Mario Perniola – A estética do século XX

Esta actividade multiforme [da estética do século XX] é, a meu ver, redutível a quatro campos conceptuais bem determinados e identificáveis através das noções de vida, forma, conhecimento e acção. (…) Toda a estética no sentido restrito (ou seja, que se autodefine como tal) pode ser enquadrada nestas quatro áreas problemáticas, sendo que as duas primeiras constituem substancialmente um desenvolvimento da Crítica do Juízo de Kant e as duas últimas um desenvolvimento da Estética de Hegel. O facto de todo o enorme edifício da estética do século XX se poder reportar, nas suas premissas fundamentais, a duas únicas obras da passagem do século XVIII para o XIX revela não só a simplicidade como também a coerência desta disciplina.
A estas considerações estruturais há a acrescentar uma observação de carácter histórico. As quatro referidas áreas problemáticas encontram o seu maior florescimento na primeira metade do nosso século: por volta dos anos sessenta ocorre, no interior de cada uma delas, uma viragem que se revela como uma aplicação, a novos contextos e condições, do aparelho conceptual anteriormente elaborado: a estética da vida adquire um valor político; a estética da forma um valor mediático; a estética cognitiva um valor céptico; e a estética pragmática um valor comunicativo. É evidente que quem hoje pretenda posicionar-se no interior de uma destas áreas e apresentar contributos originais terá de confrontar-se respectivamente com a política, com os media, com o cepticismo, com a comunicação. A inversa também é verdadeira? Certamente que sim: a estética encontra-se mais do que ocultamente presente e activa na biopolítica, na «mass-mediologia», no anarquismo epistemológico e na teoria da comunicação.
Mantém-se fora desta esquema a área à qual a estética vai buscar o seu nome, o sentir, ou seja, o âmbito da sensibilidade, da afectividade, da emoção. Aqueles que, no século XX, deram neste âmbito os mais importantes contributos não se consideraram a si mesmos como estudiosos da estética, mas antes como psicólogos, psicanalistas, ontologistas, teóricos da linguagem ou da literatura, filósofos da religião ou da sexualidade, filósofos tout court. Ou até nem mesmo filósofos, mas simplesmente pensadores ou escritores! Porquê? Aquilo que, neste campo, emerge como novidade no século XX é irredutível a um sentir mais cedo ou mais tarde conciliado e pacificado como o estético; por outras palavras, o sentir do século XX não pode ser reconduzido a Kant e a Hegel. Também ele conhece uma transformação que pode ser definida como fisiológica.
Mário Perniola, A estética do século XX, tr. Teresa A. Cardoso,
Editorial Estampa, pp. 10, 11.
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8 Comments

  1. Uff! Perdoem-me, mas não consigo mesmo resistir.

    Li o texto umas três vezes para ver se compreendia bem o que queria o autor dizer e ainda não tenho a certeza de o ter conseguido, de tão vago que é. Mas o que compreendi parece-me disparatado.

    Dizer que toda a estética do século XX se reporta a Kant ou a Hegel equivale a deixar de fora a maior parte do que de melhor se tem feito na estética do século XX. Se o autor se estivesse a referir à estética do século XIX, ainda se aceitava. Mas a estética hegeliana praticamente saiu de circulação após ter influenciado fortemente o romantismo.

    Para dar um exemplo esclarecedor, uma das melhores (senão mesmo a melhor) introduções contemporâneas à estética (Aesthetics and the Philosophy of Art, de Robert Stecker) não refere uma única vez o nome de Hegel, apesar de as referências a Kant serem frequentes. E passa-se exactamente o mesmo com outra das melhores, a Introdução à Estética, de Dickie (recentemente traduzida pela Bizâncio), onde Hegel não é nomeado uma única vez, apesar de este livro ter uma parte inteira sobre a história da estética. Em contraste, nomes como Kant, Hume e Schopenhauer, entre outros, são repetidamente referidos.

    Mas o mais surpreendente é todo o conteúdo do último parágrafo, o qual é até difícil classificar, tendo até em conta o que já tinha sido afirmado antes. Vejam-se as seguintes duas afirmações, a primeira do primeiro parágrafo e a segunda do último:

    “O facto de todo o enorme edifício da estética do século XX se poder reportar, nas suas premissas fundamentais, a duas únicas obras da passagem do século XVIII para o XIX (de Kant e Hegel) revela não só a simplicidade como também a coerência desta disciplina.”

