Quando Lady Gaga e Zizek tiveram um affaire

“Há um grupo de esquerda anárquica aqui em Londres que me odeia”, diz Slavoj Zizek com uma risadinha afetada, enquanto nos acomodamos em um dilapidado sofá de couro num bar de hotel em Bloomsbury. Ele está usando meias fornecidas gratuitamente por uma companhia aérea, uma camiseta italiana que alguém lhe deu e uma calça jeans que poderia ter sido feita décadas antes em uma fábrica fracassada de tratores soviéticos. “Mas, que se dane, vamos falar francamente, sem rodeios –a maior parte da esquerda me odeia, apesar de eu supostamente ser um dos mais importantes intelectuais comunistas do mundo.”

Zizek chama o garçom e pede chocolate quente, Diet Coke e muito açúcar (“sou diabético”). Está desapontado, me diz entre parênteses, porque não estamos fazendo a entrevista no adjacente bar Virginia Woolf, que serve hambúrgueres. “Como seria um hambúrguer Virginia Woolf?”, indaga. “Ressecado, coroado com salsinha, totalmente superestimado. Eu sempre preferi Daphne du Maurier.” Então, ele se lança em uma crítica às pretensões de James Joyce, argumentando que a carreira literária de Joyce desandou depois de “Dublinenses”, e, em seguida, em um panegírico ao minimalismo radical de “Not I”, de Samuel Beckett. Dentro de minutos, já passamos para as visões do filósofo alemão Peter Sloterdijk sobre o milagre econômico da Malásia, as perspectivas do curso de teoria do cinema que Zizek vai dar em Ramallah e a produção feita por Katarina Wagner de “Die Meistersinger von Nürnberg” (os mestres cantores de Nuremberg), em que Hans Sachs é retratado como um nazista saudador de Hitler. Como leitor ou entrevistador de Zizek, a tarefa que nos cabe é rapidamente construir uma rede de pontes suspensas mentais para interligar os territórios intelectuais dele, aparentemente autônomos.

De volta aos anarquistas obscuros. Foram eles (o pessoal de relações públicas de Zizek sugere que seja um grupo de estudantes armados não com bombas incendiárias, mas com uma conta falsa no Facebook) que o caluniaram online, declarando que ele estaria tendo “uma coisa” com a cantora Stefani Joanne Angelina Germanotta, também conhecida como Lady Gaga. Foi uma brincadeira, é claro, mas que setores do que Sarah Palin descreve como a mídia “lamestream” (a grande imprensa boba) resolveram passar adiante, entre eles o “New York Post” e o britânico “Daily Star”, tendo este último divulgado: “Amigos de Lady Gaga temem que o esloveno Slavoj Zizek esteja enchendo a cabeça dela de ideias extremistas”.

O que irritou o não-lorde Gaga não foi tanto a inversão dialética hegeliana injustificada (com certeza, teria sido mais plausível que ele fosse corrompido pelas ideias extremistas dela, não?), mas o fato de a falsa página do Facebook ter alegado que Lady Gaga e Zizek consolidaram seu relacionamento desconstruindo a ideologia patriarcal, o feminismo e a responsabilidade humana coletiva. Foi uma calúnia intolerável: “Eu não falo desse tipo de coisa. Dá para imaginar uma noite mais chata do que essa?”. Então, como você teria passado uma noite com Lady Gaga? Ele ri discretamente, mas evita responder (Zizek faz muitas coisas enquanto conversa, mas responder perguntas não é uma delas).

“Meu erro foi que eu não deveria ter desmentido o relacionamento categoricamente à imprensa. Eu deveria ter dito ‘nada a declarar’, deixando em aberto a possibilidade obscena de eu ser amante dela.” É possível que haja uma brecha em sua vida amorosa: Zizek foi casado com a filósofa eslovena Renata Saleci e com a modelo e estudante lacaniana argentina Analie Hounie, mas se nega a me dizer se elas têm uma sucessora atual. Ele tem dois filhos, um de 30 e poucos anos, o outro com 10 anos de idade.

