gostamos deste lugar, não vemos por que ficar presos aqui,
esperamos ansiosamente pelo momento de ir embora para viver a vida. Nesses
casos, a outrora fraca maioria se insurge e precisa ser controlada à
força; a minoria antes forte, agora admitindo fraqueza, pede socorro para
impor a autoridade que, em tese, seria conferida a ela naturalmente.

A indisciplina, em especial quando recorre à violência física, é apenas a
manifestação mais ostensiva do esvaziamento da autoridade educacional, a
ser exercida tanto por professores quanto pela família. “A escola tem um
ritual que lhe é?constitutivo. Quando ele é quebrado, é preciso ‘ler’ a
ocorrência”, analisa Carlota Reis Boto, professora da Faculdade de
Educação da Universidade de São Paulo (Feusp).

“Alunos que depredam a escola estão dando um recado para a própria escola,
mas?também um recado para a sociedade. Eles sinalizam que a
instituição?não faz sentido para suas vidas, mas podem também
sinalizar?que não encontram saídas para uma sociedade fraturada entre
aqueles que possuem muito e aqueles que não possuem quase nada, em termos
de?riqueza e de oportunidades.”

Nas escolas onde há um ambiente de violência, “a sensação é de que ninguém
ocupa seu lugar: os professores não ensinam, os alunos não estudam, os
coordenadores não coordenam, os diretores não dirigem”, diagnostica Flávia
Schilling, também professora da Feusp. “Não há ninguém que consiga ocupar
um lugar e o espaço escolar é tomado pelas brigas, pelos grupos, pela
depredação e pelo uso privado do espaço. Os discursos sobre os alunos, por
parte dos professores, são recorrentes e podem ser assim resumidos:
‘nossos alunos são horríveis’.”

O que se revela, na avaliação de Flávia, “é que há um desconhecimento em
relação a quem são realmente esses alunos”, que nunca foram “olhados como
pessoas potentes, que podem ajudam a reverter o quadro existente”. “O
estabelecimento de acordos sobre como será a convivência é fundamental,
assim como o trabalho com alguns projetos, um cotidiano rico de
informações e conhecimentos, e a participação nas decisões”, sugere.

O que constrói e o que destrói
Em O resgate da autoridade em educação, o educador francês Gérard Guillot
é categórico em afirmar que vivemos hoje uma crise. Professor de filosofia
na Universidade de Lyon, ele investiga o percurso que levou a autoridade
educativa a entrar “em pane”, sobretudo nas últimas décadas, a partir da
definição dos sentidos do termo, distinguindo a autoridade que “destrói”
da que “constrói”.

A primeira, segundo Guillot, se fundamenta em “injunções destrutivas” –
mensagens dirigidas às crianças que sabotam a construção de sua autonomia.
Quando um menino chora depois de cair e alguém lhe diz que “não foi nada”,
ou resiste a comer algo e ouve o encorajador “experimente, você vai ver
como é gostoso”, o recado segue a linha do “não sinta, não pense e não
exista por si mesmo”.

“A autoridade que destrói toma o outro como refém”, observa Guillot. “O
paradoxo perverso em ação é o seguinte: entregue-se, seu cativeiro é a
condição de sua liberdade futura. Confisco sua pessoa atual para
restituí-la ‘pronta’ em alguns anos: você me agradecerá! (…) De fato, a
tentação primeira dos pais ou dos professores reside na vontade,
consciente ou não, de transformar a criança ou o aluno em objeto de
desejo: seja pela reprodução da autoridade que eles próprios sofreram,
seja por vontade de fazer melhor.”

No sentido contrário, a autoridade que “constrói” permite à criança ou ao
jovem sentir, pensar e existir por si mesmo, mas não se confunde com
permissividade. “Não se trata absolutamente de deixar a criança se ‘virar’
com sua personalidade em construção e decidir sozinha o que lhe convém ou
não”, explica Guillot. “A autorização de sentir por si mesmo não é
abandonar a criança a suas sensações e emoções. É reconhecer que seu corpo
lhe pertence. Seus prazeres e suas dores a afetam de acordo com sua
própria sensibilidade.”

O adulto não vai, de acordo com essa atitude construtiva, “se contentar em
constatar e caucionar tudo”, pois tem “uma responsabilidade e um dever de
acompanhamento da criança quanto ao que ela pode fazer de e com seu
corpo”. Esse modelo de exercício da autoridade educacional envolveria
também a distinção entre respeito e tolerância. “Respeitar a pessoa é
respeitar a condição humana”, observa Guillot. Por decorrência,
compreender que “a universalidade da condição humana não significa
uniformidade: os seres humanos são, felizmente, diferentes uns dos outros,
cada um com sua singularidade.”

Já a noção de tolerância é mais “social e política”. “Acredita-se
freqüentemente que seja sinônimo de respeito, mas essa confusão pode se
revelar grave”, destaca Guillot. “Uma pessoa se respeita. Já a tolerância
refere-se às condutas e às práticas, às ações, aos comportamentos. Tanto
quanto o respeito é incondicional, a tolerância conhece necessariamente
limites: não podemos nem devemos tolerar tudo. Não se deve tolerar o
intolerável, que, no caso da França, se define principalmente em relação à
lei republicana e democrática. Ora, essa lei integra a necessidade do
respeito e o dever de tolerância, mas desde que não se transgrida a lei
nem os valores fundadores da Declaração Universal dos Direitos Humanos.”

