O livre-arbítrio existe?

Vivemos as nossas vidas face a um contexto de factos, alguns deles variáveis e outros tão firmes como uma rocha. Alguma da estabilidade provém de factos físicos fundamentais: a lei da gravidade nunca nos desiludirá (…), e em todas as nossas diligências podemos fiar-nos no facto de a velocidade da luz se manter constante. Alguma da estabilidade provém de factos ainda mais fundamentais, factos metafísicos: 2+2 será sempre igual a 4, o teorema de Pitágoras confirmar-se-á, e se A=B, tudo o que for verdadeiro sobre A também o será de B e vice-versa. A ideia de que somos dotados de livre-arbítrio é outra condição de base para toda a nossa maneira de pensar sobre as nossas vidas. Contamos com ela; contamos com que as pessoas ‘sejam dotadas de livre-arbítrio’ da mesma maneira que contamos que caiam quando empurradas do cimo de montes e que precisem de comida e água para viver, mas não se trata nem de uma condição metafísica de base nem de uma condição física fundamental. O livre-arbítrio é como o ar que respiramos e está presente em quase todos os lugares onde podemos chegar, mas não é apenas não eterno; evoluiu, e ainda está a evoluir. A atmosfera do nosso planeta evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos como um produto das actividades das primeiras formas de vida simples e continua a evoluir hoje, em resposta à actividade de milhares de milhões de formas de vida mais complexas que tornou possíveis. A atmosfera do livre-arbítrio constitui um outro tipo de meio ambiente. É a atmosfera conceptual que envolve, possibilita e dá forma à vida da acção intencional, que planeia, espera e promete – e que atribui culpa, causa ressentimento, castiga e louva. (…)

[O livre-arbítrio] evoluiu como um produto recente das interacções humanas e alguns dos tipos de actividade humana que pela primeira vez tornou possíveis sobre este planeta podem igualmente ameaçar destruir a sua futura estabilidade, ou mesmo acelerar a sua extinção. Não é garantido que a atmosfera do nosso planeta dure para sempre, e o mesmo se aplica ao nosso livre-arbítrio. (…)

O livre arbítrio é real, mas não é um aspecto preexistente da nossa existência, como a lei da gravidade. E também não é o que a tradição declara que é: um poder divino que dispensa a pessoa do tecido causal físico. Trata-se de uma criação da actividade e das crenças humanas, como a música ou o dinheiro. E ainda mais valiosa.

Daniel C Dennett, A liberdade evolui, tr. Jorge Beleza, Temas e Debates, p. 24-28.
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1 Comment

  1. – Nietzsche

    Penso como Nietzche. Muitas são as razões que me levam a pensar assim, mas para escolher somente uma aponto: a natureza biopsico social do homem. Verifico que a personalidade é o resultado não da vontade livre do homem, mas de uma herança genética (sobre a qual não teve nenhuma influência), com existências singulares e percepções – que de modo similar na maioria das vezes fugiram a qualquer tipo de liberdade, vontade ou controle.

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