O que é uma teoria científica?

Uma teoria só poderá ser declarada científica ou, então, empírica se não der ocasião à refutação, se se imunizar de antemão contra a experiência crucial. A dignidade concedida à ‘refutação’ em detrimento da ‘verificação’ provoca várias consequências:

– Uma teoria com pretensão científica deve, em primeiro lugar, satisfazer uma condição de testabilidade. Será considerada ‘testável’ a partir do momento em que se possam inferir de forma dedutiva um ou vários predicados que, em virtude de algumas condições chamadas iniciais, poderão ser confrontados com factos e submetidos a testes severos e acessíveis.

– O critério popperiano deve, em segundo lugar, ser entendido como uma regra de ‘preferência’ e não como uma regra de ‘justificação’. O homem de ciência nunca pode ‘fundar’ positivamente uma asserção geral, mas é-lhe lícito, em contrapartida, ‘preferir’ uma asserção a outra se defrontar mais eficazmente a prova da experiência.

– Finalmente, uma teoria nunca é mais do que uma hipótese, uma ‘tentativa’ que tem em vista compreender o mundo, nunca pode ser ‘verificada’, mas pode, em contrapartida, ser ‘corroborada’. Será considerada corroborada uma teoria que, até então, tenha resistido com êxito aos testes mais severos e não tenha sido substituída com vantagem por uma teoria rival. Mas, cuidado, a ‘corroboração’ popperiana não é de forma alguma um sucedâneo da ‘confirmação’ carnapiana; uma hipótese corroborada é uma hipótese aceite provisoriamente pela comunidade científica, mas cujo destino natural é ser, um dia, desmembrada pela superveniência de novos factos.

No fundo, para Popper, as teorias mais válidas nunca são teorias verdadeiras, mas apenas teorias que ainda não são falsas.»

Jean Baudouin, “Karl Popper”, Edições 70, Lisboa

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