Thomas Kuhn – Relativista? Eu? #1

Imagine-se uma árvore que represente o desenvolvimento das especialidades científicas modernas desde as suas origens comuns, ou seja, da filosofia natural primitiva e dos ofícios. Uma linha subindo por essa árvore acima, nunca se voltando para trás, do tronco para a ponta de um dos ramos, representaria uma sucessão de teorias de ascendência comum. Considerando-se qualquer destas teorias, tiradas de um ponto da árvore não demasiado próximo da sua origem, deveria ser fácil constituir uma lista de critérios que permitiriam a um observador imparcial distinguir, fosse em que momento fosse, as teorias mais antigas das mais recentes. Entre os mais úteis estariam os seguintes: rigor nas predições, em especial das predições quantitativas; o equilíbrio entre assuntos esotéricos e do dia-a-dia; e o número de diferentes problemas resolvidos. Menos úteis a este propósito, embora elementos também determinantes na vida científica, serão os valores como a simplicidade, o alcance das teorias e a compatibilidade com diferentes especialidades. Estas listas estão longe de ser as que precisamos, mas não duvido de que podem vir a ser completadas. Se assim for, o desenvolvimento científico é, como o desenvolvimento biológico, um processo unidireccional e irreversível. Teorias científicas posteriores são melhores que as anteriores na resolução de enigmas dentro do contexto normalmente bastante diferente em que se aplicam. Esta não é uma posição relativista e torna evidente em que sentido eu sou um crente convicto no progresso científico.
Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, tr. Carlos Marques, Guerra e Paz Editores, p. 274.
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1 Comment

  1. É uma excelente citação, na medida em que desarma imediatamente um conjunto de pessoas que terão “ouvido falar” em Kuhn ou o tresleram e utilizam o seu nome para a defesa de relativismos de todo o jaez.

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