DYLAN DA FILOSOFIA

O hegeliano lacaniano esloveno de 62 anos está em Londres não para confrontar anarquistas importunos, mas para promover seu livro “Living in the End Times” (vivendo no fim dos tempos) e debater com Julian Assange sobre o significado do WikiLeaks. Zizek é professor da European Graduate School, na Suíça, diretor internacional do Instituto Birkbeck de Humanidades da Universidade de Londres, pesquisador sênior do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana e professor visitante habitual em uma ou outra universidade americana. Ele raramente está em casa, em seu apartamento na capital eslovena: é a resposta da filosofia a Bob Dylan, vocalista de um show itinerante ao vivo que não dá sinais de que vá terminar.

O livro, que ele não hesita em criticar (“escrevi sobre ‘Avatar’ antes de ter visto o filme, mas, tendo visto, tive razão em atacá-lo… A sugestão de que o capitalismo estaria prestes a desabar talvez seja uma fantasia, reconheço”), representa o que seu pensamento tem de melhor e de pior: seus relâmpagos de genialidade revelam uma mente que parece ser incapaz de acompanhar um pensamento por mais de uma página e meia.

Sua performance com Assange e com a jornalista americana radical Amy Goodman no teatro Troxy, na zona leste de Londres, mostrou ser melhor –em parte performance teatral com o efeito de murchar a pomposidade, em parte crítica devastadora do capitalismo contemporâneo. “Tenho que subverter esses eventos”, ele me diz mais tarde. “As perguntas piedosas, os discursos solenes. Meu Deus, como é possível assistir a essas coisas até o fim sem ter vontade de contar uma piada?”

Cerca de 40 minutos depois de iniciado o evento, ele cedeu à tentação e, por um momento, se metamorfoseou em Frankie Boyle, comediante escocês. “‘Tenho uma notícia boa e outra ruim’, diz um médico a um marido. ‘Sua mulher está viva. A má notícia é que ela está com incontinência anal e vaginal tão grave que não pode ter relações sexuais.’ O marido fica revoltado. Qual é a graça? O médico está apenas brincando: a boa notícia é que a mulher morreu.” Vale a pena assistir à cena no YouTube apenas para registrar como Goodman e Assange se esforçam heroicamente para esconder sua repulsa. Assange, não custa reconhecer, também conservou a compostura quando Zizek o chamou de terrorista. “Você é terrorista da maneira como Gandhi foi. Em que sentido Gandhi foi um terrorista? Ele tentou impedir o funcionamento normal do Estado britânico na Índia. Você está tentando impedir o funcionamento normal da circulação de informações.”

Zizek estava falando totalmente a sério. Ele escreveu sobre isso em um ótimo ensaio, argumentando contra uma interpretação liberal do WikiLeaks que reduz seu impacto a “um caso radical de ‘jornalismo investigativo’. Aqui, estamos a apenas um passo da ideologia de blockbusters de Hollywood como ‘Todos os Homens do Presidente’ e ‘O Dossiê Pelicano’, em que dois sujeitos comuns descobrem um escândalo que chega até o presidente, forçando-o a renunciar. Comprova-se que a corrupção chega até o mais alto escalão, mas a ideologia de obras como essas reside em sua mensagem final e otimista: nosso país deve ser um grande país, considerando que dois sujeitos comuns como você e eu podemos derrubar o presidente, o homem mais poderoso da Terra!”

“Na realidade, não descobrimos nada de novo com o WikiLeaks”, ele me diz mais tarde. “Julian é como o garoto que nos conta que o imperador está nu –até o garoto dizê-lo, todo o mundo podia fazer de conta que o imperador não estava nu. Não confunda isso com o heroísmo burguês comum que afirma que existe podridão, mas que o sistema é basicamente sadio. É como um homem que descobre que sua mulher anda transando com outros –até que ele enxergue em detalhes o que ela vem fazendo, pode fazer de conta para si mesmo que não está acontecendo nada de errado. Julian joga por terra esse fingimento. Todo poder é hipócrita dessa maneira. O que o poder acha insuportável é quando a hipocrisia é desnudada.”

