Um filósofo em Macau no século XIX

UM FILÓSOFO EM MACAU NO SÉCULO XIX

António Aresta

Escola Secundária de Paredes

 

Francisco Saverio Rondina (1827-1897), missionário jesuíta italiano do Real Padroado Português do Oriente, prestou assinaláveis serviços à cultura portuguesa, à educação e ao ensino da filosofia em Macau.

Permaneceu cerca de dois anos no nosso país, como professor de filosofia no Colégio de Campolide. Foi o introdutor do neotomismo em Portugal, antecipando-se ao amanhecer oficial dessa corrente filosófica que se dá em 1879, com a publicação da Encíclica ‘Aeterni Patris Unigenitus’ do Papa Leão XIII.

Parte para Macau, em Janeiro de 1862, para dirigir o Seminário de S.José que se encontrava envolvido numa decadência atroz , com falta de alunos e de vocações. Chega ao Território no fim do mês de Março do mesmo ano. Era um ano especial, porquanto era o regresso dos jesuítas a Macau, cem anos após a expulsão decretada pelo Marquês de Pombal . A lei é de 1759, mas foi executada em Macau apenas em 1762. Em Portugal, sobe ao trono o Rei D.Luiz.

Francisco Rondina recordará mais tarde essa inolvidável viagem para Macau no livro “Viaggio Nell’India e Nella Cina : Flora, Fauna, Costumi e Avventure” (1884), cujo volume segundo descreve o trajecto “Da Canton a Macao”. Há aqui um enorme manancial de informações curiosas, interessantes e perspicazes que ainda não foram devidamente estudadas e enquadradas no orientalismo português. O exemplar que existe no fundo antigo da biblioteca do ex-Leal Senado tem um carimbo a dizer que foi “Oferecido pela Família Nolasco”, muito embora o seu proprietário original tenha assinado o seu nome na folha de rosto, “Manuel J. da Silva , Macau, 16 de Janeiro de 1885”.

Monsenhor Manuel Teixeira recorda que os professores do Seminário, Francisco Rondina (retórica, filosofia racional e moral, teologia dogmática), José Matos (francês, português, literatura), Faria (gramática portuguesa e latina), José Marques (chinês), António Lopes (latim e português) e Tomás Cahil (inglês), formavam uma pequena elite pelo que o estabelecimento de ensino readquiriu o seu antigo prestígio e, escassos anos volvidos já possuía cerca de quatrocentos alunos.

Um desses alunos chamava-se Manuel Gomes da Costa, mais tarde general e marechal, o mesmo que comandou a revolução de 28 de Maio de 1926 , que marcou o fim da anarquia e da turbulência do regime republicano.

Francisco Rondina era um erudito que colocou o seu saber e a sua cultura ao serviço da comunidade. Admirador confesso de Luís de Camões, do padre António Vieira, de Mendes Leal, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, Latino Coelho, entre outros, Francisco Rondina publicou as obras seguintes : “A Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo Reivindicada contra Ernesto Renan”, 1864 ; “Exame do Relatório sobre o Seminário de S.José”, 1868 ; “Algumas palavras dirigidas aos Romeiros do ano de 1860 sobre o antigo sepulcro de S.Francisco Xavier na Ilha de Sanchoão”, 1869 ; Pio XI perante a Revolução”, 1871 ; “A Educação”, 1887 ; “Filosofia Natural e Racional”, 1888. Existem outros títulos publicados na sua língua materna, o italiano.

Como Professor de Filosofia, a sua obra foi notável. A começar pela edição do “Compêndio de Philosophia Theorica e Practica Para Uso da Mocidade Portuguesa na China”, impresso na Typographia do Seminário de S. José em Macau, que era muito mais do que um simples manual escolar. O primeiro volume sairia em 1869 e o segundo em 1870. O índice das matérias é o seguinte : lógica ; lógica menor ou dialéctica ; lógica maior ou crítica ; metafísica geral ou ontologia ; metafísica especial ; cosmologia ; psicologia ; teologia natural ou teodiceia ;  filosofia moral ou ética ; filosofia social ; filosofia da religião.

O redactor do jornal ‘O Echo Macaense’ , na edição de 30 Maio de 1897, esclarece que esta obra foi feita “a expensas do falecido pai do nosso amigo, Sr. Pedro Nolasco da Silva”. Há uma mão invisível por detrás de tudo isto.

O seu propósito era muito ambicioso, “era nosso desejo introduzir aqui um curso trienal de filosofia, no qual o primeiro ano fosse consagrado à lógica e à metafísica ; o segundo à ética e ao direito natural ; o terceiro aos sistemas filosóficos ou à filosofia da religião”. Esse propósito não foi viabilizado porque Macau era “um país dedicado ao comércio, distante do centro da civilização e destituído de bibliotecas”.

