O determinismo é insustentável

Com efeito, na sua forma clássica, o determinismo defende que todo o efeito possui uma causa situada na natureza. Esta causa é, ela mesma, necessariamente o efeito de uma outra causa também presente na natureza que, consequentemente, é por sua vez efeito de outra causa e assim sucessivamente…

Isto tem como consequência que o determinismo seja, como ideia, insustentável: ou detém a cadeia das causalidades, como Leibniz faz ao propor uma causa primeira (Deus, a Natureza, a História ou qualquer outra coisa que queiram), mas, no exacto momento em que finalmente se quer fundar o determinismo, está-se a negá-lo porquanto esta causa primeira, não tendo causa, infringe-o logo que é proposta (dado que o determinismo, ao afirmar que toda a causa tem uma causa, é obrigado a rejeitar a ideia de uma causa inicial); ou deixa-se aberta a regressão até ao infinito, o que significa que o efeito nunca é determinado nem explicado, dado que não é possível considerar que uma explicação que se perde no infinito seja uma verdadeira explicação. Paradoxalmente, o determinismo revela-se, também, tão indemonstrável, tão impensável como a sua inversa (a hipótese de uma liberdade de escolha permitindo inaugurar séries de acções no mundo). (…)

Se se quiser ser verdadeiramente racionalista, é necessário, parece-me, manter o determinismo no plano teórico – científico – não como uma verdade ontológica que valeria pelas coisas em si, mas como um princípio metodológico indefinidamente aplicável, e, por outro lado, conservar a ideia de liberdade como um postulado, também ele certamente indemonstrável e infalsificável, mas de que não é necessário nem desejável, de um ponto de vista ético, abster-se. Porque parece, no mínimo, claro que a ideia de ética normativa é absolutamente incompatível com a hipótese de um determinismo ontológico generalizado.

Luc Ferry, O que é o Homem, Edições Asa, pp. 75, 76.
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4 Comments

  1. Não concordo. Pois o operandis está sendo deduzido de forma totalmente errada, para depois concluir forçadamente que o determinismo é auto-excludente.

    Ora, é óbvio que é errado apontar a causa no próprio mundo fenomênico (como demonstrou Kant), pois se torna um ciclo vicioso. A causa é transcendente.

    Surgiro a seguinte reflexão.. O que causa o efeito da matéria? E por último: A lei da causalidade faz sentido em relação aos objetos e suas relações causais no tempo-espaço ou à própria matéria?

  2. O problema de afirmar a causa como transcendente é o perigo de ultrapassar o plano racional para o plano da fé. Quem tem fé raciocina bem dessa forma, mas quem não a tem como deve raciocinar? «Fé» só alguns têm, mas «razão» todos temos.
    Porque não acreditar que tudo é material? E que, portanto, todas as causas também o são?

  3. Acabo de ler o texto de Luc Ferry e acho que assenta numa série de confusões conceptuais. O que é isso de o determinismo ser apenas um princípio metodológico aplicável apenas no plano teórico? Além disso, o argumento da regressão infinita é simplesmente disparatado, uma vez que não fere minimamente o determinismo: não haver uma explicação causal satisfatória para as nossas acções é algo irrelevante para o que defende o determinista. Pode-se defender o determinismo sem ter de se apontar todas as causas anteriores que fazem parte da cadeia causal que leva à realização de uma dada acção. E mesmo que porventura houvesse uma primeira causa, isso não mostraria que as nossas acções não são causadas por factos anteriores sobre os quais não temos controlo, ou seja, não mostraria que o determinismo é falso.

    Mas o mais curioso neste texto é que o autor defende que o compatibilismo é falso, ao mesmo tempo que defende também ser falso o determinismo e o libertismo. Ou seja, o compatibilismo é falso, mas as teorias incompatibilistas também. Gostava de saber o que o Ferry defende, então. Parece estar aqui a dizer de forma confusa algo semelhante ao que defende Searle, segundo o qual não há boas razões para rejeitar o determinismo a não ser o facto de, na prática, não conseguirmos conceber que todos os nossos actos estão determinados. Mas o Searle não faz todas estas confusões básicas do Ferry.

  4. Se não temos controle sobre o que acontece neste suposto campo imaterial, por que se deve somente “crer” que exista forças interagindo com o campo material? Isso é semelhante a acreditar que quando sonhamos, estamos vivendo uma realidade paralela, sendo que é sabido que é apenas uma reprodução do inconsciente. Por conseguinte, a não distinção entre a nossa realidade vivida e uma realidade especulada descaracteriza nossa habilidade cognitiva chamada razão. É ilógico usar fatores de um campo material em um suposto campo imaterial (com desconhecidas caraterísticas) para justificar o que não se sabe, o que faz o determinismo ser paradoxal e inconsistente. A falta de resposta para a pergunta “o que causa a matéria?” não redunda em transcedência, e a questão não necessariamente precisa ter uma resposta determinista.

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