    “Aquilo que, neste campo, emerge como novidade no século XX é irredutível a um sentir mais cedo ou mais tarde conciliado e pacificado como o estético; por outras palavras, o sentir do século XX não pode ser reconduzido a Kant e a Hegel.”

    Repare-se na contradição quase literal destas duas passagens.

    Isto partindo do princípio que se percebe o que é isso da “estética da vida” e o que significa isso de a “estética cognitiva adquirir um valor céptico”.

    Tenho verificado que a estética é, sem dúvida, a disciplina filosófica onde se encontram mais disparates, talvez porque circule a ideia de que na estética não há limites para o que se pode dizer, como se fosse afinal mais uma forma d arte.

    Uma coisa é clara no texto de Perniola: é um fervoroso adepto de reduções e redutibilidades.
    Mas Perniola não tem culpa do que diz, pois como bom situacionista pós-modernista tudo lhe é permitido. É certo que não é um Zizek, mas também nem todos conseguem ser Zizekes.

    Um abraço

  2. Nada há a perdoar mas a saudar!
    O texto é extraído de um livro me que Perniola analisa os tais 4 campos em que acha poder catalogar a reflexão estética do século XX. Estão já agendados mais dois extractos desse mesmo livro. Não sendo especialista na área não encontro na sua argumentação falhas demasiado evidentes. Mas obviamente elas podem existir.
    Mas nos excertos que publicamos fica patente o objectivo do autor: recentrar a estética no «sentir». (Por isso não me parece que haja contradição naquelas passagens, pois para perniola o sentir esteve ausente das reflexões estéticas do século XX – devedoras de Kant e Hegel – e para ele esse sentir é central na estética e não pode ser reduzido às premissas kantianas e hegelianas.)
    Se o faz de forma consistente, é trabalho de análise que me é impossível realizar agora. Daí a saudação a todos os comentários de todos os visitantes do blogue.

  3. Caro Rui, a inconsistência parece-me clara. Vejamos:

    No primeiro excerto que citei diz que “TODO o edifício da estética do século XX” se reporta apenas às obras de Kant e Hegel

    Na segunda citação diz que a novidade que emerge no século XX é que a estética do sentir NÃO PODE ser reconduzida a Kant e Hegel.

    Não é isto inconsistente? A não ser que os termos “reporta” e “reconduzir” tenham algum significado especial distinto diferente do que é suposto, não vejo como podem ser ambas as afirmações verdadeiras.
    Se o sentido é outro, confesso que não me consigo habituar a um discurso tão vago e parece-me sempre que este tipo de terminologia escorregadia é apenas uma forma de escapar de qualquer objecção: há sempre uma maneira de dizer que afinal o sentido é outro.

    E já não falo do resto, nomeadamente da “estética do sentir”. Mas que coisa é essa, afinal?

  4. Vejamos:
    «No primeiro excerto que citei diz que “TODO o edifício da estética do século XX” se reporta apenas às obras de Kant e Hegel»
    Certo

    «Na segunda citação diz que a novidade que emerge no século XX é que a estética do sentir NÃO PODE ser reconduzida a Kant e Hegel.»
    Esta misteriosa estética do sentir é a própria proposta do Perniola. Na primeira proposição ele refere-se às interpretações/teorias sobre o fenómeno estético. Na segunda ele afirma a sua posição que é diferente dessas outras. Daí não considerar que haja inconsistência. É claro que excertos como estes que publicamos servem apenas para aguçar o apetite pela leitura das obras e não para expor no seu todo as posições dos autores.
    Procuramos sempre passagens claras, mas sabemos que nem sempre conseguimos. Mas são sempre convites à reflexão e à leitura. Não podia ser de outro modo num espaço como um blog. Este contacto com Perniola espero que tenha despertado interesse em conhecer a sua argumentação. É certamente discutível, como quase tudo em filosofia.

  5. Sim, parece ser essa a ideia. Ele não refere (nas leituras que fiz) outro autor com esse enfoque nesse «sentir».
    Mas das leituras que faço dele não tenho a impressão de estar a ler um dogmático… ou lunático.

    Rui Areal

  6. Esta troca de comentários não deve dar a ideia que tenho uma admiração especial pelo Perniola. Não tenho. Um autor que numa história da estética do século XX fala de Wittgenstein quase como numa nota de rodapé… Eu fui aluno do Vítor Moura e isso dá (pelo menos) a clara convicção da importância de Wittgensteina para a reflexão estética do século XX.

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