Era importante rasgar novos horizontes problematizadores pelo que encarou esse desiderato com um sentido pedagógico de missão : “escrevendo nós este compêndio para a mocidade portuguesa de Macau e dos mais portos da China, em que não há aula de ensino superior, era para nós uma necessidade incluir nele os elementos de outras ciências que aqui não se ensinam, e que longe de serem estranhas à filosofia, formam pelo contrário parte da mesma, como são a jurisprudência, a economia política e a religião considerada debaixo do aspecto filosófico”.

O tomismo estava presente na concepção da obra, “as doutrinas contidas neste compêndio tem por base a filosofia de S.Tomás, exposta na sua ‘Summa Theologica e Philosophica’, e reduzida a método por dois eminentes filósofos, Goudin e Liberatore”, isto porque “a moderna filosofia, desviada do ramo que o cristianismo lhe trilhara, se foi encostando, ora ao materialismo que embrutece o homem, ora ao racionalismo que o diviniza, flutuando incerta entre estes dois sistemas fatais”.

Assim sendo ,“este regresso da filosofia aos bons princípios, abandonados numa época de alucinação e de desvario, constitui o verdadeiro progresso da ciência racional, que honra a época actual, e que promete um futuro melhor para a sociedade”.

O redactor de “O Echo Macaense” registou este impressionante apelo de Francisco Rondina aos seus alunos : “meus queridos meninos – dizia ele no meio das prelecções de filosofia e da arte oratória e poética – ficarei muito contristado quando souber que os meus discípulos depois de completado o curso de filosofia natural e racional foram engraixar as botas aos ingleses, ocupando o lugar de simples amanuenses. Dedicai-vos às ciências e artes liberais e não ao serviço mecânico. Sede advogados, médicos, engenheiros, negociantes, mas não vos deixeis estiolar o corpo e o espírito num escritório de copistas”.

Macau necessitava de homens desta têmpera, visionários e indutores de uma atmosfera cultural bem acima da mediania.

Contudo, os problemas surgiram de onde menos se esperava. No “Exame do Relatório sobre o Seminário de S.José” faz a dissecação de uma campanha contra os jesuítas, liderada pelo padre António Carvalho, entrando em pormenores tais que se vê obrigado a dizer, “perdoe-nos o leitor se descemos tão baixo a miudezas e frioleiras que nos repugnam”. Como é de costume dizer-se, fizeram dos periódicos locais uma barrela da roupa suja de animadversões e desinteligências que, em função da conjuntura, seria piedoso e útil tratar a bom recato.

Para além destes problemas intestinos no seio de uma instituição que tardava em serenar-se, Francisco Rondina tinha tido a ousadia de tocar num assunto que oficialmente não existia enquanto problema humano, jurídico e ético, a emigração dos cules , isto é , o tráfico e a escravatura dos cules, cujos fluxos migratórios para o Perú e para Cuba passavam pelo porto de Macau. Era uma questão tão rendosa quanto intocável.

Como é que o doutrinador da filosofia neotomista e dos valores humanistas e cristãos , poderia ficar silencioso e omisso, compactuando com tamanha ignonímia ?

Este protagonismo levantou enormes problemas e mal-querenças. Francisco Rondina tornou-se uma incomodidade para o ‘status quo’ dominante. Como não podia ser demitido , nem expulso de Macau, foi necessário recorrer a outro estratagema, porventura extraído dos ensinamentos de Maquiavel.

De Lisboa veio, em 1871, uma portaria , claramente ‘ad hominem’ , que estabelecia que os Professores do Seminário teriam de ser obrigatoriamente de nacionalidade portuguesa. Aqueles que não cumprissem esse requisito, teriam de abandonar o Território. Estava encontrada a solução ….

As forças vivas da cidade encabeçadas pelo Presidente do Leal Senado, Lourenço Marques , telegrafaram ao Ministro da Marinha e Ultramar ,tentando anular essa providência legislativa. Nem resposta obtiveram. Apresentaram uma petição ao Governador, com mais de oitocentas assinaturas. Ganharam mais algum tempo, mas a ordem manteve-se. O Bispo de Macau resignou ao seu cargo por não ter sido tido nem achado sobre o estatuto do Seminário e de seus Professores.

De Lisboa, o inconfundível Eça de Queirós espeta estas fulgurantes “Farpas”, em Julho de 1871, depois acondicionadas em “Uma Campanha Alegre” : “ Houve este mês um pânico patriótico : julgou-se que íamos perder Macau ! A China, segundo se afirmava, tinha intimado Portugal a evacuar aquela colónia, onde só devia reinar o rabicho ! Foi acusado acremente o Governo ; a Baixa pululou de alvitres ; e o orgulho nacional da Rua dos Retroseiros pareceu profundamente ferido. Corria que o senhor Carlos Bento, como outrora Caim, ouvia, a horas mortas, vozes vingativas que lhe bradavam : – que fizeste tu de Macau, Bento ? E tanto que o Governo , para nos tranquilizar, bradou de entre as colunas do ‘Diário do Governo’ : – Não, Portugueses, não, Macau ainda é vosso !”.

