Michael Ruse – Pode um darwinista ser cristão?

Será o cristianismo incompatível com o evolucionismo? Aceitar a evolução implica rejeitar o cristianismo?  A questão em Portugal não é muito polémica e não sabemos se isso é bom sinal (povo maduro que já resolveu o problema) ou não (povo imberbe que nem reconhece a existência da questão). Mas no mundo alglo-saxónico, especialmente nos Estados-Unidos, é um tema bem escaldante. Este livro de Michael Ruse editado entre nós pela Ana Paula Editora em 2009, traduzido por Bernardo Palmeirim, representa um passo fundamental na análise do problema. O autor pode ser acusado de tudo menos de desonestidade intelectual. Veja-se uma passagem do prólogo:
Deixem-me ser franco. Penso que a evolução é um facto e que o darwinismo reina triunfalmente. A selecção natural não é simplesmente um mecanismo importante. É a única causa significativa da contínua mudança orgânica. (…) Vejo propósito e função em todo o lado. Sou um fervoroso naturalista e um reducionista entusiasta, e os que não concordam comigo são uns frouxos. Acho que tudo se aplica ao ser humano, ao pensamento e à acção, e que a sociobiologia foi a melhor coisa que aconteceu às ciências sociais no último século. (…)
No entanto, dito tudo isto, nem consigo começar a perceber por que é que tantos – darwinistas e cristãos – acreditam que uma posição como a minha implica uma resposta negativa, imediata e enfática, à questão que o meu título levanta. Por que razão há-de ser o Diabo a ficar com todas as boas melodias? Por que há-de ser o Diabo a ficar com toda a boa ciência e filosofia? Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino ficariam estarrecidos com tal presunção, e nós deveríamos sentirmo-nos do mesmo modo. Talvez seja verdade que um darwinista não pode ser cristão, mas isto é algo que só pode ser decidido após se ter olhado para os dois sistemas e analisado os pontos onde estes possam entrar em conflito e disputa. Não pode ser estabelecido a priori, antes de se começar. E certamente não pode ser estabelecido na feliz e total ignorância daquilo que os outros dizem e acreditam.
Michael Ruse, Pode um darwinista ser cristão?, pp. 7, 8.
Blogue em http://paginasdefilosofia.blogspot.com
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