OBSCENIDADE ASQUEROSA

Zizek toma um pouco de chocolate quente e limpa a barba. “Falando francamente, eu não deveria ser este homem que fala de ‘O Cavaleiro das Trevas’ e de Hegel, sobre os valores do WikiLeaks e de Lady Gaga. Eu deveria ser um medíocre professor de filosofia em Liubliana.” Ele nasceu em 21 de março de 1949 na capital eslovena, na então Iugoslávia, de pai (Joe) economista e mãe (Vesna) contadora. Teve uma infância infeliz. “Eu lia sozinho, num isolamento freudiano que me preparou para o mundo em toda sua obscenidade asquerosa.” Ele me olha com expressão animada: “Espero que, quando você escrever isto, não seja o jornalista de merda normal que sempre é fiel aos fatos. Espero uma distorção criativa de minha biografia. A verdade é superestimada: sempre fui mais feliz sozinho. Por que isso seria algo interessante de ler?”

Ele subestima sua vida. Adolescente, Slavoj queria ser diretor de cinema, mas deixou essa ambição de lado depois de ser seduzido por Hegel. Como outros filósofos eslovenos em ascensão, foi influenciado pelas leituras do “Capital” de Marx feitas pelo filósofo Boidar Debenjak, sob o viés da Escola de Frankfurt, desde a perspectiva da “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel. “Hegel é tudo para mim. Suas obras reunidas ainda são o bem que eu mais prezo”, diz ele. Porém, mais tarde, ele foi seduzido pelos pós-estruturalistas franceses –Derrida, Kristeva e, sobretudo, o teórico da psicanálise Jacques Lacan. Zizek foi demitido do cargo de pesquisador assistente da Universidade de Liubliana quando sua tese de doutorado foi rejeitada por ser não marxista. Passou quatro anos prestando serviço militar e outros quatro desempregado, antes de conseguir trabalho como escrivão no Centro Marxista Esloveno, onde se envolveu com acadêmicos engajados com a psicanálise lacaniana.

Ele passou o início da década de 1980 em Paris, estudando psicanálise com Jacques-Alain Miller e François Regnault, retornando então à Eslovênia, onde se uniu a grupos dissidentes que criticavam o regime de Tito. “Fui membro do Partido Comunista até 1988, quando se tornou revoltante permanecer em um partido que defendia o militarismo.” Após a queda de Tito, Zizek –que já se tornara uma figura celebrada em seu país, como colunista da revista alternativa jovem “Mladina” e como um dos líderes do Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos– decidiu candidatar-se à Presidência da República da Eslovênia nas primeiras eleições livres, em 1990. Concorreu pelo partido Democracia Liberal e alcançou a quinta colocação. “A política”, ele reflete, “sempre foi uma coisa desprezível. É algo em que eu me envolvo frequentemente contra minha vontade. Meu interesse primeiro é a teoria. Sou um hegeliano em busca de fatos que se encaixem na teoria.”

Durante esse período, ele desenvolveu seu estilo literário em revistas e periódicos dissidentes, com pensamento marxista, hegeliano e lacaniano justaposto a análises críticas do cinema e da cultura popular, apresentadas em um equivalente escrito (e às vezes exasperante) de uma improvisação jazzística. Seu primeiro livro a sair em inglês, “The Sublime Object of Ideology” (o objeto sublime da ideologia), de 1989, levou esse estilo a um público mais amplo. Empregou exemplos da alta e baixa cultura para explicar seu entendimento da dialética de Hegel, a tese básica que fundamenta todas as suas análises e que constata que a contradição é a condição interna de cada identidade. A contradição era também a condição interna de Slavoj Zizek, confirmando o ditado de Oscar Wilde: “Os bem-educados contradizem outras pessoas. Os sábios contradizem a si mesmos”. “Meu pensamento se movimenta tão rapidamente –como poderia deixar de estar repleto de contradições?”, pergunta Zizek.

Mais livros em inglês se sucederam rapidamente, incluindo “Eles Não Sabem o que Fazem” (1991, um livro que apresenta o ressurgimento do nacionalismo militante e do racismo nos ex-países socialistas da Europa do Leste como uma erupção lacaniana de gozo), “Tarrying with the Negative: Kant, Hegel and the Critique of Ideology” (demorando-se com o negativo: Kant, Hegel e a crítica da ideologia) (1993), “Bem-Vindo ao Deserto do Real” (2002), “A Visão em Paralaxe” (2006) e “Em Defesa das Causas Perdidas” (2008).

