Notáveis equívocos da arte

O vácuo é uma marca dos tempos atuais. O escritor e ensaísta Affonso Romano de Sant’anna vem a Fortaleza e lança o seu mais recente livro O Enigma Vazio – impasses da arte e da crítica

Tiago Coutinho

 

Affonso Romano de Sant’anna, 72, é um intelectual preocupado com o papel da arte na realidade social. Crítico de algumas produções artísticas contemporâneas, ele acredita que, com a expansão da teoria relativista, e do pensamento dito pós-moderno, a arte contemporânea comete equívocos e legitima obras que ultrapassam os limites das fronteiras da arte.

Poeta mineiro e engajado desde a década de 60, ele vem a Fortaleza para proferir a conferência magna O problema da autonomia do sujeito na arte e na sociedade, na abertura da Semana de Humanidade, evento conjunto das universidades federal e estadual do Ceará. O evento acontece hoje, às 18h30, no Auditório da Reitoria da UFC. De carona, ele lança, amanhã, no Centro Cultural Oboé, sua mais recente publicação O Enigma Vazio: impasses da arte e da crítica.

Este é seu terceiro livro sobre os impasses da arte contemporânea. Sempre com títulos provocativos, ele iniciou os debates sistemáticos, em 2003, quando apresentou o seu Desconstruir Duchamp. Depois, veio A Cegueira e o Saber, em 2006. No fim de 2008, publica O Enigma Vazio, no qual traz uma reflexão principalmente sobre os críticos de arte como Jacques Derrida, Roland Barthes, Octavio Paz, entre outros. “São pessoas que se apaixonaram tanto pela linguagem que acham que a linguagem substitui o real”, argumenta.

Os debates de hoje à noite e de amanhã trazem calorosas discussões sobre a produção contemporânea. O Vida & Arte antecipa suas ideias, na entrevista a seguir. O mundo hoje, para Romano Sant’anna, carece de certezas e há uma profusão de relativismos que trazem como resultado a apreciação exacerbada pelo vazio. Com isso, ele justifica o sucesso do programa Big Brother. Ao mesmo tempo em que critica severamente a cultura de massa, não poupa alfinetadas aos circuitos consagrados da arte brasileira, como 28ª Bienal de São Paulo, em 2008, a Bienal do Vazio.

O POVO – O senhor vem a Fortaleza para a conferência de título O problema da autonomia do sujeito na arte e na sociedade. Em que consiste esse debate?
Affonso Romano de Sant’anna – A ideia básica é tentar entender o que aconteceu com as pessoas hoje em dia nessa sociedade tão complexa que alguns chamam de pós-moderna, onde o indivíduo está totalmente desestabilizado. Analiso, nessa palestra, algumas observações pessoais misturado com teoria, porque senão fica insuportável. Por exemplo, eu estava vindo do Irã alguns anos atrás. O Irã é uma sociedade vigiada. Até aí sem novidades. Mas eu desci em Londres, eu descobri que a Inglaterra e a cidade toda é vigiadíssima. Qualquer pessoa é fotografada e chamada milhares de vezes na cidade. Ou seja, nas sociedades autoritárias e nas sociedades democráticas, o individuo está sendo objeto de um Big Brother. Isso tem uma série de consequências.

OP – A produção artística contemporânea representa essas consequências?
Sant’anna – No caso da arte, existem alguns reflexos bem sintomáticos, dos quais eu trato mais profundamente no meu livro O Enigma Vazio. Existe em relação à arte contemporânea, de hoje em dia, uma desestabilização total. Ninguém mais sabe o que é arte. Não se pode fazer uma discussão sobre a arte, nem sobre ideologia em que nós estamos metidos, sem uma perspectiva epistemológica. A palavra é um pouco esquisita para muita gente. Epistemologia é um ramo da Filosofia que ensina as pessoas a questionarem o próprio conhecimento. Eu devo me perguntar simplesmente quando eu afirmo conhecer alguma coisa a partir de que perspectiva eu estou fazendo as minhas afirmativas. Para se estudar arte – na cultura chamada pós-moderna -, temos que entender uma série de pressupostos. Nesse livro e nessa palestra, eu toco na questão de paradigmas. Até o princípio do século XX, havia certas certezas, certos paradigmas. A partir da modernidade, da teoria da relatividade, do Einstein, do teatro do absurdo, de Beckett e Ionesco, a partir dos questionamentos de Nietzsche, depois Focault e Derrida, os paradigmas entraram em colapsos. Alguns artistas e muita0s pessoas, ao invés de analisarem essas mudanças de paradigma, mergulham nisso de cabeça e irracionalmente. Acabam decretando que não existem princípios, não existe verdade, não existe sistema. Qualquer coisa é arte. Isso é um dos grandes equívocos do século XX. Meu esforço, nesse livro e nos dois livros anteriores, Desconstruir Duchamp e A cegueira e o saber, é questionar uma série de práticas e teorias do século XX. Estou questionando o relativismo de Duchamp, de Roland Barthes, de Derrida, de Focault e de uma série de outros pensadores, que fizeram a cabeça da minha geração, a partir dos anos 70.

