Thomas Kuhn – Relativista? Eu? #2

Ouve-se frequentemente dizer que uma teoria que se sucede a outra fica cada vez mais próxima, ou se aproxima cada vez mais, da verdade. Aparentemente, generalizações desse género não se referem à resolução de enigmas e às predições concretas derivadas de uma teoria, mas antes à sua ontologia; quer dizer, à correspondência entre as entidades com as quais a teoria povoa a natureza e o que está «realmente lá».
Talvez haja um outro modo de salvar a noção de «verdade» aplicada a teorias no seu todo, mas creio que não poderá funcionar. Penso que é impossível reconstruir o significado de frases como «realmente lá» independentemente de uma teoria; a ideia de uma correspondência entre o conteúdo ontológico de uma teoria e a sua contrapartida «real» na natureza parece-me hoje, por uma questão de princípio, enganadora. Além disso, enquanto historiador, dou-me conta da implausibilidade desta perspectiva. Não duvido, por exemplo, de que enquanto instrumento de resolução de enigmas, a mecânica de Newton é uma melhoria relativamente à de Aristóteles e que a de Einstein é uma melhoria relativamente à de Newton. Mas não vejo na sua sucessão um caminho coerente de desenvolvimento ontológico. Pelo contrário, em certos aspectos importantes, embora de forma alguma em todos, a teoria da relatividade de Einstein está mais próxima da de Aristóteles do que qualquer uma delas da de Newton. Embora a tentação de representar esta posição como relativista seja compreensível, a descrição parece-me errada. Em contrapartida, se esta posição é relativista, nada vejo que falte ao relativismo para explicar a natureza e desenvolvimento da ciência.
Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, tr. Carlos Marques, Guerra e Paz Editores, p. 275.
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