PENSADOR 2.0

Esses livros (e vários outros) valeram a Zizek muitos elogios. Terry Eagleton o descreveu como “o mais assustadoramente brilhante expoente da psicanálise –em verdade, da teoria cultural em geral– surgido na Europa em algumas décadas”. A diretora de cinema Sophie Fiennes, que o dirigiu em “The Pervert’s Guide to the Cinema” (o guia cinematográfico dos perversos), um documentário de 2005 do Channel 4 em que ele propõe análises maravilhosamente lacanianas de alguns de seus filmes favoritos, fala: “Zizek é um pensador próprio para nossas vidas turbulentas, em alta velocidade, comandadas pela informação, precisamente porque ele insiste na liberdade de parar e pensar profundamente sobre quem você é como indivíduo nesta sociedade fragmentada.” O “Chronicle of Higher Education” o descreveu como “o Elvis da teoria cultural”.

O textinho de divulgação na sobrecapa de seu novo livro diz que ele fez a filosofia ser relevante para toda uma geração de leitores politicamente engajados. Zizek discorda. “Boa parte do que eu escrevo é blablablá, bobagem, algo que desvia minha atenção do livro de 700 páginas sobre Hegel que eu deveria estar escrevendo.”

Em 2009, respondendo a um chamado de seu amigo, o filósofo parisiense Alain Badiou, pela reconsideração do comunismo, Zizek participou de uma conferência em Londres para testar a noção de que o capitalismo estaria (mais uma vez) prestes a se fragmentar em função de suas próprias contradições, e que, portanto, era imperativo teorizar o futuro emancipado. Ele então coeditou “The Idea of Communism” (a ideia de comunismo), um livro que exorta camaradas que abandonaram o comunismo a hastear a bandeira vermelha outra vez. “Não tenha medo, junte-se a nós, volte!”, escreveu Zizek. “Você já curtiu sua diversão anticomunista e foi perdoado por ela. É hora de voltar à seriedade!”

Você é ou alguma vez já foi comunista? “Não como você poderia imaginar. Marx escreveu sobre os bens comunais –ele se referia à terra e à propriedade. Eu me refiro à informação. Quando pagamos aluguel a Bill Gates, isso é um novo tipo de cerco. O WikiLeaks representa uma ameaça a esse tipo de controle da informação.”

Você realmente acredita em uma sociedade desse tipo? “Sou filósofo, não profeta. Não respondo perguntas, mas as formulo para fazer uma crítica de nossa sociedade. Walter Benjamin disse que cabe ao pensador de esquerda não andar no trem da história, mas aplicar o freio. É importante, também, não dizer o que todas as outras pessoas estão dizendo. É entediante, por exemplo, eternamente criticar os Estados Unidos. Por que não criticar a China, em vez disso? Afinal, é na China que foram proibidas as obras de ficção que visualizem mundos alternativos –eles têm medo da imaginação de seus cidadãos. É a China que está colonizando a África.”

Em “Living in the End Times”, Zizek imagina como seria uma nova sociedade comunista. Ele vê como protótipos tanto o seriado “Heroes”, de 2006, da NBC, quanto o romance de 1953 de Theodor Sturgeon “More Than Human”. Ambos têm “a ideia central de uma comunidade alternativa de pessoas aberrantes, onde um grupo de párias forma um novo coletivo” baseado em suas capacidades psicofísicas incomuns (telecinesia, telepatia e assim por diante). Zizek escreve: “A união deles como o novo Um cria as condições para que suas peculiaridades desabrochem. Esse coletivo estranho não nos recorda a afirmação de Marx de que, em uma sociedade comunista, a liberdade de todos será fundamentada na liberdade de cada indivíduo?” Como a descrição feita por Marx da sociedade comunista, isso certamente é demasiado incompleto para fundamentar uma plataforma política. “Sou totalmente pessimista quanto ao futuro, quanto à possibilidade de uma sociedade comunista emancipada. Mas isso não significa que eu não queira imaginá-la.”

É hora de Zizek partir. “Meu filho e eu vamos assistir a ‘Transformers’.” Ele se refere ao terceiro e último capítulo da péssima franquia. Parece que é muito ruim, eu o previno. “Já fui ver outros filmes muito ruins. Sempre há alguma coisa que vale a pena ser vista.”
http://www.jornalfloripa.com.br/artisticasenovelas/index1.php?pg=verjornalfloripa&id=2945

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