Simone Weil: «Queremos sempre algo mais que existir»

Conhecida pelas suas contribuições para a filosofia e activismo social, a
francesa Simone Weil nasceu há cem anos, em Paris. O misticismo aliado ao
idealismo político fez dela um dos nomes mais singulares do pensamento
filosófico do século XX.

Simone Weil nasceu a 3 de Fevereiro de 1909, em Paris, num ambiente
familiar bastante confortável (o pai era médico), marcado por uma vida
agnóstica dentro de uma formação judaica. Apesar da saúde débil que marcou
toda a sua vida, Simone era dotada de uma inteligência precoce (aprendeu
sânscrito a ler Bhagavad Gita e aos 12 anos era fluente em grego antigo)
que lhe concedeu o primeiro lugar de entrada na École Normale Supérieure
em 1928, formando-se três anos mais tarde em Filosofia.

Com um comportamento introvertido, excêntrico e de ideias radicais, Simone
Weil partilhava um sentimento de simpatia para com a classe trabalhadora
(declarou-se Bolchevique aos 10 anos de idade). Envolveu-se em
manifestações e demonstrações pelos direitos políticos trabalhistas, numa
adolescência marcada pelo desencanto que nutria pelas ideias populares
sobre o Marxismo, e que havia de abordar com pessimismo em Oppression et
Liberté.

Apesar das tendências pacifistas, Weil juntou-se aos Republicanos e lutou
na Guerra Civil Espanhola em 1936, identificando-se com o movimento
anarquista. Com uma falta de jeito que atrapalhava os colegas em combate e
após se ter queimado num fogo de cozinha, Weil foi para Assis, onde, na
Primavera de 1937, terá experienciado um êxtase religioso na mesma igreja
onde S. Francisco de Assis rezou, o que a levou a voltar-se para a
religião pela primeira vez na sua vida. Os seus escritos tornaram-se então
mais místicos e espirituais, nunca perdendo as ligações com o mundo da
política e das questões sociais. Simone Weil nunca limitou, no entanto, os
seus interesses ao catolicismo; a sua crescente devoção religiosa fez com
que explorasse outras religiões e tradições, nomeadamente a grega e o
hinduísmo, fazendo jus à sua curiosidade social e cultural.

O ensino de filosofia na escola secundária feminina Le Puy, logo após a
sua agregação na École Normale Supérieure, acabaria por ser o seu único
emprego; em 1942 Weil luntou-se à Resistência Francesa em Londres, onde um
ano mais tarde lhe foi diagnosticada tuberculose. Recusando tratamento
especial pelo seu despojamento em relação aos bens materiais e mantendo
uma atitude política e social activa, Simone Weil comia pouco e o seu
estado de saúde rapidamente se deteriorou, culminando numa morte por falha
cardíaca a 24 de Agosto de 1943.

Tendo a maior parte dos seus escritos sido publicados apenas postumamente,
Simone Weil tornou-se numa das mulheres mais importantes da Filosofia e
activismo socio-político do século XX, única no que respeita à exaltação
dos princípios éticos ligados à igualdade social e ao contacto permanente
com o misticismo e a religião como uma busca de ordem e verdade internas
indispensáveis à tomada de consciência de cada um.

Das obras de Simone Weil traduzidas e editadas em Portugal destacam-se A
Fonte Grega, editada pela Cotovia, Carta A Um Homem Religioso, pela
Ariadne, A Gravidade e A Graça, pela Relógio D’Água e Espera de Deus, pela
Assírio & Alvim.

http://rascunho.net/artigo.php?id=2366

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Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1995, é Professor no Ensino Secundário desde 1994/5 e Formador de professores, com o registo CCPFC/RFO-38329/17. Mestre em Ensino de Filosofia (Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Mestre em Pedagogia do e-learning (Universidade Aberta). Site pessoal: http://sergiolagoa.wordpress.com . Coeditor do site Mil Folhas -- http://www.milfolhas.net Contacto: aulas.sergiolagoa@gmail.com

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