Outra acha para a fogueira foi lançada por Leôncio Ferreira que publica em 1872 ,“Um Brado pela Verdade ou a Questão dos Professores Jesuítas em Macau e a Instrução dos Macaenses”. Toma a defesa de Rondina e de seus pares, dizendo : “é necessária a união para promover uma educação e instrução apropriadas para os filhos da terra”. Palavras lúcidas e verdadeiras.

Em Xangai, E.Couto dá à estampa, em 1873, “A Verdade Reivindicada em a Questão dos Jesuítas”, uma prova de que esta problemática extravasou Macau.

A injustiça consumou-se e Francisco Rondina e os outros missionários estrangeiros foram obrigados a sair de Macau. Rumaram ao Brasil , fixando-se , mais tarde, em Itália. Aqui, nas páginas de “La Civiltá Cattolica”, continuará a escrever sobre Macau e sobre Portugal.

É surpreendente constatar que esta apaixonante e misteriosa personagem não tenha suscitado um estudo sobre a sua vida, obra e pensamento.

A N E X O

Theses para o Exame de Philosophia do 1º anno no Seminário Diocesano de Macau, em 1892(1)

Lógica Menor

1ª. Da percepção ou simples apprehensão da mente. Divisão da idêa em individual, universal, collectiva e transcendente. Extensão e compreensão das idêas. Predicaveis e predicamentos. Signal da idêa e algumas das suas divisões. Definição e divisão e suas leis.

2ª. Noção do juízo. Signal do juízo, seus elementos e divisão. Propriedades das proposições : oposição, equipolência e conversão.

3ª. Noção do raciocínio. Signal do raciocínio e seus elementos. Syllogismo e suas leis. Syllogismo condicional, disjunticvo e conjunctivo. Fallacias.

Lógica Maior

4ª. A verdade acha-se propriamente no juízo. O Scepticismo, ou duvida universal, é um systema absurdo.

5ª. A certeza é proporcional ao motivo, que por parte do objecto attrahe o assento da mente, e á essência do subjeito conhecedor : divide-se em metaphysica, physica e moral.

6ª. Na percepção do sensível próprio os sentidos, não havendo impedimento nem no órgão nem no meio, não podem errar.

7ª. O testimunho da consciencia é indubitável. A intelligencia não erra em proferir seus juízos ; e em deduzir ilações não pode errar senão accidentalmente.

8ª. A divina revelação (e diga-se o mesmo da auctoridade e consenso do género humano), não pode ser o unico nem, quanto ao tempo, o primeiro critério da verdade.

9ª. O ultimo critério da verdade parece que é a evidencia , objectiva e ontologicamente considerada.

10ª. Em certas circumstancias o testimunho histórico gera em nós verdadeira certeza.

11ª. Tanto o nominalismo como o conceptualismo e o realismo exaggerado são absurdos. O universal reflexo existe só no intendimento : o universal directo existe também nas coisas, quanto ao que se concebe, mas não quanto ao modo como se concebe.

12ª. O primeiro principio, que se acha implicitamente em todos os outros, é o principio de contradicção : Não pode a mesma coisa ser e não ser ao mesmo tempo. O principio de causalidade é indubitável. Os juízos syntheticos a priori, proclamados por Kant, são contrários á razão.

Ontologia

13ª. A noção do ente é a mais comum e simples de todas ; não se pode difinir, e é predicado essencial de tudo aquillo a que se attribui.

14ª. A noção de ente não é generica, mas analoga.

 

15ª. O conceito de substancia não é uma ficção da mente, mas exprime alguma coisa real. Nas coisas creadas, além das substancias, há accidentes reaes, realmente distinctos das substancias. Não repugna que, por virtude divina, se conservem alguns accidentes separados da substancia.

16ª. A possibilidade interna das coisas não depende da nossa intelligencia, nem das coisas existentes no mundo : depende de Deus.

17ª. A noção do finito, que não se funda na previa noção do infinito, não é meramente negativa, mas em parte affirmativa e em parte negativa.

18ª. A noção de causa efficiente é real, e deduzida da observação dos phenomenos. As causas segundas são verdadeiras causas efficientes.

Cosmologia

19ª. O mundo é um ser composto, mudável, finito e contingente. O pantheismo, sob qualquer forma que se apresente, é sempre absurdo.

20ª. O mundo foi produzido por Deus sem matéria pre-existente. A creação não repugna. O ultimo fim da creação é a glória de Deus, a qual consiste na manifestação dos attributos e perfeições divinas.

21ª. Os viventes differem essencialmente dos não viventes. As plantas vivem, mas não sentem. Os brutos animaes não são autómatos, mas gosam da faculdade de sentir, sendo porem destituídos de intelligencia.

22ª. São possíveis os milagres.

A. M. D. G.

 

(1)  Macau, Imp. Na Typographia do Seminário, 1892, 3 pp. [manteve-se a grafia original].

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