Precisará Portugal da Filosofia e do pensamento crítico?

Os directores da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa e do curso de Filosofia da Universidade do Minho consideram que Portugal precisa do pensamento crítico proporcionado por esta disciplina. Alfredo Dinis e José Manuel Curado defendem o investimento nesta área como a chave para fazer o país avançar.

A Filosofia está hoje em destaque, com a comemoração do seu Dia Mundial. Alfredo Dinis explica que a celebração deste dia foi decretada pela Unesco, como forma de combater uma tendência internacional de desvalorização desta área e de salientar a sua importância na promoção do pensamento crítico. Este responsável subscreve as preocupações da Unesco quando a organização internacional sublinha que o pensamento crítico «incomoda os políticos» e que «as autoridades dispensam bem o incentivo do pensar crítico».

«A Unesco instituiu este dia mundial para não deixar cair esta ideia de que é necessário que as pessoas pensem criticamente. Isto não quer necessariamente dizer que todos tenham de tirar um curso de Filosofia, mas que o espírito crítico é indispensável em todas as áreas de formação», afirma. Para o académico, sem espírito crítico «aprendem-se as coisas de uma forma passiva, como se não existissem problemas». Esta postura contrasta com a Filosofia, que tem «na sua matriz fundamental interrogar e nunca se sentir satisfeita com as respostas».

O académico insere também esta questão num contexto de «crise de educação» e num cenário marcado pela «cultura audiovisual e informática», muito baseada «na manipulação de símbolos e de máquinas». Na sua opinião, a falta de investimento nestas áreas terá, necessariamente reflexos a médio e longo prazo.

«Em Portugal temos um sistema democrático, em que se pode falar sem que as pessoas sejam postas na cadeia, mas isso não acontece em todos os países. Aí torna-se ainda mais urgente a liberdade de pensamento e o espírito crítico», frisa.

Filosofia associada ao desenvolvimento

José Manuel Curado destaca, por seu turno, que a «Filosofia é um património com mais de 25 séculos na Europa», estando associada «aos países de maior desenvolvimento no planeta». «Os países mais desenvolvidos têm comunidades extraordinárias de pessoas interessadas em Filosofia. A América, o Reino Unido, a França e a Alemanha são os exemplos óbvios. Com que países Portugal se quer assemelhar? Com o Burkina Faso? Com a Coreia do Norte? Veja-se o exemplo notável de Espanha. Tem um nível de desenvolvimento muito superior ao nosso e, curiosamente, tem também uma actividade de filósofos muito superior à nossa. Não é coincidência, pois não? Se calhar precisamos todos de ler uns livrinhos de Filosofia para perceber o que está em causa», afirma.

Em seu entender, é óbvio que «a Filosofia pode contribuir para o desenvolvimento do país». «Um país só se desenvolve se inventar coisas novas. Que tipo de desenvolvimento é que se consegue a chover permanentemente no molhado e a trabalhar e a viver com conceitos que têm décadas? Provavelmente estenderemos a mão a algum país ou grupo de países e pediremos esmola sob a forma de uma receita. E isso é um desenvolvimento emprestado», diz.

O professor universitário sublinha que, de um modo geral, o país precisa «de pensamento crítico, de ter capacidade de olhar para os assuntos de formas alternativas».

«A Filosofia é uma ferramenta incrível para nos auxiliar a pensar de maneiras alternativas, não canónicas, não congeladas no tempo, não mineralizadas», sustenta, advertindo: «A ausência de pessoas que pensam filosoficamente é o melhor sinal de que uma sociedade não irá fazer nada de interessante».

O docente frisa que esta disciplina deve ser transversal. «Encontrei um destes dias o grande cientista de computação português, o professor Luís Moniz Pereira. Ele disse-me que até os engenheiros são excessivamente conservadores porque não cultivam o pensamento crítico. Este é um diagnóstico perfeito. Qual é a terapia? Só há uma actividade intelectual que nos obriga a pensar e a fazer deliberadamente problemas. Tem um nome. Chama-se Filosofia. Quem não faz problemas também não faz mais nada de interessante. É como tudo o resto na vida», declara.

«Os países que inventam o futuro dos outros têm de ter ideias novas e crítica de ideias velhas. As ideias que os países têm assemelham-se aos objectos da nossa vida: se estamos habituados a eles, não queremos outra coisa. Com a actividade de pensamento crítico, a Filosofia é um motor poderoso para que a sociedade invente um futuro melhor», acrescenta.

Cursos com números diferentes

Alfredo Dinis refere o decréscimo do número de alunos na área da Filosofia. O responsável da Católica afirma que «a procura dos cursos de Filosofia tem descido dramaticamente, não só na Faculdade de Filosofia, mas em todas as universidades.

«Temos um grupo muito reduzido. Normalmente temos 15 alunos por ano, sendo que 30 a 40 por cento são estudantes Jesuítas, que depois se preparam para estudar Teologia.

Isso significa que, neste momento, dos 50 alunos que temos no total da Filosofia, 18 são jesuítas», diz.

Por seu turno, José Manuel Curado diz que a licenciatura em Filosofia da Universidade do Minho, que vai no terceiro ano, tem «feito sempre o pleno em todos os contingentes de candidatos: geral, mais de vinte e três anos, titulares de cursos médios e superiores e transferências (internas e externas)». No contingente geral, este ano, o curso teve 199 manifestações de vontade para 30 vagas. Metade dos alunos escolheu o curso como primeira opção e a outra metade como segunda opção.

in Agência Ecclesia

 

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