Leibniz – Livre-arbírio, determinismo, necessidade e contingência

Como a noção individual de cada pessoa encerra duma vez para sempre quanto lhe acontecerá. Nela se vêem as provas a priori da verdade de cada acontecimento ou a razão de ter ocorrido um de preferência a outro. Esta verdades, porém, embora certas, não perdem, entretanto, a sua contingência, pois fundamentam-se no livre-arbítrio de Deus ou das criaturas, cuja eleição tem sempre suas razões, inclinando sem necessitar.
(…)
Dissemos que a noção duma substância individual encerra, duma vez para sempre, tudo quanto lhe pode acontecer, e considerando esta noção nela se pode ver tudo o que é verdadeiramente possível enunciar dela, como na natureza do círculo podemos ver todas as propriedades possíveis de tirar dela.
Parece, porém, devido a este facto, destruir-se a diferença entre verdades contingentes e necessárias, não haver lugar para a liberdade humana, e reinar sobre todas as nossas acções, bem como sobre todos os restantes acontecimentos do mundo, uma fatalidade absoluta. Contestarei isto, pela afirmação da necessidade de distinguir o certo do necessário.(…)
Para resolvê-la solidamente, explico haver duas espécies de conexão ou consecução; absolutamente necessária, só aquela cuja oposta implique contradição (esta dedução dá-se nas verdades eternas, como as da geometria); a outra é só necessário ex hypothesi, ou, por assim dizer, por acidente, mas é contingente em si mesma, quando a contrária não implique contradição.
E esta conexão fundamenta-se, não só sobre as ideias absolutamente puras e sobre o simples entendimento de Deus, mas também sobre os seus decretos livres e sobre a continuação do universo.
Leibniz, Discurso de metafísica, tr. Miguel Real, Lisboa Editora, p. 88 (§ 13).
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