OP – Esses autores formaram os intelectuais brasileiros. Como o senhor avalia a crítica de arte produzida hoje nos programas de pós-graduação brasileiros?
Sant’anna – A crítica está muito mal. Está perdida. O fenômeno artístico – ou que pretende ser fenômeno artístico – que é exposto nas bienais ou em muitas galerias é um produto que transcende o espaço da arte. Só pode ser bem compreendido através da Antropologia, da Psicanálise, da Linguística, da Sociologia, dos estudos de Marketing e, sobretudo, da Filosofia. Por exemplo, um dos itens fundamentais da Filosofia que tem tudo a ver com a arte de hoje se chama “o paradoxo do mentiroso”. É um tópico através do qual se tenta entender por meio da verdade e da mentira. Ou seja, quando um mentiroso fala a verdade, nós devemos acreditar nele ou ele está mentindo? Ou seja, o mentiroso joga um jogo habilidoso e confunde o sentido do certo e do errado. A arte contemporânea se rejubila de jogar com o falso e o verdadeiro, a cópia e o original, o original e a reprodução. Isso tem tudo a ver com uma questão não-estética, mas filosófica. Da mesma maneira, nesse livro, eu faço uma análise exaustiva do ponto de vista linguístico, analisando os textos de grandes críticos, como Octavio Paz, Roland Barthes, Derrida e outros. São pessoas que se apaixonaram tanto pela linguagem que acham que a linguagem substitui o real. Por isso, eu os considero sofistas contemporâneos. Sofistas acham que o conceito é que gera a realidade. Com efeito, a chamada arte do século XX se baseia, em grande parte, na arte conceitual. Onde o conceito é mais importante que a realização.

OP – E a questão do mercado da arte?
Sant’anna – Esse é outro problema. Hoje em dia, a predominância do mercado é de tal ordem que a arte tornou-se uma commodity, como se diz na economia, um produto. Nisso, Paulo Coelho é muito hábil. Ele entendeu muito bem e produz um produto que vende bem, mas tem pouco a ver ou, nada a ver, com literatura. O mesmo acontece com muitas coisas nas bienais e nas galerias. Aproveitando as conexões, não sei se o pessoal acompanhou a última bienal. A Bienal do Vazio teve esse nome dado por causa de uma crônica que escrevi chamada Bienal do Vazio. Esse vazio é a metáfora de tudo isso que eu estou falando. Já no livro Descontruir Duchamp, eu falava do enigma vazio. Trata-se de analisar a paixão pelo vazio. Big Brother é a grande metáfora do vazio. As pessoas ficam diante da televisão, vendo a banalidade, o vazio, o nada acontecendo. A Bienal do Vazio e o Big Brother são irmãs siamesas.

OP – Sempre quando se debate a arte contemporânea, volta e meia aparecem discussões éticas. Como o senhor avalia os limites da criação?
Sant’anna – A minha conferência pode se resumir numa pergunta que remete ao título de um filme da década de 70. Cidadão acima de qualquer suspeita (O nome do filme é Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, do diretor italiano Élio Preti, de 1971). Onde um policial, para provar que estava acima de qualquer suspeita, comete um crime para demonstrar que não vai ser punido. A pergunta é: o artista é um cidadão acima de qualquer suspeita? Ele está acima da ética? Me parece que não. Nenhum profissional, em qualquer área, com um mínimo sentido de cidadania, pode se considerar acima da ética. Imagina se todos os outros profissionais decidissem que não devem satisfação à sociedade, como aliás ocorre na justiça e na política. Com o artista é a mesma coisa. Houve um artista na França que fez uma exposição O que eu roubei de vocês. Ele havia roubado objetos na casa dos amigos e expôs. Foi um problema. A polícia foi chamada. O artista não é um cidadão acima de qualquer suspeita. Ele tem obrigações éticas e estéticas. Não significa que ele tenha que se comportar e ter que obedecer os padrões, mas deve estabelecer uma relação dialética.

OP – Diante desse contexto, não há nada que se aproveite nas produções contemporâneas?
Sant’anna – Há muitos artistas que estão tentando romper esse cerco, enquanto outros persistem com a sua linguagem. Alguns exemplos brasileiros… O Franz Krajcberg, por exemplo, oferece uma arte revolucionária, totalmente vinculada ao seu tempo. Esse tipo de arte dele é o avesso. O Vik Muniz conseguiu romper os paradoxos desse tipo de arte. O outro é o gravador Rubem Grilo. Este está fazendo uma exposição maravilhosa aqui no Rio. São gravuras sensacionais. Ele não tem nada a ver com essa coisa da pós-modernidade. É uma arte que escreve para todos os tempos. É uma arte que não está presa nesse dilema.

OP – Há uma resistência muito grande ao seu tipo de pensamento. Como encara essa questão da arte e do pensamento militante?
Sant’anna – Eu sou um artista. Conheço o processo de criação por dentro. Sei quando há empulhação. Sei quando se cultiva o enigma. Eu sou um intelectual que, desde e sempre, participou ostensivamente da coisa do meu tempo, desde os anos 50 e 60, durante a ditadura nos 70. Há sobretudo uma frase da filósofa judia Hannah Arendt, que cai como luva na minha situação. Diz ela “se eu não entendesse a lógica do nazismo, eu enlouqueceria”. No meu caso, se eu não entendesse a lógica da arte do meu tempo, eu também enlouqueceria. Os meus ensaios exatamente visam repor e explicar e dar vazão a esta perplexidade.

SERVIÇOS
O problema da autonomia do sujeito na arte e na sociedade – conferência magna de Affonso Romano de Sant’anna na abertura da Semana de Humanidade. Hoje, às 18h30, no Auditório da Reitoria da UFC (Av. da Universidade, 2853 – Benfica). Informações: 3366 7600.
Enigma Vazio – Impasses da Arte e da Critica (Rocco, 2008, 336 p) – Lançamento do livro de Affonso Romano de Sant´anna. Amanhã, às 19h30, no Centro Cultural Oboé (Rua Maria Tomásia, 531). Informações: 3264 7038.

Leia entrevista na íntegra no www.opovo.com.br/conteudoextra

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