A crise atual se explicaria em parte, segundo essa cadeia de raciocínio,
pela reação de pais e educadores à autoridade que “destrói”. Sua busca por
uma educação mais libertária, no entanto, se expressaria equivocadamente
em uma renúncia ao exercício da autoridade, e não ao exercício da
autoridade que “constrói”, com sua ênfase nos valores do respeito e da
tolerância. “Saber dizer não a uma pessoa é respeitá-la, desde que se
saiba dizer não ao que ela faz, sem dizer não ao que ela é: recusar uma
conduta sem rejeitar a pessoa”, resume Guillot.

“Certamente há um impacto nas escolas dos deslocamentos da autoridade na
contemporaneidade”, observa Flávia. “Se há muito tempo se discute a ‘crise
da autoridade tradicional’, hoje também a forma moderna da autoridade, a
‘autoridade racional-legal’, encontra-se questionada. A essa situação
geral soma-se a dificuldade que temos, no Brasil, de compreender o que
é?autoridade, pois o que nos domina é a figura?do ‘chefe-despótico’, como
a figura típica brasileira que encarnaria a autoridade.”

Oscilamos assim, de acordo com a análise de Flávia, entre “uma
permissividade que inclui o abandono do nosso lugar de adultos e uma
severidade extremada, autoritária e despótica”. “Ou ‘passamos a mão na
cabeça’ ou matamos, prendemos, surramos? Não haverá alternativas? Daí ser
de fundamental importância a discussão da autoridade do professor (da
autoridade da pedagogia) e do lugar da educação na atualidade.”
A força do sentido

“O professor perdeu a autoridade que tinha”, avalia Yves de La Taille,
docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Nascido
na França, vive desde a infância no Brasil, onde se formou em psicologia e
se especializou em desenvolvimento moral. Autor de Moral e ética –
Dimensões intelectuais e afetivas e Vergonha – A ferida moral, é também
co-autor de diversas coletâneas, entre elas Indisciplina na escola –
Alternativas teóricas e práticas, organizada por Julio Groppa Aquino.

Seu artigo nesse volume, “A indisciplina e o sentimento de vergonha”,
começa com uma pergunta que intriga diversos autores desde o início do
século 20: por que as crianças obedecem? As diferentes respostas obtidas
“levavam em conta o que era considerado um fato: as crianças obedecem a
seus pais e, em geral, também a seus professores”. Hoje, “parece-me que a
pergunta formulada espontaneamente seria a inversa: por que as crianças
não obedecem, nem a seus pais, muito menos a seus professores?”.

“Não sei se, antigamente, elas obedeciam tanto assim e se são tão
desobedientes hoje”, pondera. “Porém, parece ser esta a queixa atual,
traduzida notadamente pelo vocábulo ‘limite’: as crianças, hoje, não
teriam limites, os pais não os imporiam, a escola não os ensinaria, a
sociedade não os exigiria, a televisão os sabotaria etc.” Sua tese central
nesse artigo é de que a indisciplina em sala de aula é, entre outros
fatores, “decorrência do enfraquecimento do vínculo entre moralidade e
sentimento de vergonha”.

De La Taille cita o ensaio A tentação da inocência, do francês Pascal
Bruckner, para quem “nossa época cessou de reverenciar o estudo e a
instrução” e não existe “quase mais nada da vergonha que assolava, há
pouco tempo, o mau aluno, o ignorante. Pelo contrário, ei-los que reinam
na mídia, novos reis preguiçosos, que, longe de se enrubescerem de não
saber nada, se orgulham disto. (…) Não satisfeitos em ridicularizar a
escola e a universidade, pretendem suplantá-las e provar que o sucesso e o
dinheiro não passam mais por esses templos do conhecimento”.

Quais as origens da crise de autoridade na educação?
Há uma crise de autoridade na sociedade como um todo. Atinge as
autoridades religiosas, os chamados sacerdotes, e os políticos – que, não
por acaso, são chamados de “autoridades”. A autoridade dos professores
vinha do fato de serem portadores do conhecimento enquanto preciosidade em
si. Seu papel foi desvalorizado pelo acesso à informação, que se tornou
muito amplo, e pela busca das pessoas por uma espécie de informação que
seja útil no momento seguinte.

Essa crise é incontornável?
Para que haja uma reviravolta, a escola precisaria participar ativamente
do processo de reconstrução da autoridade e valorizar o conhecimento.
Sugiro aos jovens professores, em especial, que não se esqueçam de que o
conhecimento surge do sentido; e o que faz sentido é a pergunta que gerou
o conhecimento, ou determinada resposta a uma inquietação. Qual era a
inquietação de quem formulou uma idéia, uma teoria? Se não for assim, o
professor passa aos alunos um pacote de teorias deslocadas de sua razão de
ser. Se o educador for capaz de transmitir essa inquietação, a inquietação
que leva ao conhecimento, haverá alguma chance de reaver sua autoridade.
(SR)

Para saber mais

A autoridade do professor, de Maria José Maya, Texto Brasil (Portugal),
2001.

Autoridade do professor, de Lúcia Teixeira Furlani, Editora Cortez, 1998.

Como enfrentar a indisciplina na escola, de Silvia Parrat-Dayan, Editora
Contexto, 2008.

Conhecimento e valor, de Nilson José Machado, Moderna Editora, 2004.

Educação e autoridade, de Nilson José Machado, Vozes, 2008.

História de indisciplina escolar, Cintia Copit Freller, Casa do Psicólogo,
2001.

Indisciplina, disciplina – Ética, moral e ação do professor, de Yves de La
Taille, Nelson Pedro-Silva e José Sterza-Justo, Mediação Editora, 2006.

Indisciplina em contexto escolar, de José Caeiro (Instituto Piaget,
Portugal), 2005.

Indisciplina na escola – Alternativas teóricas e práticas, org. Julio
Groppa Aquino, Editora Summus, 1996.

O resgate da autoridade em educação, de Gerard Guillot, Artmed, 2008.

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12596

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