Reprodução sem limites

Desempregada, solteira, seis filhos com idades entre 2 e 7 anos. Nada
disso impediu Nadya Suleman, de 33 anos, de tentar uma nova gestação. Após
recorrer a uma clínica de fertilização em Beverly Hills, na Califórnia, a
norte-americana deu à luz óctuplos, seis meninos e duas meninas em 26 de
janeiro. Com os oito bebês, vieram acusações de que a mãe estaria buscando
fama e dinheiro. Com a ajuda de uma empresa, ela inaugurou um site de
internet para arrecadar doações. Desde o parto, Nadya atraiu a ira
popular, recebeu ameaças de morte por e-mail e pelo telefone e foi
obrigada a se esconder.

O caso também aguçou a polêmica sobre o tema da reprodução assistida.
Bioéticos e médicos consultados pelo Correio/Diario foram unânimes em
condenar a falta de legislação sobre a técnica nos Estados Unidos e o
comportamento da mãe dos óctuplos. Segundo eles, os programas de
fertilização precisam atender a uma série de critérios que levem em conta
o bem-estar dos recém-nascidos.

O cipriota Panayiotis Zavos, professor de medicina reprodutiva e diretor
do Instituto de Andrologia dos Estados Unidos, explica que o país não
possui leis que coíbam mulheres sem condições financeiras de usarem a
reprodução assistida para terem vários filhos. “O Congresso
norte-americano poderia votar alguma legislação para prevenir incidentes
desse tipo”, comenta. No Reino Unido, a Lei de Embriologia e Fertilização
Humana tornou-se uma autoridade reguladora para a tecnologia de reprodução
assistida e condicionou os serviços médicos ao bem-estar da criança. “Essa
área é muito difícil e sensível, principalmente pelo fato de os pacientes
terem liberdade para processar médicos que se negarem a fornecer o
tratamento”, acrescenta.

Por trás da reprodução assistida, estão complexas questões culturais.
Apesar de as gestações múltiplas apresentarem maior risco de morte para os
bebês e deficiências a longo prazo, inclusive paralisia cerebral, Zavos
revela “que muitos casais ainda buscam ter mais de dois filhosem uma única
gravidez. Esse comportamento parece se basear em razões financeiras ou no
princípio de ‘pagar dois pelo preço de um'”, afirma. Recente estudo da
Universidade de Iowa revelou que uma em cada cinco mulheres procura
especialistas em infertilidade com o objetivo de ter um único filho.

As chances de gravidez múltipla na reprodução assistida são maiores porque
os médicos podem implantar mais de um embrião no útero. Alguns estados
norte-americanos não limitam o número de embriões a serem transferidos.
“Sob condições naturais, a incidência de gestação gemelar é muito pequena,
pois uma mulher libera um único óvulo por ciclo e, por isso, a
possibilidade de gravidez múltipla é controlada pelo próprio organismo”,
explica Zavos.

Avaliação – Segundo Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade
de Pensilvânia, todos os especialistas têm a obrigação de determinar o
motivo pelo qual as pacientes buscam tratamento, além de avaliarem o grau
e a causa da infertilidade. “Os médicos precisam seguir critériosbásicos
ao decidirem aceitar uma paciente, incluindo avaliação psicológica,
pesquisa financeira para determinar se ela tem condições de sustentar um
filho e apuração da ficha criminal”, afirma. Ele não apoia a discriminação
no interior das clínicas, mas defende que os interesses da criança gerada
se sobreponham a quaisquer considerações.

O bioético recomenda que, caso a paciente tenha mais de 45 anos, o médico
exija uma terceira pessoa que terá a incumbência de criar a criança, em
caso de invalidez ou morte da mãe. Além disso, o especialista tem de abrir
uma discussão franca sobre o destino dos embriões descartados. “Como não
existem leis para a fertilização, fazer duras interrogações para proteger
os interesses da criança é uma obrigação do médico e uma questão ética”,
aconselha. Caplan acredita que Nadya Suleman, a mãe dos óctuplos
norte-americanos, está mentalmente instável. “A questão é saber como ela
se tornou uma paciente, tendo seis outras crianças, sem lar, sem dinheiro,
sem parceiro e sem a aprovação dos próprios pais.”

http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/03/01/mundo5_0.asp

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